15 Fevereiro 2012

As paixões como desculpa

Sei que atrocidade vou cometer, mas a cólera em mim é mais forte que a razão.(Medéia)
Antes de tudo, deixem-me esclarecer que entendo a palavra desculpa no titulo como subterfúgio (manobra ou pretexto para evitar dificuldades; pretexto, evasiva – cf. o glorioso Houaiss). E por paixão entendo todas as nossas inclinações em geral. (O parafuso está um pouco frouxo, mas serve para esse post).

Não, Medéia, não! Sem essa. (E eu te admiro tanto ...). Foste tu a protagonista, a autora dos crimes. E foi a tua vontade, a tua razão, não a tua paixão, não a cólera, a causa dos males que praticaste. Tu não foste, Medéia, vítima do teu “indomável orgulho”, do teu ciúme. Não, não mesmo.

Nós, sem poesia, frequentemente ouvimos e dizemos: “Desculpe-me, agi por impulso”. “Perdoa-me, agi movido pelas minhas inclinações”. E blábláblá. Subterfúgios que querem nos isentar de responsabilidade. Não fui “eu” quem agi. Foram meus impulsos. Não fui eu quem foi agressivo, indiferente, mesquinho, egoísta. Não, não, foram minhas inclinações. Ora, ora, ora.

Mas a verdade é que ninguém age, a rigor, por impulso. Ninguém age, a rigor, por inclinações. Agimos por escolhas. Agimos escolhendo seguir nossos impulsos. Agimos querendo seguir nossas inclinações. Hume está errado. (E falo de ações, não de meros comportamentos). São nossas escolhas que nos fazem agir em consonância com nossas inclinações e não as nossas próprias inclinações (que diretamente nos fariam agir; não, pois são apenas em geral condições necessárias, nunca condições suficientes). Kant está certo. Ou somos animais, animais mesmo, no sentido popular do termo (animais irracionais), seres providos apenas de arbítrio bruto? Não somos. (É impressionante como a ausência da simples e inocente distinção entre condição necessária e condição suficiente faz falta na vida mental das pessoas).

Poesia é uma coisa. Ação, moralidade, o bem e o mal (que existem, visto que há escolhas) são outras coisas. Não somos autômatos passionais. Mas, para alguns, é tão consolador ver-se a si mesmo como presa indefesa das garras impetuosas das paixões. Oh, quão devastador pode ser o autoengano. Também há liberdade em querer ser escravo das paixões. Afinal, somente querendo alguém pode ser escravo das paixões. Logo, ninguém é escravo das paixões (Bah, preciso evitar essa “dialética”). Adoramos falar: “eu não resisti”. Bobagem, conversa furada. O que aconteceu foi o seguinte, eu vou contar pra vocês. Eu escolhi não resistir. Foi isso. Essa verdade me foi revelada num sonho assustador que tive no início da madrugada de hoje. Será que estava sonhando? Mas eu já não sabia?

21 Janeiro 2012

Jane Austen

É notável a centralidade da noção de valor moral nos romances de Austen (penso em três deles, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Persuasão - prometo que aumentarei a lista). Já abordei aqui esse tema. O interessante é que o valor moral tem uma importância equivalente seja da parte da mulher que aquilata a qualidade do caráter do homem que lhe interessa, seja do homem que aprecia uma mulher (que a aprecia, sobretudo, com olhos morais). Claro que isso vale para os personagens centrais (eventualmente para os secundários). Elizabeth e Darcy, Marianne e Brandon e Anne e Wentworth admiram-se (ou acabam admirando-se) e se querem por razões proeminentemente morais. Há, porém, uma diferença que parece ter sido bem capturada por Allan Bloom entre os heróis masculinos e femininos em Jane Austen. “Os personagens virtuosos de Austen, especialmente os masculinos, não são os mais agradáveis ou sociáveis dos seres. O sedutor Wickham e o ingênuo Bingley são sociáveis demais, o que significa que não devem ser levados muito a sério.  A verdadeira virtude, em contraposição à virtude social acomodada do homem moderno, está numa certa tensão com a convivência” (Amor e Amizade, p. 177).
Lady Russell nada podia fazer senão ouvir, imperturbável, e desejar-lhes felicidades, mas por dentro, seu coração festejou com rancoroso prazer, com grato desdém, o fato de que o homem [Wentworth] que aos 23 anos parecera de certa forma compreender o valor de uma Anne Elliot se deixasse, oito anos depois, encantar por uma Louisa Musgrove”. (Persuasão, cap. 13). 
Belíssimo, belíssimo! E isso que ela, Lady Russell, cometera um erro grave no aconselhamento que dera para Anne. Bom, acaba errando de novo. Mas a bússola aqui é boa.
Essa passagem de Persuasão (e tantas outras) chama atenção também para a necessidade de qualificarmos melhor essa história de admiração moral. Não se trata simplesmente de achar que a pessoa amada é moralmente boa. Isso é muito pouco. O valor moral não pode ser entendido em termos estritamente kantianos. Acho que está mais próximo de Aristóteles. É preciso uma admiração espiritual, intelectual [a escolher ou a imaginar uma palavra melhor que passe a ideia mais abrangente de "valor moral"].

