Sobre os casos de abusos sexuais envolvendo padres, o articulista afirma:
[...] os abusos existem em todas as denominações religiosas e ninguém fala do assunto.
Coutinho defende a tese de que não caberia a não católicos atacarem o discurso da Igreja, pois, segundo ele,
A Igreja Católica fala para o seu rebanho. E, ao contrário de outros movimentos religiosos extremistas, não está interessada em submeter os infiéis pela força da espada. Roma evangeliza quem se deseja evangelizar.
Disponho-me a concordar com Coutinho sobre o desinteresse atual da Igreja Católica em submeter infiéis pela força da espada. Graças ao bondoso Deus, hoje não se corre mais o risco de ir para a fogueira por discordar das crendices católicas. Porém, com respeito à ideia de que a igreja evangelizaria apenas quem tivesse o desejo de ser evangelizado, cabe a seguinte e simplória indagação. As crianças desejam se evangelizar? Por acaso o pai pergunta ao filho: meu querido filho, eu tenho uma pergunta muito importante para te fazer: você gostaria de ser evangelizado? Em que lugar do mundo isso ocorre?
Aparentemente perplexo com o fato de pessoas não católicas conferirem importância ao discurso de padres e bispos, Coutinho afirma:
Para um não católico, a igreja será apenas uma instituição entre várias, que legitimamente fala para quem a quiser ouvir. Um não católico não lhe reconhece autoridade especial; e não perde um minuto do seu precioso e laico tempo a tentar corrigir uma instituição a que não pertence.
Sim e não. Muitas vezes a Santa Igreja Católica Apostólica Romana é criticada por pretender falar para os seres humanos em geral. Será que o senhor Coutinho acredita que evangelizar não significa comunicar a verdade, ou será que ele acredita que somente os que desejam ser evangelizados estão interessados na verdade?
O que é moralmente correto é moralmente correto apenas para católicos? A desordem ou distúrbio moral, supostamente representado pelo comportamento homossexual, é uma ideia válida apenas para homossexuais católicos? Bah! Haja paciência para levar essa conversinha a sério. (sobre comportamento homossexual como desordem moral, vejam a entrevista do Padre José Rafael Solano Durán à Folha de Londrina de 20/04/2010). Bem entendido, essa é apenas uma ideia estapafúrdia dos católicos, pois é evidente que não há nada de moralmente reprovável quando dois homens ou duas mulheres se beijam na boca, fazem sexo e vivem juntos como um casal.
E alguns pensam ainda que a acusação moral aos pedófilos não deveria distinguir se ele é padre ou não. Isso é verdade apenas em termos retóricos. Com efeito, um padre assume socialmente o papel de liderança moral. Ora, um sujeito que prega castidade, que prega o sexo com finalidades reprodutivas, um sujeitinho que fala do púlpito sobre as mazelas morais da sociedade; ora, um sujeitinho assim merece mais censura moral do que um sujeito que não aponta moralmente o dedo para ninguém, nem quer ser o pastor de nenhum rebanho.
Confesso que sempre me ocorre duvidar se esses jornalistas ou articulistas escrevem a sério ou não. Sabe-se que provocar uma polemicazinha é um móbil poderoso quando se trata de alguém que expõe seus pensamentos periodicamente num jornal. Mas, no fundo, isso não tem importância aqui. Assumo que tudo que é dito pelo mui respeitável senhor Coutinho seja resultado de reflexões ponderadas.
Ah, ele também fala de patrulhas não católicas ao referir-se aos críticos do papa. Mas que patrulhas são essas? Se escrevo contra o papa a partir de solitárias reflexões, faço eu parte de alguma patrulha? Eu sou um patrulheiro?

7 comentários:
"E, ao contrário de outros movimentos religiosos extremistas, não está interessada em submeter os infiéis pela força da espada. Roma evangeliza quem se deseja evangelizar."
mentira. a "evangelização" da Europa foi feita à base da espada. a "evangelização" do Novo Mundo foi feito à base do genocídio etnico e cultural.
"Para um não católico, a igreja será apenas uma instituição entre várias, que legitimamente fala para quem a quiser ouvir. Um não católico não lhe reconhece autoridade especial; e não perde um minuto do seu precioso e laico tempo a tentar corrigir uma instituição a que não pertence."
mentira. vivemos em um país marcantemente católico, cuja política e sociedade é inequivocadamente influenciada pelo que a Igreja diz. e não é diferente em outros países. a Igreja é um poder politico e social de magnitude mundial.
