11 Novembro 2009

Duas cores, uma só bandeira

Hora absurda

O TEU SILÊNCIO é uma nau com tôdas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
[...]

Ah, como esta hora é velha!... E tôdas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

[...]

Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente... [..]

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
[...]

O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

[...]

Ah, se fôssemos as duas côres de uma bandeira de glória!...
[...] 


(Fernando Pessoa)

2 comentários:

Vampira Dea disse...

Ah Fernando Pessoa, magnífico. AH feliz 2010.

Aguinaldo Pavão disse...

Obrigado, Vampira, pela visita. Feliz 2010.