05 Fevereiro 2010

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder de amor

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n’alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas:

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas:

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objetos de horror co’a idéia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.


(Manuel Maria Barbosa Du Bocage).

Ah! Quem não perder a respiração por pelos menos 10 segundos tem alguma deficiência na alma. (e é "poder de amor" mesmo).



02 Fevereiro 2010

Dr. Sheldon Cooper


The Big Bang Theory é um belo passatempo. Eu tenho uma queda por Two and Half Men, mas ultimamente tenho rido muito mais com a turma de Shledon, Leonard, Howard, Raj e Penny. Eu também gosto de Friends, mas o mundo deles é deveras medíocre (talvez muito próximo da nossa vidinha insípida). Eles cometem eventualmente alguns excessos, mas em geral são muito comportados para o meu gosto. Já Charlie Harper encanta pelo seu extremismo etílico e sexual (que nem é tanto assim). Bem, mas com a turma de Sheldon é muito diferente. Ali, com exceção de Penny, temos pessoas extremas. E mesmo Penny sendo relativamente normal dá de 10 numa Phoebe (sem graça).

Raj é ótimo. A sua incapacidade de falar com mulheres seria razão para a procura de tratamento psiquiátrico. Mas ele não procura psicólogos nem psiquiatras. Ele toma umas e, shazan, consegue falar com as mulheres. Howard é pateticamente incorrigível. É o único dos quatro que tem um sentido mais apurado da existência do mundo sexual. Mas no caso dele, ter esse sentido mais apurado implica tornar-se um ridículo nerd que pensa ser um don Juan. Sua inabilidade crônica com as mulheres também seria motivo para uma consultazinha no psicólogo da esquina. Mas ele encara sozinho a parada. Leonard é o ponto de equilíbrio. Ou melhor, uma tentativa de equilíbrio. Ele se acomoda melhor ao mundo dos comuns filhos da terra do que seus outros três amigos. Claro que, para Penny, somente Leonard poderia ter alguma chance. Imaginem ela e Raj. Ou com Howard. Impossível. 

Agora, e Sheldon? Sheldon é uma maravilha! A neurose perfeccionista dele me lembra Monk às vezes. Mas Monk não é uma metralhadora cerebral, não é arrogante e seu universo mental é poderoso mas não fascinante. Monk é até queridinho. Dá pena. Ele precisa das pílulas mágicas, precisa ir ao consultório. Ademais, Monk não é um intelectual. Sheldon é um intelectual. Talvez intelectual seja pouco. Vamos conceder: ele é um homem do conhecimento. Mas ele é, claro, uma aberração humana. Quem gostaria de ter como amigo uma pessoa como Sheldon? A rigor, nem seus amigos são verdadeiramente seus amigos. Às vezes temos a impressão de que são apenas 4 amiguinhos de infância que têm em comum o gosto pela ciência e, principalmente, pelos mesmos gibis, filmes e jogos (eles gostam de brincar juntos). Sheldon é uma espécie de andróide. É interessante que ele, sendo o menos normal de todos, é o que menos sofre consigo mesmo. Leonard é cheio de hesitações (coloco aqui também seu faro sexual). Howard se exaspera com sua mãe e com os chutes que leva. Raj dá sinais de sofrimento com seu mutismo.

Sheldon é firme, autoconfiante, cabotino, soberbo, esnobe. E, sobretudo, irônico, sarcástico e com um senso de humor primoroso. Num dos episódios, Penny, preocupada se seu nível intelectual não está muito aquém do de Leonard, pergunta a Sheldon:

- He [Leonard] ever been involved with someone who wasn’t a brainiac?
Sheldon – Oh! Well, a few years ago he did go out with a woman who had a Ph.D. in French literature.
Penny – How is that not a brainiac?
Sheldon – Well, for one thing, she was French. For another, it was literature.

Um show, simplesmente um show.

31 Janeiro 2010

Uneasiness



Locke. Ensaio sobre o Entendimento Humano, II, 21.

29 Janeiro 2010

Chuva

18 Janeiro 2010

Haiti, anjos e Deus

Que coisa horrível, não? Milhares de pessoas mortas. Aquelas que não sofreram senão um golpe na cabeça, aquelas que morreram rapidamente podem ser consideradas felizes perto do sofrimento daqueles que, sob escombros, sentiram a sua vida ser aos poucos esmagada. Dizem que depois de 4 dias é improvável a sobrevivência. Quanto tempo dura 4 dias? 1 ano? 5 anos? Dura até a chegada da morte redentora. De fato, a morte redime-nos da dor, tornando-se desejável. E imaginem aqueles cuja vida foi esmagada com a morte das pessoas que amavam. Alguém terá tentado se matar? Quanto sofrimento! E há quem consegue encontrar um sentido para tudo isso. E os mortos sendo enterrados numa vala comum? Numa vala comum! Prestem atenção nesse nome: “vala comum”.

Mas existem os verdadeiros anjos humanos. Nesses salvadores eu acredito. O Haiti nos ensina muitas coisas.

