Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
(Epicuro. Carta a Meneceu).
Mas se a morte nos priva das sensações, então ela nos priva do bem, que reside nas sensações. É claro que alguém poderia, em defesa de Epicuro, alegar que pelo fato da morte ser um “estado” de não sensação, ela não poderia ser um mal porque ela não apenas não permite sensações como tampouco é sentida por nós. Essa ideia, depois repetida por vários altivos pensadores (como Schopenhauer), conduz à equiparação do que seria o tempo antes de nosso nascimento com o tempo depois de nossa morte. Como geralmente ocorre com pessoas normais, não há perturbação com o fato de nada termos sido antes de nascer. Assim, não deveríamos nos perturbar com o fato de que nada seremos depois de morrer.
Se pensarmos num antes, num durante e num depois e colocarmos o nosso viver nesse “durante”, resulta, a meu ver, evidente que o raciocínio está errado. O que ocorreu antes – ou a simples constatação de que nada éramos antes de nascer – não incomoda porque pensamos na continuidade da vida, do que é bom, do prosseguimento das fruições. Ora, essa continuidade tem uma direção para o futuro, não para o passado.
Somente um mergulho total no presente poderia tornar aceitável a tese de Epicuro. Mas como não somos indiferentes ao tempo, nosso presenteísmo é muito mais retórico, verborrágico, ou um simples mimo de nosso autoengano. Para que nossas fruições aprazíveis ocorram dificilmente poderíamos descartar o trabalho comparativo de nosso cérebro. Epicuro tem razão, porém, em criticar o desejo de imortalidade. Eu já dei alguns palpites sobre esse tema aqui.
A morte é indesejável. A imortalidade também. Por que será que me lembrei de Sísifo?
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