18 setembro 2014

Olhei para o rosto perturbado, que me era tão caro

Há uns 4 anos publiquei isso aqui no blog. Continuo com a mesma opinião sobre os que não se emocionam com tais coisas.

Ana Grigórievna chegou à casa de Dostoievski na hora costumeira e o encontrou perturbado.


“Tratei logo de perguntar a Fiódor Mikháilovitch o que estivera fazendo nos últimos dias.

─ Fiquei inventando um novo romance ─ respondeu.


─ O que me diz? Um romance interessante?


─ Para mim, muito interessante, mas não consigo ajeitar o final. Está implicada no caso a psicologia de uma jovem. Se eu estivesse em Moscou, pediria conselho a minha sobrinha Sônietchka, mas agora peço ajuda à senhora.


Orgulhosa, já me dispunha a ajudar o talentoso escritor.


─ Mas, quem é o herói do seu romance?


─ Um artista, um homem nada moço, bem, digamos, uma pessoa da minha idade.


─ Conte-me, conte-me por favor ─ pedi, muito interessada por esse novo romance.


E então, em resposta ao meu pedido, jorrou uma brilhante improvisação. Nunca, quer antes, quer depois, ouvi de Fiódor Mikháilovitch um relato tão inspirado. Quanto mais ele se adiantava, mais claro me parece que Fiódor Mikháilovitch contava sua própria vida, mudando apenas as pessoas e as circunstâncias. Estava ali tudo o que ele me contara antes, mas de passagem, aos fragmentos. Agora, um relato minucioso e conseqüente explicava-me muita coisa de suas relações com a falecida esposa e com os parentes ...


─ .... Mas eis que ─ prosseguiu Fiódor Mikháilovitch em seu relato ─ nesse período decisivo de sua vida, o artista encontra em seu caminho uma jovem da idade da senhora, ou um ano ou dois mais velha ....Será possível que a jovem, tão diferente dele pelo gênio e pela idade, possa amar o meu artista? Não será uma inexatidão psicológica? Era sobre isto que eu queria saber a sua opinião, Ana Grigórievna.


─ Mas, por que será impossível? Se, como diz o senhor, a sua Ánia não é uma coquete fútil, mas possui um coração bom e sensível, por que ela não há de amar o seu artista? O que há no fato de ele estar doente e ser pobre? Será possível que se ame apenas pela aparência exterior e pela riqueza? Que sacrifício haveria da parte dela? Se ela o ama, será também feliz e nunca terá ocasião de se arrepender!


Falei com ardor. Fiódor Mikháilovitch me olhava perturbado.


─ Acredita realmente que ela poderia amá-lo sinceramente, e para a vida inteira?


Calou-se um pouco, como que indeciso.


─ Coloque-se por um instante no lugar dela ─ disse, a voz trêmula. ─ Faça de conta que eu sou aquele artista, que lhe declarei o meu amor e lhe peço para ser minha esposa. O que me responderia nesse caso?


O rosto de Fiódor Mikháilovitch expressava tamanha perturbação, um sofrimento tão sincero, que eu compreendi finalmente não se tratar de simples conversa literária, e que eu desferiria um golpe terrível em seu orgulho e amor-próprio, se desse uma reposta evasiva. Olhei para o rosto perturbado de Fiódor Mikháilovitch, que me era tão caro, e disse:


─ Eu lhe responderia que o amo e que vou amá-lo a vida toda” 



(A. G. Dostoiévskaia)


Quem não se emocionar não tem coração.

Um comentário:

Unknown disse...

Se emocionar é pouco. Acho que já chorei uns dois litros. Obrigada por compartilhar algo tão lindo.