*  *  *

« J'ignore s'il [Dieu] existe, mais il vaudrait mieux, pour son honneur, qu'il n'existât point »
(Jules Renard)



Agora, algo perturba profundamente meu pobre cérebro: pessoas agradecendo a Deus por terem sobrevivido. Pessoas que perderam suas casas, seus filhos, pais, irmãos, mulheres. É possível entender palavras de agradecimento a Deus como meras palavras retóricas de um individuo piedoso exprimindo simplesmente sua fé. Mas se levarmos a sério o que é dito, se aceitarmos que um padre, um pastor, um líder religioso qualquer, quando agradece a Deus a vida dos sobreviventes profere palavras ponderadas e supostamente significativas, então as reflexões das pessoas razoáveis deveriam ser por demais intrigantes. Por que agradecer a Deus apenas pela vida dos sobreviventes e não acusá-lo pela morte de milhares de pessoas? Não seria mais coerente agradecer a Deus também pelas mortes? Agradecer a Deus por tudo: pelo ar que respiramos, pela luz do Sol, pela vida e pela morte. É pouco razoável imaginar que Deus tenha salvado apenas algumas pessoas, tendo as amparado por alguma predileção especial. Vejam, talvez seja um erro querer culpar Deus pelo que ocorreu. Talvez Deus não tenha nada a ver com terremotos. Mas se for assim, por que Deus teria algo a ver com a salvação de vidas num terremoto? Porque se Deus se envolveu com esse terremoto, salvando pessoas, ele se envolveu completamente, ou seja, ele também achou necessário eliminar a vida das pessoas. Ou ele não julgou necessário salvar ninguém – e tudo poderá ser remetido à causalidade natural, ou à causalidade por liberdade dos homens -, ou ele julgou necessário agir e ... Bem, sabemos o que aconteceu.

Aos interessados pelo tema, poderá ser últil apertar o mouse.


Copyright © 2010 Aguinaldo Pavão - Londrina - PR

04 Janeiro 2010

Não quero morrer, nem ser imortal

Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

(Epicuro. Carta a Meneceu).

Mas se a morte nos priva das sensações, então ela nos priva do bem, que reside nas sensações. É claro que alguém poderia, em defesa de Epicuro, alegar que pelo fato da morte ser um “estado” de não sensação, ela não poderia ser um mal porque ela não apenas não permite sensações como tampouco é sentida por nós. Essa ideia, depois repetida por vários altivos pensadores (como Schopenhauer), conduz à equiparação do que seria o tempo antes de nosso nascimento com o tempo depois de nossa morte. Como geralmente ocorre com pessoas normais, não há perturbação com o fato de nada termos sido antes de nascer. Assim, não deveríamos nos perturbar com o fato de que nada seremos depois de morrer.

Se pensarmos num antes, num durante e num depois e colocarmos o nosso viver nesse “durante”, resulta, a meu ver, evidente que o raciocínio está errado. O que ocorreu antes – ou a simples constatação de que nada éramos antes de nascer – não incomoda porque pensamos na continuidade da vida, do que é bom, do prosseguimento das fruições. Ora, essa continuidade tem uma direção para o futuro, não para o passado.


Somente um mergulho total no presente poderia tornar aceitável a tese de Epicuro. Mas como não somos indiferentes ao tempo, nosso presenteísmo é muito mais retórico, verborrágico, ou um simples mimo de nosso autoengano. Para que nossas fruições aprazíveis ocorram dificilmente poderíamos descartar o trabalho comparativo de nosso cérebro. Epicuro tem razão, porém, em criticar o desejo de imortalidade. Eu já dei alguns palpites sobre esse tema aqui.

 A morte é indesejável. A imortalidade também. Por que será que me lembrei de Sísifo?

Copyright © 2010 Aguinaldo Pavão Londrina - PR

01 Janeiro 2010

Rio Grande do Sul!



Lula é o brasileiro mais confiável, aponta Datafolha

FERNANDO BARROS DE MELLO

DA REPORTAGEM LOCAL

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a pessoa mais confiável para os brasileiros, segundo ranking com 27 personalidades elaborado pelo Datafolha. Lula está à frente de apresentadores de TV como William Bonner e Silvio Santos, do padre Marcelo Rossi e de cantores como Roberto Carlos e Chico Buarque.

Os 11.258 entrevistados, de 14 a 18 de dezembro, deram nota de 0 (menos confiável) a 10 (mais confiável) às personalidades apresentadas. Lula lidera a lista, com nota média de 7,9.

Além disso, 39% dos brasileiros deram nota 10 ao presidente, contra 4% que lhe deram 0.

Lula é mais admirado no Nordeste, com nota média de 8,74, contra 7,14 no Sul e 7,57 no Sudeste. O petista recebeu nota 10 de 62% dos pernambucanos, 53% dos cearenses e 48% dos baianos. Em São Paulo, recebeu 10 em 31% dos casos. No Rio Grande do Sul, onde teve pior desempenho, obteve 15% das notas máximas.

[...]”

Folha de São Paulo, 01 de janeiro de 2010.


E a Folha não grifou!