05 janeiro 2013

Apenas um detalhe?


Na Folha de Londrina (de 31/12/2012) saiu uma matéria intitulada “Quando a religião é apenas um detalhe”. Na matéria são contadas histórias sobre a convivência entre maridos e mulheres (dois casos) e de pai e filha (um caso) de diferentes religiões.
Li e fiquei me perguntando: como seria um agnóstico (como eu) coexistir com uma católica entusiasmada com sua seita supersticiosa? Acho que só conseguiria conviver se fosse uma católica como Montaigne. Que tranquilidade, que sobriedade o cristianismo católico de Montaigne! A meu ver, o cristianismo de Montaigne é mais nominal que real – isso também valeria para seu fideísmo. Real mesmo é seu ceticismo. O fideísmo cristão de Montaigne é uma concessão oriunda de sua preguiça cética: “somos cristãos como somos perigordinos ou alemães” (E II:3). Eu seria amigo fácil de Montaigne (mas como sermos amigos de nossos heróis?).
Voltando ao ponto. A matéria da Folha de Londrina quer nos fazer crer que a religião é só um detalhe (ou que seria desejável ser apenas um detalhe). Mas pode, ou melhor, deve a religião ser apenas um detalhe? Não. Ela não é um detalhe, assim como a visão política de uma pessoa não pode ser apenas um detalhe. Se for, é um mau sinal. Religião e política, quer queiramos ou não, estão vinculadas aos nossos princípios morais. A política tem vínculo com eles por subordinação. A religião a eles se vincula geralmente com elementos de paternidade (isto é, tem ascendência). Uma vez que assumir certos princípios morais é algo decisivo na vida de um ser humano, professar uma fé religiosa e advogar certas opiniões políticas tem de ser algo importante, não um detalhe.
Se acho que minha religião está certa, preciso, se quero ser coerente, considerar equivocadas as religiões alternativas. O que isso tem a ver com “alimentar o ódio”? Somente tem a ver se o camaradinha acha que, além de sua religião estar certa e as outras erradas, também é certo hostilizar as pessoas que tem fé diferente.
O problema ou, talvez infelizmente, a solução é que as pessoas têm opiniões muito molengas sobre as coisas. São muito frageizinhas na hora de dizer o que pensam. (Talvez simplesmente porque não dão importância ao que pensam. Mas isso não significa não dar a devida importância a si mesmas?). São pessoas católicas molengas, budistas molengas, protestantes molengas, agnósticas molengas que levam relações molengas. Respeito, respeito, respeito ... Ora, um pouco de sal, por favor. (Eu quero admirar meus amigos. Respeitar eu respeito um estranho).
Já deu para perceber que estou apenas desabafando. Pois bem, eu acho que esses parâmetros de coexistência são muito elásticos, não me agradam nem um pouco. Falando nisso sou levado a pensar no seguinte caso. Se tivesse um irmão com uma visão política antagônica à minha (felizmente não é o meu caso), somente se fossemos politicamente apáticos poderíamos dizer que não estamos colocados em lados opostos do combate.  Se, como é meu desejo, meus amigos não são politicamente apáticos, então, para dizer que estamos “colocados lado a lado na linha de combate”, eles teriam de concordar comigo (ou simplesmente, e melhor, entre nós haveria concordância). Ou será que eu deveria concordar com Montaigne que acredita que a ação virtuosa implica poupar o amigo que porventura milite nas fileiras inimigas (E III: 1)?  Mas, por acaso, um amigo milita nas fileiras inimigas? Até entenderia isso se tal ocorresse por desconhecimento. Mas um amigo lê o coração do outro, descobre seus sentimentos e pensamentos (claro que isso é uma idealização da amizade, mas serve para percebermos como nossas amizades reais são molengas).
Pense em duas pessoas "amigas" falando sobre a vida e a morte. Uma budista e outra cristã. Até posso imaginar que as duas, por perceberem a fragilidade de suas visões, não se incomodem muito com o assunto. Mas essa forma de viver é pouco empolgante para mim. 
Claro que alguém poderia dizer: “as pessoas são interessantes não apenas devido ao que pensam sobre a vida, a morte e a função do estado (minúsculas deliberadas)”. Sim, é possível. Mas parece curioso pensar que alguém é interessante se não achamos as coisas que seu cérebro carrega interessantes.