12 outubro 2012

Desilusões humeanas

Hume, a felicidade e os pífios poderes da filosofia (*)

Nenhum homem jamais seria infeliz se pudesse modificar seus sentimentos. (Hume. “O cético”)

Um bom filosofo não acredita muito na filosofia. Quem fica fazendo encômios e mais encômios à filosofia tem minha desconfiança. Platão, Epicuro, Zenão, Epicteto, Sêneca não me agradam nem um pouco quando ficam babando por filosofia e mais filosofia. Digo até Platão, o que talvez seja uma injustiça. É claro que, nesse aspecto, Platão evidentemente é um universo e sempre (ou quase sempre) podemos encontrar nele um demônio azucrinando a vida dos que querem colocar suas adoráveis cabeças no travesseiro suave dos consolos filosóficos. Bem, estou falando isso para chegar ao ensaio “O cético” do bom David, que reli ontem. A filosofia e seus pífios poderes. Eu resumiria assim.

Luc Ferry (Aprender a Viverafirma, como registrei em outro post , que “por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecermos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos”. Talvez não. Conseguiremos vencer nossos medos, nossas angústias, inseguranças e tormentos passionais se tivermos sido agraciados pela natureza com uma predisposição ao uso sereno, sóbrio das pílulas tranqüilizantes que a filosofia oferece. Ela oferece mesmo; Hume admite isso. Hume relata várias dessas pilulazinhas. Na verdade, as ridiculariza, pois elas só têm efeito em termos gerais, abstratos. Idéias de serenidade e de indiferença diante do inelutável, se não forem vivificadas pela experiência de algo melhor, nenhuma impressão decisiva terão em nossas mentes. Em sua crítica a esse ser filosófico, que faz desdém, com sua olímpica sabedoria, das vicissitudes humanas, Hume afirma: “enquanto são os outros que estão em jogo, espanta-se com seu ardor e entusiasmo, mas, quando é ele que está em jogo, é geralmente transportado pelas mesmas paixões que tanto condena quando era simples espectador”.

É interessante que em “O cético” você tem quase tudo que precisa. Ele te deixa desamparado filosoficamente. E ouso dizer que é disso que precisamos. Precisamos de menos filosofia. Precisamos nos desintoxicar da filosofia. Não que Hume negue totalmente algum poder que a filosofia possa ter sobre a vida das pessoas. Não, sua sobriedade o impede disso. Mas ele enfatiza que a influência da filosofia depende da influência que a natureza, já bem antes, teve sobre nós. É nossa constituição natural, é nossa personalidade, são os elementos que não escolhemos que nos tornam suscetíveis à filosofia. Portanto, a cura, a salvação não vem da filosofia. Ela vem do que não depende de nossas vontades. Ela vem do que somos, de nossa estrutura passional, de nosso temperamento. E o que somos, não depende de nós, ao menos não depende tão profundamente como as pessoas pensam. Daí a filosofia ter poderes terapêuticos frágeis. “A estrutura e constituição de nossa mente depende tão pouco de nossa escolha como a de nosso corpo. [...] A filosofia exerce seu domínio sobre muitos poucos, e mesmo em relação a estes sua autoridade é extremamente fraca e limitada”.

Se meu olhar consegue ser calmo e geral sobre a vida humana, então a medicina da alma de Epicuro, de Zenão, pode ter algum efeito. Ora, o meu olhar sobre a vida nem sempre é calmo e geral. No mais das vezes é agitado e particular. Então, estou perdido. Talvez. Talvez esteja perdido no labirinto da minha natureza, isto é, de minhas paixões. E se há alguma salvação é nela que devo buscar, não na filosofia.

Copyright © 2012 Aguinaldo Pavão - Londrina – PR

(*) Aqui (com pequenas diferenças) em 10 de janeiro de 2009.

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