Lá vou eu de novo (dedicar-me ao prazer ...). Bem, a história é a seguinte. O senhor Orlando Brandes, arcebispo de Londrina, escreve todo sábado na Folha de Londrina. Sou leitor assíduo do bispo (vocês sabem que eu adoro bispos). Minha assiduidade é inflexível. Todo sábado, antes do desjejum, me alimento com as palavras do bispo. Devo confessar, porém, que geralmente não passo do título. Mas, vejam, não perco um título. Quando esqueço de tomar as pílulas mágicas chego ao fim do primeiro parágrafo. Eventualmente, leio a metade do artigo. Excepcionalmente pratico a temeridade de ler o artigo inteiro. Pois foi isso que fiz ontem.
No artigo “O individualismo”, de 24/10/2009 (Espaço Aberto da Folha de Londrina), o arcebispo, sem nos oferecer uma definição do que seja individualismo, lasca sete “aspetos do individualismo hoje”, quais sejam: 1. A arbitrariedade, 2. O bem material. 3. A satisfação erótica, 4. A legitimação dos desejos, 5. A imposição dos direitos individuais. 6. A autossuficiência, 7. A independência e 8. O egoísmo.
Vamos ver o item 4.
4. A legitimação dos desejos. O consumismo, através da propaganda, trabalha com os desejos. Ora cria desejos, ora os aguça. Somos escravos de desejos desordenados. O mercado excita os desejos das crianças, jovens e adultos e os legitima como felicidade, bem-estar, autorrealização e autoprojeção. Promete mundos maravilhosos, messiânicos, efêmeros e eficazes. A vida é vivida como um espetáculo, uma satisfação de desejos e sensações, e curtições.
É notável, notável. O mercado, oh esse vilão! Mas a religião também não excita o desejo de salvação? A religião não excita o desejo de aproximação com Deus? Qual o problema de excitar desejos? Se não há fraude nem violência não vejo nenhum problema. Mas notem que a ideia passada pelo bispo não é de modo algum justificada. Afirma-se, sem mais, que o individualismo se caracteriza pela legitimação dos desejos. Mas isso significa legitimação irrestrita dos desejos? Qualquer desejo é legitimado pelo individualismo? Isso parece contraditório com a 5ª caracterização, “a imposição dos direitos individuais”.
Só consigo ver sentido na imposição (no sentido de prescrição ou determinação de algum princípio) dos direitos individuais se essa imposição implicar respeito a esses direitos. Ora, nem todos os desejos serão justificáveis, bem entendido, nem todos os desejos podem, do ponto de vista normativo, ser exteriorizados. Alguns terão de ser reprimidos (e inclusive moralmente desencorajados). É espantoso alguém supostamente esclarecido ter uma ideia tão capenga de direitos individuais. Ou ele pensa apenas no aborto, eutanásia e clonagem (citados por ele no item 5)? Certamente não, pois há um "etc' ali. Não sabemos quais os direitos individuais que entrariam nesse “etc”. De todo modo, podemos entender perfeitamente que o bispo é contra o direito do indivíduo não querer mais viver (não discuto aborto e clonagem, pois acho que são discussões específicas e mais difíceis – sobre aborto já expus minha opinião aqui ).
Quando vejo esse pessoal falando contra, por exemplo, individualismo e neoliberalismo sempre me ocorre perguntar: o que eles leram sobre isso? Qual a bibliografia do bispo? Qual texto Vossa Excelência Reverendíssima tem em mente para a compreensão do individualismo? Ficamos sem saber.
Mas o aspecto 7, o da independência, parece ser muito revelador de um líder religioso. Um líder religioso louvar a independência individual seria muito curioso (mas possível e até coerente). No item da independência, ele manda essa:
O individualismo é egolatria, autonomia, solidão, rebeldia. Os conflitos da independência começam em casa, no namoro, na escola e no estilo de vida liberal, independente, permissivo. A pessoa pautada pela independência, assume atitudes de arrogância, arbritariedade, indiferença, antipatia e agressividade. Chega a ser antissocial e contestadora das realidades objetivas da vida.
Mas, bispo, pelo amor de Deus, o que senhor quer dizer com independência? O senhor é contra a independência das pessoas?
Vejam o aspecto do egoísmo
8. O egoísmo. A centralização de si, o egocentrismo é um dos piores recalques da humanidade. Quando socializado, o egoísmo tem o nome de lucro, sucesso, consumismo, livre escolha. O que vem primeiro são as diversões, a curtição, o imediato, a estética, a dimensão lúdica da vida. O importante é o agora, o espetáculo, as distrações, o corpo. O egoísmo globalizado gera ''povos da opulência e povos da indigência'', alarga as desigualdades entre ricos e pobres, o império do mercado e a iniquidade social. O egoísmo é o caminho do abismo.
