05 fevereiro 2010

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder de amor

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n’alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas:

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas:

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objetos de horror co’a idéia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.


(Manuel Maria Barbosa Du Bocage).

Ah! Quem não perder a respiração por pelos menos 10 segundos tem alguma deficiência na alma. (e é "poder de amor" mesmo).



5 comentários:

KAREM REGINA COSTA disse...

É professor....
Não retira de nós somente o fôlego, mas faz com que todo o âmago exitente sussurre e deseje assim permanecer por toda uma eternidade.

KAREM

Paulo Briguet disse...

Bocage era um exímio sonetista. Ouso dizer que quase tão bom quanto Camões. Mas não haveria Bocage sem Camões...

Aguinaldo Pavão disse...

Karem.
Obrigado pelo comentário. Abraço.


Briguet.
Eu precisaria de umas aulas de literatura contigo.
Obrigado pela luz que oferece.
Abraço.

Marcelo Rissatto disse...

Prof. Aguinaldo, se Bocage lhe encanta e se com os notívagos se reconhece, sugiro este soneto que tem um fôlego tal qual um suspiro que dura uma eternidade.

Procure pelo soneto:

"Ó retrato da morte, ó noite amiga"

Aguinaldo Pavão disse...

Belíssima dica, Marcelo. Obrigado pela visita. Apareça com mais freqüência.
Abraço.