02 março 2010

Um murmúrio da alma

"Puseram-se a conversar sobre uma companhia de dançarinos espanhóis, esperada para breve no teatro de Ruão.
- Vai vê-los? - perguntou ela.
- Se puder – respondeu Léon.
Não teriam eles outra coisa a dizer? Os seus olhos, no entanto, transbordavam de palavras mais sérias; e, ao passo que se esforçavam por achar frases banais, sentiam-se ambos invadidos pelo mesmo encantamento; era como que um murmúrio da alma, profundo, contínuo, que dominava o das vozes. Surpreendidos e admirados por aquela nova suavidade, não pensavam em descrever a sensação ou de descobrir-lhe a causa. As felicidades futuras, como as praias dos trópicos, projetam, na imensidade que as precede, as suas molezas nativas, brisas perfumadas; e nós nos entorpecemos na sua languidez, sem mesmo nos importarmos com o horizonte que não avistamos ainda".


Flaubert, Madame Bovary.

3 comentários:

Iara Fagundes disse...

Que linda passagem, professor. Sinti até vontade de reler Madame Bovary. Abraços.

Iara Fagundes disse...

Ai, escrevi “sinti”. Que feio. É lógico que é senti.

Vampira Dea disse...

aqui dá vontade de pensar mais e colorido rsrsrsr.
Um convite: essa semana no Dea e o Mundo textos inéditos de autores convidados, sobre a mulher,em vários estilos de trabalhos, fotos, contos, poemas, tirinhas, venha conferir.
Um beijão.A cada dois dias trabalhos novos.