02 janeiro 2013

Stuart Mill e "O Rei de Havana"


O Rei de Havana (de Pedro Juan Gutiérrez. São Paulo: Companhia das Letras, 2001) é um romance belíssimo, instigante e contundente. O livro narra as peripécias de Reynaldo, típico anti-herói, imerso num cenário hedonista distópico. 
Reynaldo tem desejos mui complexos (bah!) que podem ser reduzidos a dois: comer e fazer sexo. O negócio dele é sobreviver sob o influxo de seus mais primitivos instintos.
Rey não planeja suas ações. Ele não se preocupa com o amanhã, a não ser na medida em que seu estômago indica ausência de alimento ou que o órgão do seu corpo, responsável pelo epíteto que ele recebe de “Rei”, ergue-se com urgentes apetites. Há no livro, é verdade, alusões ao futuro. Por exemplo, a filosófica questão sobre se há arroz e feijão e para quantos dias. Porém, as referências ao futuro são marginais (e, quando Rey pensa, é sempre um pensamento a curtíssimo prazo, ou algo assim: “como é que vou salvar a minha pele” (p. 103)). A perspectiva de Rey é bem expressa na p. 36.
Não havia nada a fazer. Só continuar vivendo até chegar sua vez. 
Eis um elemento da bestialidade existencial de Rey: uma alegoria da belíssima vida humana presa aos instintos rudimentares. Veja-se também a seguinte passagem. 
Rey passava os dias sem fazer nada. Sentado na esquina. Esperando cair alguma coisa do céu. Claro que não caía nada (p. 81). 
Lendo o livro fiquei pensando na relação entre bem-estar e felicidade e de como podemos ser felizes, isto é, estarmos num estado de satisfação das nossas inclinações e renegarmos as coisas mais valiosas da vida (humana), ou sequer cogitarmos sobre sua existência. 
É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o tolo ou o porco têm uma opinião diferente é porque só conhecem o seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados. (Stuart Mill. Utilitarismo).
Rey provavelmente discordaria de Stuart Mil (se conseguisse pensar um centímetro acima do chão).
[Rey] abriu os latões de lixo e encontrou com facilidades restos frescos e abundantes de pizzas e sanduíches, e um pedaço de lingüiça um pouco podre, mas apetecível e nutritivo. Engoliu rápido aquilo tudo e foi embora tranquilamente, sem ser incomodado. Feliz e satisfeito. (p. 155).

Em um bar, vários homens bebiam rum e fumavam tranquilamente, olhando as mulheres que passavam pela calçada: negras, mulatas, brancas. [...] Era um bom lugar aquele. Sujo, destruído, arruinado, tudo despedaçado, mas as pessoas pareciam invulneráveis. Viviam e agradeciam aos santos cada dia de vida e gozavam. Entre os escombros e a sujeira, mas gozando. (p. 161).
Maravilha!

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