O atormentador e o atormentado são unos. [...]. Se os olhos dos dois fossem abertos, quem inflige o sofrimento reconheceria que vive em tudo aquilo que no vasto mundo padece tormento, [...] o atormentado notaria que toda maldade praticada no mundo, ou que já o foi, também procede daquela Vontade constituinte de sua própria essência, que aparece nele, reconhecendo mediante este fenômeno e sua afirmação que ele mesmo assumiu todo o sofrimento procedente da Vontade, e isso com justiça [mit Recht], suportando-os enquanto for essa Vontade.
Uma das maiores asneiras ditas por Schopenhauer. Se sofro inocentemente uma punição, como isso pode acontecer com justiça? E se não sofresse punição alguma também seria justo de acordo com essa senhora justiça eterna? Por acaso tudo o que ocorre é justo? Pela madrugada! Se é assim, por que não dizer que tudo que acontece é igualmente injusto? Não há cabimento algum em pensar que algo que não decorra de ações humanas (voluntárias) pode ser justo ou injusto. Basta a justiça temporal, a única não destituída de significado. Tesezinha ordinária, que possivelmente proporciona algum alento aos crédulos adeptos da transmigração das almas e de outras crendices congêneres (pensarão: pelo menos nossa crença tem alguma proximidade com a verdade filosófica).
Mingau. E digam o que disserem sobre a Vontade como coisa-em-si mesma. Não aceito nem a conclusão e nem as premissas. Mas confesso que ficarei assustado se fizerem careta.
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12 comentários:
Aguinaldo.
Concordo plenamente contigo. Permita-me apenas uma observação. Não somente os grandes são lidos com joelheiras. Os pequenos também. Discípulos destes requerem como condição necessária para compreensão de certos conceitos, rituais de iniciação. Uma espécie de adestramento lingüístico para que seja possível captar conceitos que estão para além do sofrível senso comum.
Abraços
Olá Aguinaldo!
Aqui quem escreve é Eduardo Reina Bastos, fui seu aluno. Já tinha
acompanhado alguns excertos seus sobre Arthur Schopenauer. Sua
colocação sobre os desejos negados na realização de cada desejo foi
brilhante. Se escolho um desejo é porque ele tem maior preponderância
sobre todos os outros. No quesito justiça eterna, acredito que em
Arthur Schopenhauer existe um 'quê' de transmigração das almas para
atestá-la, mas a transmigração das almas em Schopenhauer chama-se
palingenesia, se trata sim da reencarnação dos corpos, porém isento da consciência. O que vai na contramão desta constituição de justiça eterna das transmigrações: o sujeito mesmo se acusa pela sua própria consciência e vive uma vez mais para pagar seus erros de outras vidas. A isso os orientais chamam de carma. Nesta direção, o sofredor de torturas também está executando os desígnios ocultos da justiça eterna. Penso que talvez não exista outra justificativa moral para se conceber o nascimento de pessoas com corpos debilitados.
Lembrando que compaixão para Schopenhauer significa unipaixão, com-paixão.
Tenho uma dúvida em Kant: De acordo com os Sobre os Fundamentos da Moral de Arthur Schopenhauer, Immanuel Kant teria dito que é
improvável demonstrar empiricamente que sequer existiu uma ação moral
dentre toda a história da humanidade. Isto procede? Outro ponto: O que você quis dizer com as quatro primeiras frases?
Desde já um grande abraço e obrigado por completar nossos dias com filosofia crítica.
http://vsimoes.wordpress.com/
Passando e me deliciando com o texto e os comentários.
Oi Professor,
Acredito que os Pensadores mereçam reverência, afinal conquistaram essa posição no decorrer do desenvolvimento da humanidade.E como não há uma Verdade Única e Absoluta, classificá-los em "grandes" e "pequenos", chega aos extremos da mediocridade.
KAREM
Ralph.
Obrigado pelo comentário.
As tuas palavras me fazem lembrar do texto de Schopenhauer sobre a filosofia universitária. Schopenhauer, como qualquer filósofo, não merece reverência, mas sim uma compreensão que nos permita ter um juízo consistente sobre a validade de suas teses. Ele não é um objeto de culto, mas um instrumento nosso a fim de nos aproximarmos da verdade, essa sim um fim. Bem, falo isso porque Schopenhauer é um estímulo para a independência intelectual. É apenas um fato a lamentar que muitos leitores dele o considerem um oráculo. E nem precisamos falar dos Nietzsches da vida.
Caro Eduardo.
Fico feliz pela visita e comentário.