Professor, tenho uma questão, mas não é provocação, não. Você afirma: haja paciência com essa conversinnha. Mas, professor, o colunista da Folha foi escolhido por você como sua leitura semanal. Ele não escolhe os leitores, mas os leitores é que escolhem ele. Certo? Você não precisaria dar atenção a ele. Não parece uma contradição dar atenção a quem julgamos tão pouco merecedor de atenção? Repito, é uma questão sem nenhuma intenção de provocar.
Abraço.
Iara.
Não precisa se preocupar com o fato de tua indagação poder ser interpretada como uma provocação. Não vejo nenhum problema em ser provocado. Aparentemente meu comportamento em relação ao articulista da Folha é incoerente. Portanto, você tem razão, ao menos inicialmente. Você colocou o dedo na ferida. Agora, na verdade não acho que ele seja “tão pouco merecedor de atenção”. Acho que ele merece atenção, mesmo quando erra. E há muitas coisas boas que ele escreve. Também acho que o lugar que ele ocupa, ou seja, um articulista de um dos maiores jornais do país, o torna merecedor de alguma atenção. Ademais, ele é inteligente. É claro que às vezes derrapara, pisa no tomate, mas isso ocorre com todos nós. Suas opiniões contra a esquerda em geral são boas. Lembro-me de um belo texto que ele escreveu sobre o conflito entre israelenses e palestinos. Gosto de ler o que ele escreve, mesmo discordando. Eu preciso, muitas vezes, ter paciência para lê-lo, mas obviamente sou eu que estou a decidir ter paciência para lê-lo. Também como gosto de ler o Pondé, que está ficando com a língua cada vez mais solta. É claro que tudo isso está muito longe do meu querido e amado Paulo Francis.
Veja, você tem razão: eu escolho a minha leitura, por isso confiro a ela algum valor. E, repito, eu atribuo valor ao que escreve o Sr. Coutinho. Não é preciso concordar com tudo que alguém pensa ou escreve para reconhecermos o seu valor.
Abraço e obrigado por tão interessante inquirição.
Concordo que não é preciso concordar com tudo que alguém pensa para acharmos que ele tem valor, mas as vezes tenho a sensação de que no seu blog há desprezo por esses jornalistas.
Abraço.
Permita-me discordar Iara, mas seria desprezo se Filósofo não tivesse comentado o texto. Talvez a Iara estivesse referindo-se a um pouco de veneração, idolatria ou respeito, mas o Aguinaldo já disse que na opinião dele, nem mesmo os filósofos podem ou devem ser lidos de joelhos.
Já alguns jornalistas, ultimamente, eu - e acredito que o nosso Aguinaldo também - temos lido eles com um joelho apontado para o queixo deles. Carlos André Vidor
Engraçado que, quando se trata da eleição de uma bancada religiosa no congresso ou de fazer lobby sobre o mesmo congresso para que a legislação laica seja fiel à doutrina católica (vide matérias sobre o aborto, por exemplo), nenhum membro da igreja católica se lembra de dizer que trata-se de uma instituição que fala apenas para seu rebanho e não é uma autoridade para a todalidade da sociedade; agora, quando se trata de ouvir críticas vindas de não-católicos...
Concordo com Aguinaldo. O padre apresenta-se perante à sociedade como uma liderança moral. Quando sua conduta entra em contradição com os valores específicos pregados por ele - independentemente de serem ou não valores consensuais, quando se tem em vista a sociedade como um todo -ele é mais reprovável que qualquer outro, porque ele comete os pecados da incoerência, da hipocrisia, da desonestidade...
Penso que a igreja, como instituição, sairia da crise se, em vez de furtar-se às críticas, passasse a expor publicamente e punir internamente, e com severidade, aqueles que traem e trairam sua própria doutrina. Tentar calar os críticos só levará a igreja a abraçar um relativismo ou ceticismo moral que trairá ainda mais essencialmente seus próprios dogmas.
Abraços,
Andrea
"[...] os abusos existem em todas as denominações religiosas e ninguém fala do assunto."
Não sou católica, nem evangélica, nem mesmo acredito em Deus, maaas creio ser necessário relatar que "apenas" 2% dos casos de pedofilia são cometidos por padres. A maioria vem de um familiar mesmo. (Sei que o foco da discussão não era esse, mas me pareceu um dado importante a dar ênfase)
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