Querida Cathy.
Tu demoras muito para responder. É claro que fiquei feliz em receber tua carta, mas teu atraso, que tem se tornado habitual, misturou a alegria do recebimento das notícias tuas com certa raiva. Parece-me que deliberadamente queres que eu fique preocupado contigo. Se for isso, ages como uma criança boba. Sabes que penso todo dia em ti, na verdade sempre que penso em coisas importantes tu estás junto.
Ok, não vou ficar só reclamando. Mas não esqueça que, como amigos, deveríamos ser mais espontâneos. Ao receberes uma carta minha (eu nunca demoro mais do que um dia para te dar retorno), reaja, diga alguma coisa. Já não basta a lentidão dos Correios? Ainda terei de fazer muita economia para conseguir comprar uma linha telefônica. E não adiantaria eu ter um telefone e tu não. Mas é claro que essa economia que estou fazendo é para nós dois. Quando comprar - acho que terei de esperar uns dois anos ainda - comprarei duas linhas (uma para ti). E por favor, não pense que essa linha que darei a ti seja uma moeda para eventuais choramingos. Será tua. Ela terá um identificador de chamadas e tu me atenderás se quiseres. Tu precisas estudar e não te preocupares com outros fins para o teu dinheiro que não sejam os estudos e as viagens. Sei que teus pais te ajudam, mas nossa história é mais profunda do que tudo isso. (Somos amigos e nada é maior do que nosso caso de amor-philia).
Bem, chega de falar sobre comunicação. Quero que me conte o que tens achado dos Ensaios. Eu escrevi muito nas últimas semanas sobre ele. Estou enviando para ti o que coloquei no papel. Vou fazer fotocópias das páginas do meu Moleskine. Arrumarei um envelope maior e mandarei tudo para ti. Faça aquelas correções estilísticas e gramaticais sempre perspicazes que tu fazes. Mas não fique só nisso, por favor. Às vezes, tu és muito preguiçosa. Quero que diga o que acha dos meus comentários. Imagino que tenha escrito alguma coisa nesses cadernos que tu tens, ou guardado tudo em tua mente (tua memória sempre foi melhor que a minha).
O que escreveste sobre Cícero está muito bom. Tenho algumas ressalvas. A propósito, a crítica de Montaigne poderia ter sido usada por ti. Já chegaste naquela parte dos Ensaios que ele arrebenta Cícero (bem entendido, o modo de ele escrever). Ainda não? Acho que se tivesses chegado lá, terias usado um pouco do meu herói. Segue junto dos outros papéis uma folha datilografada em que faço algumas observações sobre o que escreveste.
Vou terminar essa carta. No fundo, ainda estou bravo contigo. Bravo não, magoado. Não sei ficar fazendo joguinho. Eu sei que tu jogas, e jogas muito bem, mas foi contigo que aprendi - contigo, veja, não com Montaigne - que é melhor deixar de lado o jogo dos lances deliberados e jogar o jogo dos lances instintivos.
Só mais uma coisa. Ficarás todo esse ano aí? Não pensas em vir a Passo Fundo em junho?
A saudade é grande.
Beijo.
Adam

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