Que filósofo discorreria, em sua obra magna*, sobre como se
deve fazer sexo? Sexo “não é prato para quem morre de fome” (E III: 3). Não é o
que o cubano Reynaldo pensaria. Montaigne concederia perfeitamente que, se você
está morrendo de fome, você deve se alimentar, mas o ponto dele é simples e
qualquer um entende: você não vai extrair o melhor sabor do alimento se estiver
esfomeado.
Que filósofo confessaria que tem
“apetites sexuais muito vivos” (E III: 3)? Que filósofo escreveria, depois de
dizer que mulheres “feias totalmente não existem, nem tampouco totalmente formosas”,
o seguinte: “as jovens brâmanes quando carecem de outros encantos, são convocadas
por pregão a exibirem publicamente suas partes genitais a fim de que se
verifique se, ao menos por isso, merecem um marido”.
Talvez eu esteja exagerando por estar deveras empolgado com
o Sr. “Quase Espelho da Minha Alma Montaigne da Silva”. Aristóteles toca nesses
pontos, mas é sisudo (e, cada vez mais, acho a sisudez um pecado mortal). Hume é
engraçado ao falar dos gordos (e de si mesmo, portanto). Schopenhauer também escreve
sobre esses tópicos, mas sem leveza. Não me lembro, porém, que algum filósofo
tenha falado sobre seus "vivos apetites sexuais".
Alguém poderá se incomodar com isso ou, talvez, simplesmente
dar de ombros e exclamar em tom falsamente interrogativo: o que isso tem a ver
com filosofia? Felizmente, isso aqui é apenas um blog e eu posso me contentar
em responder: leia Montaigne e você vai descobrir quão profunda é a relação
dessas declarações com a filosofia.
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* Como você sabe - eu já te disse uma vez -, Montaigne só
escreveu os Ensaios. O diário de viagem precisa ser lembrado, é
verdade (embora não tenha saído apenas de suas mãos).
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