Caro Tiago.
Muito obrigado pelo comentário. Com base no que você diz e em minhas leituras e releituras de Sartre, posso dizer que estou fortemente inclinado a desconsiderar a possibilidade de colocar Sartre no time do Mingau Esporte Clube. Meus comentários serão breves.
1) Ainda não consigo desvencilhar-me da ideia de que há uma natureza humana. E essa ideia não implica essencialismo de modo algum. Quando falamos em seres humanos, podemos (e devemos muitas vezes) evidentemente considerá-los como inacabados, seja devido a alguma noção de projeto ou simplesmente devido à liberdade como propriedade de suas vontades. Todavia, isso não impede que consideremos a invariância biológica deles. Essa invariância permite entendermos o que há de comum nessas máquinas epistêmicas (e quiçá morais, embora aqui eu tenda a considerá-los como máquinas racionais);
2) Sobre a noção de projeto, aceito as tuas observações no item 3. Não concordo, porém, que tudo que o homem faz se relacione a um conteúdo projetado no futuro. Nossa moralidade depende de uma lei que não escolhemos. Não sou livre para decidir o que é moral (como também não sou livre para decidir se 2 + 2 é = 4);
3) Aceitaria que o homem pode ser definido como liberdade se entendêssemos que o homem deve ser definido como ser moral, isto é, capaz de usar sua razão prática;
4) As condições dadas, a meu ver, devem ser tanto as condições ambientais dadas, como as condições biológicas dadas (e, nesse caso, eu penso que seria melhor chamarmos de determinações biológicas e condicionamentos sociais).
Grande abraço.
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2 comentários:
Caro Pavão,
Confesso que fiquei confuso com sua conclusão do 2º tópico, tal como um transeunte diante da esfinge. Quase perdi a cabeça para resolver esse enigma. Associar uma lei moral a uma lei matemática é um argumento muito fecundo. Falta-me gabarito para me meter nessa discussão. Quem sabe daqui a nove anos eu tenha uma opinião sobre o assunto... rs. O mesmo vale para o 3º tópico. Apenas gostaria de suspeitar um caminho: parece-me que em Sartre não se trata de uma lei matemática impor-se contra meu desejo, fazendo-me diminuir ou perder integralmente minha liberdade. A situação precisa ser invertida: justamente porque sou livre é que consigo reconhecer uma lei matemática; por ser livre é que consigo efetuar tal operação e reconhecer tal conclusão. Mas não sei como isso ocorre nas minúcias do pensamento sartriano, assim como não sei o que dizer sobre essa suposta imposição da moral ou uma suposta criação da moral, tal como entende Sartre.
Sobre o 4º tópico acho estranho o termo determinação biológica apenas para tratar de elementos invariantes da nossa espécie. Se o ser humano tende a possuir dois olhos, um nariz, uma boca, etc., não vejo como isso poderia determinar àquela escolha sugerida por Sartre em O existencialismo é um humanismo, a saber, tornar-me adepto do partido cristão ou do partido comunista? Possuir o valor maior da resignação ou o valor maior da revolução?
Pelos olhos vejo; pelas mãos manuseio; pelos órgãos vitais vivo: mas de nenhuma maneira eles decidem para mim o que farei da vida: tratam-se apenas de condições para essa ou aquela tarefa. Dessa forma, entender por natureza humana algum tipo de determinação me parece inviável para se defender uma definição do homem como liberdade.
Contudo, com receio do inferno, ressalto: trata-se de um monte de suspeitas...
Abraços e obrigado pelo diálogo.
Tiago.
Basicamente, acredito na natureza humana tal como Kant acreditava. Mencionei a biologia como forma de limites à liberdade. Como se trata obviamente da biologia do animal humano, esses são limites humanos à liberdade humana. Como estou de acordo com Kant, vou economizar neurônios citando-o.
“Quanto ao seu fim [da natureza humana], podemos com justiça reduzi-la a três classes como elementos da determinação do homem:
1) A disposição para a animalidade do homem como ser vivo;
2) A sua disposição para a humanidade, enquanto ser vivo e racional;
3) A disposição para a sua personalidade, como ser racional e, simultaneamente, susceptível de imputação”.
(Religião)
Abraço.
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