04 outubro 2009

Deus

No capítulo 21 do Leviatã, lemos:

A liberdade e a necessidade são compatíveis, o que ocorre com a água que não tem apenas a liberdade, mas também a necessidade de descer pelo canal, também ocorre com as ações que os homens voluntariamente praticam: estas, como derivam de sua vontade, derivam da liberdade, e contudo, porque todo ato da vontade dos homens, todo desejo e inclinação deriva de alguma causa, e esta de outra causa, numa cadeia contínua (cujo primeiro elo está na mão de Deus, a primeira de todas as causas), elas derivam também da necessidade. De modo tal que para quem pudesse ver a conexão dessas causas a necessidade de todas as ações voluntárias dos homens pareceria manifesta. Portanto, Deus, que vê e dispõe todas as coisas, vê também que a liberdade que o homem tem de fazer o que quer é acompanhada pela necessidade de fazer aquilo que Deus quer, e nem mais nem menos do que isso. [...] E se acaso a sua vontade [de Deus] não garantisse a necessidade da vontade do homem, e conseqüentemente de tudo o que depende da vontade, a liberdade dos homens seria uma contradição e um impedimento à onipotência e liberdade de Deus.



Como a responsabilidade moral pressupõe livre-arbítrio (o que Hobbes, equivocadamente, não reconhece), ou nós não somos responsáveis, ou somos e Deus vai ter de ficar chorando a perda da sua querida onipotência e liberdade. De todo modo, é notável como Hobbes viu bem que não dava para assumir a liberdade da vontade da criatura sem macular a liberdade da vontade do criador. Muito bem, Hobbes.

Mas também não deixa de ser notável a inocente facilidade com que Hobbes crê chegar à primeira de todas as causas. Ele pensa que se todas as coisas têm uma causa, então tem de haver algo que seja a causa de tudo. Mas vem cá, dá uma olhadinha com atenção nisso. Não funciona. Por que será que Hobbes errou (ele que tanto ridiculariza as bobagens de Thomas de Aquino, lasca tranquilamente a segunda via aqui)? Talvez o erro se deva simplesmente ao fato de Hobbes ter se perdido nas curvas da rodovia “Postulado lógico da razão”. Bah, mas até um motorista meia-boca conseguiria manter o controle do carro.

Kant ensina que “quando o condicionado é dado, é-nos proposta, como tarefa, uma regressão na série total das condições do mesmo; porque o conceito de condicionado já implica que algo se refira a uma condição e se esta, por sua vez, for condicionada, que se refira a outra mais distante e assim sucessivamente através de todos os elementos da série” (B 526). Esta é uma proposição analítica. Logo, nada a protestar. Trata-se do “postulado lógico da razão”. Ora, o senhor Thomas Hobbes pega esse postulado lógico da razão e o converte num princípio constitutivo para o conhecimento dos objetos. Mas acontece que esse postulado é meramente regulativo no uso teórico. Que papelão, senhor Hobbes. O seu erro, e de tantos outros cérebros menos ilustres, é o seguinte. “A premissa maior do raciocínio cosmológico da razão toma o condicionado no significado transcendental de categoria pura, e a premissa menor o considera no significado empírico de um conceito do entendimento aplicado a simples fenômenos”. Ora, isso envolve o “erro dialético que se denomina sophisma figurae dictionis”.


Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão

Um comentário:

Alison Mandeli disse...

Olá Professor Aguinaldo

Também acho que o melhor caminho adotado por Kant para refutar a teologia racional é esse esclarecimento sobre o uso regulativo das idéias. Isso implica a aceitação do idealismo transcendental, diferente do que pensam a maioria dos comentadores, dizendo que a refutação da teologia se daria independente deste, bastando analisar corretamente e descobrir as incoerências internas dos argumentos em prol da existência de Deus.

A forma como Kant argumenta em alguns trechos realmente passa essa idéia de que a refutação da teologia não precisa do idealismo transcendental. A estratégia dele é reduzir todos os argumentos ao argumento ontológico e mostrar que o ontológico é impossível, pois "existir não é um predicado real" e isso é aceito pelos defensores da prova ontológica.

Seria assim:

Fisico teológico ==> Cosmológico ==> ontológico

Todos dependeriam do ontológico e este seria impossível.

Não acho plausível esse caminho. A redução de todos os argumentos ao ontológico não é bem explicada e a tese "existência não é um predicado" parece ser verdadeira somente para entes finitos.

Acho que alguns comentadores concordam muito rápido com Kant e aceitam de forma a-critica que "existência" não é um predicado. Se esse conceito tem outra função semântica então essa deve ser melhor explicada por Kant. Ele não precisava se meter aí. Bastava ficar com o as conclusões do idealismo transcendental.