18 Janeiro 2012

Ávido tempo

[...]
E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.

(Pablo Neruda)

09 Janeiro 2012

Eu te amo para começar a amar-te

Dia desses, na Livraria Curitiba, que aqui em Londrina deveria ter outro nome, e cujas prateleiras de filosofia deveriam ser menos ultrajantes aos amantes do ofício de Sócrates, estava eu a procurar um livro, ou melhor, dois, pois era só um título, mas dois exemplares. Deparei-me com o livro Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda. Fiquei curioso, não exatamente pelo título, mas pelo fato de frequentemente ler na Internet poemas atribuídos ao poeta chileno. Resolvi comprar e verificar se os próprios versos de Neruda não eram melhores do que aqueles que lia nos facebooks da vida. Ainda não cheguei a uma conclusão sobre isso. Encontrei, porém, um soneto belíssimo (há vários). Um soneto que me fez pensar não em “dois modos de vida”, mas em dois modos de amar. Um, o do Banquete, outro o dos livros 8 e 9 da Ética a Nicômaco - o segundo, o amor mais profundo (pois muito do que Aristóteles diz nos livros 8 e 9 não vale apenas para “amigos”, mas também para amantes).

Soneto XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

* O "eu te amo para começar a" é O Banquete. O "amar-te" é 8 e 9 da Ética a Nicômaco.

26 Dezembro 2011

Ser dono de si mesmo

O Estado não teria mais direito de punir Armin Meiwes do que cobrar altos impostos de Bill Gates e Michael Jordan para ajudar os pobres.

“Em 2001, um estranho encontro teve lugar na cidade alemã de Rotenburg. Bernd-Jurgen Brandes, um engenheiro de software de 43 anos, respondeu a um anúncio na Internet que procurava alguém disposto a ser morto e comido. O anúncio havia sido colocado por Armin Meiwes, técnico de informática de 42 anos. Meiwes não oferecia compensação financeira, apenas a experiência em si. Cerca de duzentas pessoas responderam ao anúncio. Quatro foram até a fazenda de Meiwes para uma entrevista, mas decidiram que não estavam interessadas. Brandes, entretanto, depois de uma conversa informal com Meiwes, resolveu aceitar a proposta. Meiwes matou seu visitante, cortou o corpo dele em pedaços e os guardou em sacos plásticos no freezer. Quando foi preso, o ‘Canibal de Rotenburg’ já havia comido quase vinte quilos de sua vítima voluntária, cozinhando partes delas em azeite de oliva e alho.
[...]
O canibalismo consensual entre adultos representa o teste definitivo para o princípio libertário da posse de si mesmo pelo individuo e da idéia de justiça dele decorrente. É uma forma extrema de suicídio assistido. Visto que não tem nenhuma relação com o alívio da dor de um doente terminal, a única justificativa cabível é que somos os donos de nosso corpo e nossa vida e podemos fazer com eles o que bem entendermos. Se o argumento libertário estiver certo, seria injusto proibir o canibalismo, pois isso violaria o direito à liberdade. O Estado não teria mais direito de punir Armin Meiwes do que cobrar altos impostos de Bill Gates e Michael Jordan para ajudar os pobres”.
(Michael J Sandel. Justiça: o que é fazer a coisa certa, p. 93-94).


“Quando o Estado se julga no direito de exigir uma parte dos meus rendimentos, ele também se atribui o direito de exigir uma parte do meu tempo. Em vez de tirar, digamos, 30% de minha renda, o Estado pode, da mesma forma, me obrigar a passar 30% do meu tempo trabalhando para ele. E se o Estado pode me forçar a trabalhar para ele, está essencialmente declarando seu direito de propriedade sobre mim”.
(Michael J Sandel. Justiça: o que é fazer a coisa certa, p. 84)


* (SANDEL, Michael J. Justiça: o que é fazer a coisa certa. 2ª edição. Tradução de Heloísa Matias e Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011).

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Michael Sandel, como se sabe, não é um libertário. Todavia, isso não o impede de fazer uma apresentação sóbria das teses libertárias (ainda que se fixe apenas na versão miniarquista). Muitas pessoas proclamam princípios libertários, mas, na hora de extraírem as forçosas conclusões libertárias, preferem não ir às últimas consequências. É uma pena. É tão bonito ser consequente!