Digamos que você é um libertário, ou se preferir, um
anarquista (a rigor, o termo libertário também pode ser aplicado a
miniarquistas). Você, assim como eu, se opõe a toda coerção ilegítima. Isso assentado,
seria coerente a defesa de uma versão comunista do anarquismo? A meu ver, não.
Em minha opinião, você somente poderá ser um anarcocomunista
(ou qualquer coisa parecida, seja anarcossindicalismo, anarcossocialismo, qualquer
coisa parecida com anarquismo que não reconheça a indissociabilidade entre
liberdade e propriedade privada), bem, como dizia, se você é um anarquista (parabéns!),
você só poderá ser um anarcocomunista se você não tiver problemas em conviver
em contradição consigo mesmo (desgraçadamente, nós humanos temos uma tendência deveras
intensa para nos abraçarmos à incoerência, a darmos beijinhos nela. O poderoso
autoengano!).
Veja, se você defende a ilegitimidade da coerção do estado (minúsculas
deliberadas) não apenas por que a coerção é do estado, mas por que é uma
coerção ilegítima, você também terá de se opor a toda e qualquer coerção
ilegítima. Até aí, ok? Ok, ok, não é? Pois bem, para isso, você deve dispor da
ideia de que há uma esfera de ação do indivíduo cuja soberania pertence de modo
absoluto a ele (o seu corpo e o que ele consegue com suas mãos e seu cérebro). Por
que você seria contra a coerção estatal e não contra a coerção da cooperativa,
da associação de bairro, das comunas rurais? Note que falo aqui de coerção num
sentido claramente negativo. Explico-me: se você faz um contrato com a cooperativa,
com a associação de bairro ou com a comuna rural, você poderá sofrer coerção,
mas nesse caso ela não será ilegítima, visto que não unilateral (ou se quiser, não
é uma coerção originária, agressiva) –supondo que esteve explicita ou
implicitamente contida a sua possibilidade no contrato que você fez.
Isso considerado, somente resta aos libertários consequentes
o anarcocapitalismo. A razão é simples. O capitalismo, bem entendido, significa
apenas um sistema de trocas voluntárias em que a coerção e a fraude têm de ser
proscritas (por meio de coerção contra coerção, ou de coerção defensiva). Impedir
coercitivamente que alguém use como bem entender os frutos do seu trabalho
significa iniciar agressão contra esse indivíduo, agressão a qual somente o
anarcocapitalismo coerentemente se volta contra.
Será?
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