Como você sabe, Schopenhauer se refere explicitamente à transmigração das almas como um mito que tem proximidade com a suposta verdade filosófica da justiça eterna. Sobre a pergunta a respeito de Kant, sugiro o início da FMC II. Sobre o que eu quis dizer no início do post, se você puder me dizer o que não ficou claro agradeceria.
Abraço.
Vampira, obrigado.
Karem.
Obrigado por comentar.
De acordo com o Houaiss, quatro são os significados da palavra reverência:
1 veneração pelo que se considera sagrado ou se apresenta como tal
2 Derivação: por extensão de sentido. respeito profundo por alguém ou algo, em função das virtudes, qualidades que possui ou parece possuir; consideração, deferência
3 cumprimento respeitoso, ger. acompanhado de inclinação do tronco para a frente ou de flexão dos joelhos; mesura, vênia
4 tratamento que se dispensa aos eclesiásticos.
Acho que isso é suficiente para qualquer um perceber que não cabe reverência aos filósofos.
Sobre o outro ponto, gostaria de dizer que acredito em grandes e pequenos, em gigantes e anões. Os mamíferos humanos não são iguais, uns são belos, interessantes, ricos, inteligentes. Outros são feios, espiritualmente pálidos, miseráveis e intelectualmente inexpressivos. Há também os medíocres, mas esses nunca chegam, por definição, ao extremo.
Abraço.
Eu quero saber o que diabos você quis dizer com "usam joelheiras para ler os grandes filósofos.
Abraços,
Eduardo.
Eduardo.
Eu pensei em algo como alguém ajoelhado, invocando a benção diante de uma imagem; ou alguém suplicando inspiração para enfrentar os duros problemas da vida; ou alguém em postura de cerimonial submissão a alguma autoridade; ou alguém simplesmente considerando que seu querido autor é uma espécie de espírito santo, que suas palavras têm importância análoga à autoridade das palavras do evangelho para o cristão. Algo assim. Mas sempre com seus adoráveis joelhos protegidos com confortáveis joelheiras. Portanto, o que eu quis dizer foi o seguinte: a leitura que algumas pessoas fazem dos grandes filósofos se assemelha à atitude de veneração e submissão adotada pelos fiéis quando se ajoelham. Abraço.
Olá Aguinaldo, obrigado pela resposta. A imagem postada me causara confusão. Bem apropriada e esclarecedora sua resposta já que muitos discentes já nomearam o curso de filosofia da Uel de pequena capela de Kant frente ao qual muitos já ajoelharam em grãos de milho. Bom saber que sua posição é diferente. Também não penso dessa maneira, conhecemos durante a graduação muitos pensadores diferentes feito Nicolau de Cusa com o saudoso Clodomiro ou até mesmo Moritz Schilik. E não podemos esquecer que não apenas o sono da razão produz monstros, mas também a vigília da razão produz monstros. O que dizer da frente lógico-positivista da Escola de Frankfurt? O próprio Moritz Schilik constrói todo um argumento lógico patético para tentar descontruir a argumentação segundo a qual quando eu morro o mundo morre comigo em Arthur Schopenhauer. Os caras se munem de pequenos excertos dos grandes filósofos para tentar descontruí-los. Esquecendo-se que, feito você afirma (‘Habermas o sociólogo’), que a filosofia se constrói por lógicas conceituais e não somente estruturas proposicionais diretas. Fica a questão: Não seria a lógica apenas um estudo pré-liminar da filosofia? O próprio Arthur Schopenhauer a compara com a anatomia: Qualquer pessoa consegue reconhecer discursos falaciosos sem necessitar de lógica para isso, assim como qualquer pessoa pode correr sem necessitar do conhecimento de anatomia para isso. A diferença é que por uma e outra se conhece os processos internos…
Abraços,
Eduardo.
Aguinaldo,
é muito curioso como a mania de sistema, até mesmo em mentes muito lúcidas como Schopenhauer, leva a algumas conclusões estapafúrdias.
Veja essa do Nietzsche. Para a série "Grandes asneiras ditas por grandes filósofos".
"Wenn ein Weib gelehrte Neigungen hat, so ist gewöhnlich Etwas an ihrer Geschlechtlichkeit nicht in Ordnung", ou seja, "Quando uma mulher tem inclinações eruditas geralmente há algo errado com a sua sexualidade (...)". (Das "Máximas e interlúdios" de Para além do bem e do mal, aforismo 144).
Achei simplesmente hilário. Relacionar inclinações eruditas e problemas sexuais ?! Essa é, inclusive, apenas uma das várias besteiras que Nietzsche profere sobre a mulher.
Abraço,
Ygor.
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