Pobre mercado, mais uma vez saco de pancadas do bispo. Bem, aqui, está um dos pontos cruciais. Individualismo não deve ser confundido com egoísmo. Egoísmo parece ser uma palavra útil para nomearmos uma atitude imoral. Para o egoísta a satisfação do querido e amado eu é um fim incondicional. Como tal, o egoísta considera suas ações em geral como simples meios para a obtenção deste fim, a satisfação do eu. É fácil perceber que as consequências morais do egoísmo são indesejáveis. Agora, o individualista, isto é, aquele que assume o individualismo como uma crença na soberania moral do indivíduo face a qualquer coletividade (seja o universo, o planeta, a nação, a cidade, a tribo, o partido ou a raça), de modo algum se compromete necessariamente com o egoísmo. Eu ainda acho que Popper tem alguma utilidade:
Um anticoletivista, isto é, um individualista, pode ao mesmo tempo ser um altruísta; pode estar pronto a fazer sacrifícios a fim de ajudar outros indivíduos (Sociedade Aberta e Seus Inimigos, vol I).O bispo deveria pensar nesse esqueminha de Popper:
a) individualismo é oposto a a’) coletivismo
b) egoísmo é oposto a b’) altruísmo
Talvez alguém pense que não posso exigir, por coerência, mais do que boas definições e consistência argumentativa. Depende. Muitas vezes isso só não basta. Mas nessa discussão sobre individualismo eu me contentaria com boas definições e consistência. Ele não dá boas definições. E ele não parece primar por consistência argumentativa. Que negócio é esse de ”egoísmo individualista” (referido no item 3)? Será que ele não queria dizer “individualismo egoísta”? Bem, a expressão “egoísmo individualista” sugere a existência de um egoísmo não individualista. Esse seria bom, seria aceitável? E se a expressão fosse “individualismo egoísta!”? Aí o bispo teria de admitir a possibilidade de um individualismo altruísta? Bah! Em qualquer caso, fica evidente a frouxidão semântica conferida pelo bispo ao termo individualismo. E é curioso porquanto o próprio cristianismo parece comportar um núcleo moral profundamente individualista. Há uma boa do Popper sobre isso. Ele sustenta que o individualismo é a doutrina central do cristianismo, pois as Escrituras dizem ‘Ama ao teu próximo,’ e não ‘ama a tua tribo’ (Popper SA, vol I).
2 comentários:
Professor:
Eu também adoro bispos, afinal meus ancestrais quase todos foram pastores, presbíteros, sacerdotes, ,diáconos, enfim possuo um DNA de hierarquia religiosa de dar inveja às noviças do Vaticano....Não sou católica, mas sou cristã e como tal é meu dever (e prazer também, defender a cristandade, principalmente quando é sobre algo que você escreveu...). Vou ler o que o Arcebispo disse para tecer um comentário correto e quem sabe advogar a fovor deste cristão...
ABRAÇOS DA KAREM
Professor:
"OS DOIS PROBLEMAS QUE AFETAM A CRISTANDADE NOS DIAS DE HOJE: A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE E A DESVIRTUAÇÃO DO SEU OBJETIVO MAIOR QUE É A DIVULGAÇÃO EVANGELÍSTICA... (Karem Regina Costa)
Tenho que admitir que a falta de coerência e conectividade entre o tema e as falas do meu irmão o Arcebispo, não me deixa argumentos sequer para defender a Cristandade. Não gosto do termo "Cristianismo", pois todos os "ISMOS", soam como ideologias, falseamentos da realidade, e a Cristandade é algo real, quando proposto a ser vivenciada. Fico bastante preocupada quando com os discursos de líderes religiosos ditos cristãos, são focados em temas que mais agradariam os integrantes do MST do que àquilo a que se propuseram quando do juramento bíblico para pastoreamento do rebanho de almas. Igreja na minha opinião, (e foi assim que aprendi com aquela gama eclesiástica de pessoas da família que te falei) deve se dedicar única e exclusivamente à orientar e encaminhar almas para uma vida de paz e serenidade dentro da Constituição Teológica que fundamenta cada denominação (Igreja). O que passa disso é pernicioso e faz com que nós cristãos morramos de vergonha ante às falas de alguns líderes religiosos. Gosto do Bento XVI, mas se ele se propusesse a rezar pelas almas ao invés de se intrometar na vida sexual dos africanos, ele estaria cumprindo a missão que lhe foi imposta, e quem sabe o mundo seria menos violento. Acho que temas sociais não devem ser debatidos no âmbito religioso. CRISTO não foi um revolucionário social, Ele foi um Individualista, e por que não????? O meu individualismo é o meu "eu", tal como eu sou, e acredito que é tão intacto que nem o MEU DEUS ousa invadir.... Se queremos uma sociedade não voltada para o materialismo, para a sexualidade exacerbada, para as drogas, para a violência e outros etcs...., então vamos precisar mais de bispos e pastores que se preocupem em revolucionar o "interior" humano, para que à partir do individual sarado, partamos para o todo ideal. Queridos líderes religiosos procurem transformar suas ovelhas nas suas subjetividades e quem sabe a sociedade passará a ser menos materialista e menos permissiva. Que Deus nos ajude.
ABRAÇOS DA KAREM
Postar um comentário