
Embora Schopenhauer manifeste simpatia pelo estoicismo, especialmente nos conselhos encontrados na Arte de Ser Feliz, no MVR I § 16, ele faz uma bela análise crítica da suposta sabedoria estóica. Há uma passagem, próxima ao final do § 16, que sempre leio com deleite. Nesta passagem, Schopenhauer afirma que a sabedoria estóica
“nunca pôde ganhar vida ou verdade poética interior, mas permaneceu um boneco de madeira com o qual não se pôde fazer nada. O sábio estóico não sabe aonde ir com sua sabedoria, e sua tranqüilidade perfeita, contentamento, beatitude, contradizem tão frontalmente a essência da humanidade que não nos permite de modo algum representação intuitiva”.
Lembremos que, para Epicteto, somente seremos felizes quando harmonizarmos nossas ações com a natureza, reconhecendo o que é verdadeiramente nosso. Ele declara que “não importa o que esteja acontecendo ao seu redor, faça o melhor que estiver ao seu alcance e aceite o resto como vier”. Daí ser aceitável que muitos considerem a doutrina ética de Epicteto convergente com a “prece da serenidade”. Como se sabe, essa prece reclama por serenidade, coragem e sabedoria. A serenidade permitiria a aceitação das coisas que não se pode mudar, a coragem a força, a determinação para mudar o que se pode mudar e a sabedoria nos daria o discernimento para reconhecermos a diferença entre o que se pode mudar e o que não se pode. Assim, a sabedoria regularia a prática da serenidade e da coragem. Ela determinaria quando é o caso delas serem acionadas. Mas tal sabedoria me parece sobre-humana.
Ademais, o estoicismo pretende que, se formos virtuosos, seremos inevitavelmente felizes. Mas isso não está certo. Aristóteles está mais próximo da verdade ao ensinar que uma vida feliz depende de bens exteriores, bens do corpo e bens da alma. Como os estóicos acreditam que o único bem é o bem da alma, a virtude, eles desprezam nossos desejos por conforto material, por saúde, por amor, por amizade. Veja o caso do amor. Quem ama não pode ser estóico. Você fica dependente do amor do outro e isso seria falta de sabedoria. Epicteto declara que devemos considerar nossos “anseios mais profundos e secretos como se fossem apenas fatos” a fim de vermos “como são frágeis e desatinados”. Ele deveria ter escrito para seres angelicais ou divinos, não para criaturas desejantes como os humanos. Além do que, eu poderia contestar que falta beleza à alma estóica. A sua imperturbabilidade, a sua ataraxia e apatia, podem até ser bons remédios para algumas circunstâncias, mas como receita geral para o viver são venenos que endurecem nossos corações, tornando-nos indiferentes a nós mesmos.