À medida em que a ciência foi progredindo, foi também ameaçando a presença de Deus no mundo. Mesmo o grande Newton via um papel essencial para Deus na natureza: Ele interferia para manter o cosmo em xeque, de modo que os planetas não desenvolvessem instabilidades e acabassem todos amontoados no centro, junto ao Sol. Porém, logo ficou claro que esse Deus era desnecessário, que a natureza podia cuidar de si mesma. O Deus que interferia no mundo transformou-se no Deus criador: após criar o mundo, deixou-o à mercê de suas leis.Não me parece justa essa acusação contra Dawkins. Dawkins acredita que o objetivo da ciência é acabar com a crença (religiosa) de todo mundo? E ajudar a qual situação? Claro que não é isso que a ciência pretende e é obvio que, se existem os assim etiquetados “fundamentalistas ateus”, eles não falam por todos os cientistas (acho que, em termos gerais, nenhum cientista fala por todos os cientistas, assim como nenhum indivíduo fala por todos os indivíduos). Gleiser deve se considerar um ateu chique, não fundamentalista, uma pessoa mui civilizada, respeitadora dos crentes e partidária de uma visão sóbria, escrupulosamente temperante da relação entre ciência e religião. Eu arriscaria dizer que ele simplesmente deve ter um temperamento mais manso, uma têmpera intelectual mais dócil. Nada além disso. Talvez algo além disso, pois se trata de uma têmpera que não demonstra grande apreço pelas distinções conceituais. O que significa ser fundamentalista? Eu fico com as palavras de Dawkins:
Mas, nesse caso, o que seria de Deus? Se essa tendência continuasse, a ciência tornaria Deus desnecessário?
Foi dessa tensão que surgiu a crença de que a agenda da ciência é roubar Deus das pessoas. Um número espantoso de pessoas acha mesmo que esse é o objetivo dos cientistas, acabar com a crença de todo mundo. Os livros de Richard Dawkins e outros cientistas ateus militantes, que acusam os que creem de viverem num estado de delírio permanente, não ajudam em nada a situação. Mas será isso mesmo o que a ciência pretende? Será que esses fundamentalistas ateus falam por todos os cientistas?
De modo algum.
Marcelo Gleiser. “Sobre a crença e a ciência”. Folha de São Paulo, 28 de março de 2010.
É fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução, e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas significa que somos igualmente fundamentalistas. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado.
Os fundamentalistas sabem que acreditam e sabem que não vai mudar isso. [...] O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que ‘acredite’ na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidencias”.
Deus, um delírio, p. 17-18.
Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará da crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. [...] As pessoas acreditam nos livros sobre evolução não porque sejam sagrados. Acreditam porque eles apresentam quantidades imensas de evidências mutuamente sustentadas. Quando um livro de ciência está errado, alguém acaba descobrindo o erro, e ele é corrigido nos livros subsequentes. Isso evidentemente não acontece com livros sagrados.Deixando de lado essa conversa de axioma, penso que Dawkins é muito feliz em suas palavras. Não se pode consistentemente pensar que qualquer defesa apaixonada de uma posição é fundamentalismo. Ser estridente na crítica à religião não implica ser fundamentalista. A verdade pode ser defendia de modo ruidoso. Não é a contundência maior ou menor do defensor de uma tese que o torna um fundamentalista. Quando os próprios fundamentos de uma crença estão abertos à revisão e abandono, caso se revelem incompatíveis com as evidências disponíveis, eles não compõem a base de uma doutrina fundamentalista (pelo menos não no sentido usual e pejorativo que o termo tem).
Deus, um delírio, p. 362.
Gleiser esbraveja contra Dawkins, mas não defende nada muito distinto do que Dawkins defende (na verdade, ele não esbraveja, pois é muito manso para fazer isso). A meu ver, o que ele argumenta nesse artigo da Folha vai ao encontro da posição de Dawkins. Embora o senhor Gleiser tente passar a falsa ideia de que Dawkins acalentaria a pretensão de fixar como agenda da ciência o combate à religião, suas teses sobre as pretensões que a religião pode levantar corroboram a posição de Dawkins.
O problema se torna sério quando a religião se propõe a explicar fenômenos naturais; dizer que o mundo tem menos de 7.000 anos ou que somos descendentes diretos de Adão e Eva, que, por sua vez, foram criados por Deus, é equivalente a viver no século 16 ou antes disso. A insistência em negar os avanços e as descobertas da ciência é, francamente, inaceitável.Digo falsa ideia, porque não me lembro de Dawkins afirmar que a crítica à religião deve ser a agenda da ciência, mas se ele afirmou isso Gleiser está certo em criticá-lo nesse ponto (e eu errado em criticar Gleiser nesse ponto). Mas eu gostaria mesmo é do título do livro e da página.
Marcelo Gleiser. “Sobre a crença e a ciência”. Folha de São Paulo, 28 de março de 2010.
Está certo Dawkins ao dizer: “Minha linguagem só soa contundente e destemperada por causa da estranha convenção, quase universalmente aceita, [...] de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica” (Deus, um delírio, p. 14).
