01 novembro 2009

Hume 10 X 0 Ayn Rand


Por certo muitos protestarão alegando ser coisa de um prevalecido (alguns dizem covarde, termo cujo uso não me seduz nesse contexto) colocar Hume frente à senhora Rand. Confesso que há coisas que me agradam nela. A forma não-acadêmica de tratar a moral é louvável. Suas críticas à chamada ética mística são pertinentes. A sua apologia do capitalismo me deixa muito contente. Agora, o livrinho dela, The Virtue of Selfishness, é gerador de grandes suspeitas filosóficas. Falar de ética sem citar uma só vez Kant? Sem citar Hobbes? Sem citar Hume? Bah! Fica difícil. Mas isso não é um argumento. É um sinal de que as coisas talvez não funcionarão, ou que, ao menos, dificilmente poderão funcionar bem. E não funcionam bem. Você precisa duelar com as marchas. É difícil encaixar a terceira, a quarta, a quinta.

Vejam.

The principle of trade is the only rational ethical principle for all human relationships, personal and social, private and public, spiritual and material. It is the principle of justice.

Ela pensa que princípio da troca tem como base intercâmbios voluntários, excluída a ideia de sacrifícios autoimpostos. Mas se isso fosse aceito, a ética seria reduzida à justiça (uma virtude ética e não A virtude ética). De todo modo, é difícil ver o que há de injusto em sacrifícios voluntários.

Mas agora vem o melhor.


Only a brute or an altruist would claim that the appreciation of another person’s virtues is an act of selflessness.

Por favor, Mr. Hume, pode falar:


Freqüentemente dedicamos elogios a ações virtuosas realizadas em épocas muito distantes e em países remotos, casos em que a máxima sutileza da imaginação não conseguiria revelar qualquer vestígio de interesse próprio ou encontrar qualquer conexão entre nossa felicidade e segurança presentes e eventos tão amplamente separados de nós. (IPM – tradução de José Oscar de Almeida Marques).

Eu não coloco meu voto na urna do sentimento moral, mas me dou por satisfeito com a observação de Hume para afastar qualquer egoísmo ético.


Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR

8 comentários:

Iara Fagundes disse...

Professor, não me entenda mal, mas será que a ausência de citações de grandes filósofos num livro que seria não-acadêmico não é sinal de coerência? Veja, não é uma crítica ao seu texto, mas um pedido de esclarecimento.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Iara.
Você não precisa se desculpar por me criticar. Pode criticar à vontade. Até pediria um favor a você. Como meus textos certamente contém equívocos e pelo jeito você gosta de procurar identificá-los (isso me agrada em você), não tenha nenhum pudor em dizer: “olha, acho que não é assim, acho que forçou a barra, acho que há uma saída que você não viu”. Claro que não quero propor nenhuma mudança no teu estilo, mas me agradaria uma linguagem mais direta. Ok? Pode empurrar fundo a espada. Eu resisto.
Bem, eu realmente preciso esclarecer mesmo o que disse. Ayn Rand até cita “grandes filósofos”, como Aristóteles, Bentham, Mill. O que eu quis dizer – e fui infeliz, pois não expliquei – é que o não academicismo dela reside na forma de apresentação não livresca, não inflacionada de citações ociosas, isto é, com aquelas citações que visam apenas a render homenagens históricas a supostas autoridades do pensamento universal. Todavia, propor algo presumivelmente novo em ética, como parece ser o caso dela, exige considerar e discutir o legado da tradição (o que, exatamente, nem se trata de ser ou não coerente). E Ayn Rand faz isso pobremente, em geral fazendo caricaturas de seus adversários teóricos, os altruístas. E tende a pensar que o pacote de filósofos morais altruístas é enorme, pesado. Isso não é verdade. Ao menos sem uma qualificação rigorosa, falar em altruísmo moral é dizer muito pouco.

Dimitri Diniz da Costa disse...

Meu mísero conhecimento dessa anti-comunista e ultra-capitalisma fez-me ver o que a antiga URSS fez com inúmeros pensadores que abandonaram tal regime: extremismo. No caso de Ayn Rand ela tratou o indivíduo de uma forma tão grosseira ao expor um egocentrismo que, eu sei que é parte do homem, mas que de forma alguma alavanca a vida. Defender o capitalismo dessa forma como ela o defende é ignorância da elite que não percebe que a vida nessas condições torna-se insustentável. Vide ocorrido mundial do último ano. Isso tornará a ocorrer. Não vejo no comunismo, no qual ela viveu, uma diferença do capitalismo em relação a supressão do indivíduo. Os dois são problemas quando passam de um capitalismo para um super-capitalismo(dias atuais) ou de um socialismo a um comunismo ou super-comunismo(URSS). Acho uma pena considerarem pessoas como ela uma filósofa. Talvez não passe apenas de uma intelectual. O que o senhor a dizer sobre o trabalho dela professor? Corrija-me se eu estiver errado mas, como eu disse, é o que eu pouco vi/li dela que fez-me pensar sobre isso. []'s

P.s.: Estou tecendo alguns comentários sem ao menos ver o que os outros disseram sobre. Por isso, se eu estiver sendo repetitivo, avise-me.

Aguinaldo Pavão disse...

Discordo da compreensão que Ayn Rand tem da filosofia moral, porém concordo profundamente com as posições políticas dela.

Dimitri Diniz da Costa disse...

Professor, eu lhe encaminhei um pergunta sobre o porque da sua profunda concordância com a Ayn Rand. O senhor recebeu essa mensagem? Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Dimitiri. Não recebi a msg. Bem, a razão de minha profunda concordância com Ayn Rand é simples: ela é libertária. Um dos pontos mais tratados por mim nesse blog diz respeito à coerção estatal ilegítima e liberdade individual. Ao se ler tais posts fica fácil perceber minha adesão às teses libertárias. Mas repito: se temos Nozick (excelente ração filosófica) por que precisaríamos de Rand? Bom, agora adianto a resposta: Nozick, embora filósofo profissional e libertário, leu Rand. Acho que não dá para afirmar que Nozick dispensa Rand, pelo menos não se pensarmos na divulgação de teses libertárias. Assim, haveria uma razão histórica e uma ração de combate político. Eu precisaria de tempo para estudar as possíveis diferenças políticas entre Rand e Nozick.

Unknown disse...

Professor, existe em sua visão política libertária o conceito de igualdade/oportunidade a todos ou é que nem o capitalismo clássico aonde o indivíduos que, por A ou B, tem chances diferencialmente melhores de vencer na vida prevalecem?

Aguinaldo Pavão disse...

Dimitri, procure nos marcadores à direita por Delfim Neto. Eu discuto igualdade de oportunidades a partir de uma declaração do ex-ministro.
Abraço.