Eu acredito religiosamente no poder das palavras. E no poder da palavra escrita ainda mais. Bem, não sei. Depende. Às vezes, dizer no ouvido da pessoa amada certas coisas é muito mais impactante, mais belo. Porém, a prolixidade cabe melhor em cartas de amor. E o amor é prolixo. Faça-se a ressalva de que há coisas terminantemente proibidas numa carta/e-mail de amor, ou de desamor. Há coisas que exigem olho no olho. Mas quero falar sobre cartas de amor, mesmo que elas sejam para reclamar da falta de "olhos nos olhos ...".
Hoje em dia enviamos cartas de amor por e-mail. Tudo bem. Agora, considero um sacrilégio alguém receber uma carta de amor e não imprimi-la. Como se não bastasse as cartas não serem manuscritas. Quanto charme, quanta vida há numa carta manuscrita! E nada impediria isso. Mas somos tão ansiosos. Eu pelo menos. Generalizo sempre a partir de mim, ok. Porém, não há perdão para quem se contenta em ler uma carta de amor num Smartphone. Não, não pode. Não se pode tratar o amor assim. É preciso imprimir. É preciso ler duas, três, quatro vezes. Depois disso, colocar a carta no bolso, sair pelas ruas, entrar num bar, pode ser numa biblioteca, e tomar a carta nas mãos e recomeçar a leitura mais mil vezes.
Outra coisa que não se pode fazer é mandar cartas de amor pelo inbox do Facebook. Aquela maldita observação: "Seen 2:20 am". Pô, é de matar. Eu quero a agonia, o nervosismo de ficar em dúvida se a pessoa leu o e-mail. Será que ela ainda não abriu sua caixa de mensagens? Já leu? Ainda não leu? Ademais, o Facebook é visualmente muito poluído, aquele feed rolando. Enfim, Facebook não combina com cartas de amor.
Bom, voltemos ao e-mail recebido e imprimido. Agora, com a carta diante dos olhos, é preciso começar a fazer as perguntas paranoicas básicas, esquizofrênicas, neuróticas. Perguntar: o que essa frase quis dizer? E essa palavrinha? E essa combinação de palavras? Deu-me esperanças? Fechou todas as portas? Não? (Acho que não, Aguinaldo). Deixou um espaço, um pequenino espaço para habitar nele minhas doces ilusões? É necessário sentir, viajar, cogitar as possibilidades contidas em parágrafos amorosos, chorosos, clamorosos, ou mesmo em parágrafos acrimoniosos, críticos, rancorosos, cheios de mágoa, pois tudo é sinal de alguma coisa. E o destinatário de uma carta de amor tem de imaginar estar na posse de um tempo infinito para decifrar essas epigramas. Também tenho uma tese sobre como escrever cartas de amor. Acho que não devemos editar muito esse tipo de epístola. Precisa ser mais instintiva, refletir mais o fluxo dos pensamentos-sentimentos que nos ocorrem. A edição, facilitada com nossos queridos computadores, retira o ar fresco que a carta deve ter, retira, muitas vezes, a intensidade, e, sobretudo, a franqueza mais crua que também agrada. Revisar é desnecessário. O importante é escrever como um louco, dizer tudo que vem à mente.
Claro que cartas de amor são peças no jogo amoroso, mas o bom jogador arrisca muitas vezes sua cabeça para preservar sua identidade, sua individualidade, seu estilo e conquistar a amada revelando quem ele é, não quem ele é sob a máscara do astuto jogador do amor. Muitas vezes a cabeça rola, mas a autenticidade é charmosa e sempre causa algum desequilíbrio se o camaradinha não for um completo idiota. Ademais, queremos ser amados por aquilo que realmente somos, não pelo que falsamente aparentamos ser.
Cartas de amor envolvem ansiedade, eu disse isso antes. Você envia a carta e fica esperando a resposta. Ela não vem. Ela demora. Quando vem, vem murcha, sem vitalidade. Mas nem sempre é assim.
final da tarde de um sábado
Lembro-me de um sábado, quase final do dia, eu abri minha caixa de e-mails e tinha um titulo assim: “Calafrio de paixão”, e como remetente, ah, como remetente ... bem, era A remetente. Eu li com o coração na boca aquela carta/e-mail. Não tive dúvidas, sai correndo de casa, desci à garagem, peguei o carro e fui atrás de algum bar para sentar e ficar lendo 150 vezes o que estava escrito naquela carta (por coincidência fui parar no Fuad).
Acho que o mais importante em tudo isso que estou dizendo é que cartas precisam ser relidas. É trivial, não? Só que às vezes, dependendo do que elas comunicam, queremos distância delas. Fugimos dessas cartas, talvez até a imprimamos, mas, depois, as rasgamos, as jogamos no lixo. É como se fugíssemos de um espelho, como se fugíssemos de nós mesmos. Mas há outras que queremos ter sempre em nossos bolsos. São bálsamos. Não duram por muito tempo, mas isso é de somenos. (Aqui valeria uma digressão sobre dedicatórias em livros. Obviamente, é mais difícil jogar ao lixo um livro, e, por vezes, precisamos consultar o livro e nele está aquela amorosa dedicatória. Ah, aí é jogo duro ...).
As cartas de amor que escrevemos também merecem, merecem é pouco, têm necessariamente de ser relidas por nós (depois de enviadas, para não ficarmos tentados à mania da edição de cartas de amor). O remetente tem a obrigação diante do deus do amor de reler e tentar entender a si mesmo nas linhas que escreveu.
Eu já cheguei a pensar em ficar enviando a mesma carta pra pessoa amada a cada 10 hs. Só mudaria o título. Essa era uma obsessão, pois pensava que ela não tinha dado importância ao que eu havia escrito, que ela não tinha lido as 953 vezes a carta que eu havia enviado (pois a carta precisava ser, pelo menos, 15 vezes bem lida; desse modo impossível seria ela resistir aos meus encantos argumentativos e amorosos). Loucura. As cartas, as palavras, precisam respirar, tomar o ar fresco do silêncio. Jamais, porém, podem ser esquecidas. Somente a morte do amor pode decretar a morte das cartas de amor. Essas ficam guardadas numa pasta especial. Talvez, um dia quem sabe, a gente dê uma olhada nelas. A gente pode se surpreender e ter dores terríveis com a indiferença que tivemos para com quem nos amava.
Mas aqui falo das cartas quentes, dessas que são escritas por amantes que ainda sentem ferver a paixão e que precisam reverenciar as cartas de amor. Pois, sem elas, não há amor. E com elas tudo tem conserto, mesmo que seja o conserto das palavras majestosas, belas, sublimes que ficam cravadas para sempre em nossos corações.
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As cartas de amor, assim como o amor (principalmente o amor), consertam a vida. Há quem diga, a propósito, que até produzem a ressurreição. Eu acredito nisso. Vocês sabem, eu sou agnóstico, mas não tenho nenhum ceticismo teológico sobre a existência do divino Eros.
Por isso, e por outras, é patética a declaração do Pessoa sobre cartas de amor. Ele teve o tempo dele (como diz). E não soube quão solene elas são. E se são o que ele pensou que eram, tudo o mais é. Não me venham, pois, com Fernando Pessoa e sua opiniãozinha vagabunda sobre cartas de amor. Nem essa parte se salva: Mas, afinal,/ Só as criaturas que nunca escreveram/ Cartas de amor/ É que são/ Ridículas. (Pessoa sem inspiração, digamos, Pessoa numa fase Leminski).
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