23 março 2010

Livre-arbítrio

Há alguns dias, numa bela tarde de março, em que o nostálgico e muito estimado outono começava a se insinuar, caiu-me nas mãos uma edição de setembro de 2008 da revista Superinteressante. Nela, uma matéria despertou-me a atenção. Seu título: “O livre-arbítrio não existe”. A matéria usava expressões como “a ciência comprova” (“A ciência comprova: você é escravo do seu cérebro”). Uau! Um pouco de Popper não faria mal (ou de qualquer outro autor que seja o filósofo da ciência do momento, pois dizem alguns que Popper já era). Eu, inocentemente, ainda acredito que ciência formula conjecturas. A hipótese de que o cérebro decide antes da consciência que temos de decidir tem como base o seguinte experimento (feito no centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim).


Voluntários foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma sequência aleatória de letras. Eles deveriam escolher uma letra e apertar um botão quando ela aparecesse. Simples, não? Acontece que, monitorando o cérebro dos voluntários via ressonância magnética, os cientistas chegaram a uma descoberta impressionante. Dez segundos antes de os voluntários resolverem apertar o botão, sinais elétricos correspondentes a essa decisão apareciam nos córtices frontopolar e medial, as regiões do cérebro que controlam a tomada de decisões.
(By the way, na matéria eles usam cérebro e mente como sinônimos - mas que baaarbaridade!)

Com base nesse experimento, podemos vaticinar que sempre o cérebro se decidirá antes e, portanto, teremos de aceitar que não somos livres? Será lícito a partir desse experimento propor a conjectura de que não somos livres? Sim, acho que não é um disparate propor tal conjectura. Porém, como informa a matéria, não se sabe ainda como o cérebro se comporta em casos mais complexos. “Agora os cientistas querem aumentar a complexidade do teste para saber se, em situações mais complexas, o cérebro também manda nas pessoas”. Portanto, a própria matéria desdiz a chamada. Com efeito, no início é afirmado que “o livre-arbítrio não existe”, mas depois é registrado o reconhecimento expresso dos estudiosos do caráter inconclusivo da pesquisa.

Se não ter livre-arbítrio depende de nosso cérebro decidir à revelia de nossa consciência, então as coisas mais complexas, uma vez em aberto, enfraquecem a hipótese, haja vista que a corroboração é deveras estrita. O experimento serve apenas como uma pista para o aprofundamento da pesquisa. Nada mais.

Outra coisa. Quem, por acaso, pretendeu provar o livre-arbítrio pela ciência, isto é, empiricamente? Quando vemos Descartes afirmar que temos certeza de nossa liberdade em virtude do fato de termos consciência de que está em nosso poder agir, podemos considerar essa afirmação uma afirmação científica, isto é, uma afirmação que tem pretensões descritivas e empíricas? A meu ver, a afirmação de Descartes é apenas uma afirmação filosoficamente débil. E Kant? Kant jamais acalenta, pelo menos na sua filosofia moral crítica, a pretensão de que podemos algum dia obter certificações empíricas de atos livres, ou seja, de que temos um livre-arbítrio. Essa me parece, vocês já devem saber, uma posição altamente sedutora, mas que impõe correspondentemente um ceticismo (se não uma descrença absoluta) sobre a possibilidade de a ciência chegar algum dia a provar que não temos livre-arbítrio.

6 comentários:

Vampira Dea disse...

Ai quero acreditar ainda que temos alma e no livre arbitrio, ai seca ciência, não me tire os sonhos.

Zecragoric disse...

Salve Aguinaldo!!!
É estranho o cérebro mandar recados de uma coisa que é certa de acontecer. Todos os participante iam apertar o botão, e poderiam estar pensando na sequência de letras e que a proxíma lhes seria "apertável" ou algo do tipo. Parece que antes de fazer testes desse tipo os cientistas deveriam filosofar um pouco, pra eliminar alguns testes desnecessários....
Abraços

Aguinaldo Pavão disse...

Vampira. Acho que a ciência pode nos desencantar muito e inclino-me achar positivo isso.
Ciro. Não entendi bem o que você quis dizer. De todo modo, fiquei muito feliz com a vista e comentário.

Alexandre Bizinoto disse...

Realmente, me parece uma pesquisa deveras incompleta, pois a simples visão dos objetos "botão˜ a sua frente, pode estar influenciando a decisão da "cobaia" na sua decisão, como podemos observar em várias ocasiões do dia-a-dia. Onde decisões são tomadas por motivos absolutamente diferentes da metodologia ou da lógica que deveria ser tomada. Um exemplo bem simples é quando a decisão de uma guerra pode ser tomada olhando para o petróleo quando deveria ser para as vidas que se coloca em jogo.
abizinoto@gmail.com

Anônimo disse...

Aguinaldo, sou psiquiatra forense, e o livre arbítrio na minha especialidade é um ponto chave, pois com ele determinamos a capacidade do cidadão de responder pelos seus atos e a intervenção do estado obrigando o sujeito a fazer tratamento caso considerado psicótico e perigoso. Acontece que se o livre arbítrio não existe, toda a teoria psiquiátrica forense torna-se uma ficção e toda minha profissão o exercício de uma abstração. Ando refletindo demais sobre isso e não estou ficando bem. Poderia sugerir textos para aprofundamento do tema? Obrigado.

Aguinaldo Pavão disse...

Leandro, obrigado pela visita e comentário. Textos que me inspiraram e continuam me inspirando a pensar sobre o tema do livre arbítrio são: seção 8 da Investigação sobre o entendimento humano de Hume, Terceira antinomia da Crítica da Razão Pura de Kant, O livre arbítrio de Agostinho e Sobre a liberdade da Vontade de Schopenhauer. Abraço.