Digo isso para que minha antipatia com seu livro Convite à Filosofia (Ática, 1994) não se confunda com uma antipatia pela presumível importância filosófica da autora.
Por que não diria não ao seu Convite? Porque contem imprecisões inaceitáveis.
Vejam:
Os filósofos clássicos (séculos XVII) julgavam-se modernos por terem rompido com a tradição do pensamento platônico, aristotélico e neoplatônico [...] Podemos, de modo resumido, apontar os seguintes traços característicos da nova metafísica: - afirmação da incompatibilidade entre fé e razão, acarretando a separação de ambas [...]. – redefinição do conceito de ser ou substância. Em lugar de considerar que existem inumeráveis tipos de seres ou substâncias, afirma-se que existem três e apenas três seres ou substâncias: a substância infinita (Deus), a substância pensante (alma) e a substância extensa (corpo).Convite à Filosofia, p. 227-228
Primeiro, não me parece correto afirmar que Descartes considera fé e razão incompatíveis. Eu interpreto a carta introdutória das Meditações (aos senhores Deão e Doutores da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris) como a afirmação de um compromisso entre as verdades filosóficas e as verdades reveladas. É claro que as verdades filosóficas de Descartes se chocam com determinadas interpretações ortodoxas cristãs, mas isso não significa que a sua filosofia seja incompatível com a fé irrestritamente. Incompatível mesmo é o que lemos no Convite à Filosofia com a seguinte declaração de Descartes. “No que diz respeito à teologia, já que uma verdade jamais pode chocar-se com outra, seria ímpio temer que qualquer verdade descoberta na filosofia pudesse entrar em choque com as verdades da fé. Com efeito, insisto em que não há nada que se relacione à religião que não possa ser explicado por meio de meus princípios” (Carta a Dinet).
Em segundo lugar, alguém poderia razoavelmente afirmar que, para Spinoza, há três substâncias? Ou que para Hobbes há três substâncias?
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2 comentários:
Caro Aguinaldo:
Eu não aceitaria um convite de Marilena Chaui sequer para um churrasco com cerveja gelada, imagine para a filosofia!
Esquecendo a famigerada professora (de quem eu quase fui aluno; sobrou-me a Olgária Mattos, igualmente terrível) eu, católico praticante, de fazer sinal da cruz quando passo na frente da igreja (percebeu no dia da carona?), pergunto a você (não a Descartes): fé e razão são incompatíveis?
Forte abraço.
Paulo Briguet (não consegui acessar pela conta do Google).
Oi Briguet
Obrigado pelo comentário e pela questão.
Minha resposta: depende. Se o camarada apenas acredita (tem fé) que Deus existe, baseando sua crença em raciocínios analógicos como os defendidos pelo famoso argumento do desígnio, acho que a fé poderá, em tese, coexistir com a razão. Muitos deístas do século XVIII pensavam assim. Na verdade, nesse caso, nem precisaríamos dizer que ele tem fé em Deus. Ele tem uma crença baseada em razões, a meu ver frágeis, mas respeitáveis. Agora, se ele, com base em sua fé, afirma que Jesus Cristo ressuscitou, as coisas podem ficar complicadas. Vamos supor que, nesse caso, a fé significa a adesão a uma crença que não poderia ser abalada por evidências contrárias. Ora, nesse caso, a sua fé é incompatível com a razão. Se ele aceita que sua fé pode ser abandonada caso entre em conflito com as evidências disponíveis (por exemplo, são descobertos os restos mortais de Jesus Cristo), parece-me curioso dizer que ele tem fé. Porque se ele reconhece a possibilidade de sua fé ser abalada por novos dados empíricos, ou simples raciocínios formais, ele parece alimentar alguma dúvida sobre a validade dogmática delas. Com base em que uma pessoa tem fé em Jesus Cristo? Com base em que uma pessoa tem fé que ele ressuscitou? Com base em sua razão? Com base em alguma experiência mística biograficamente singular? Diga-me você, um cristão que admiro, como você concilia tua razão com os teus artigos de fé. Se eu fosse responder com mero desabafo, diria: para mim, fé e razão são totalmente incompatíveis. Razão, a meu ver, não apenas é compatível com a dúvida, ela exige a dúvida. Não vejo como a fé poderia coexistir com a dúvida. Mas, talvez, eu esteja apenas expondo a incapacidade de arrumar um escaninho apropriado para fé em minha vida.
Vamos continuar a discussão. O que acha? Na seqüência, poderei apertar melhor os parafusos.
Abraço.
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