Aproveito a luminosa vinda de Richard Dawkins ao Brasil para comentar um artigo escrito por Luiz Felipe Pondé (filósofo, professor da PUP e articulista da Folha de São Paulo) contra o livro Deus, um Delírio. Cito trechos do artigo e comento. Uma das frases do artigo:
Será que autor do artigo pensou no que ele colocou no papel? Há falácia mais elementar do que essa? Um non sequitur que até um guri de 4 anos protestaria.
Eu li o livro de Dawkins e não percebi que autor representa “aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande”. Bem, a qualificação de “libelo político” é adjetivação de desabafo. Tudo bem, vamos aceitar que todos podem ler livros e julgá-los com o palato. Agora, afirmar que o “ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico” já é afirmar algo interessante. Primeiro, porque permite que percebamos que Pondé não está se referindo a Dawkins. Em Deus, um delírio, Dawkins não prega ateísmo científico (se pensarmos em provas da não-existência de Deus). Ele argumenta em favor da baixa probabilidade da existência de Deus. Isso é “ateísmo científico”? Isso é um contra-senso? O que significa afirmar “Deus é uma variável sem controle epistemológico”? Certamente não é o que pensam os criacionistas. Eles devem pensar que há algum “controle epistemológico”, da mesma forma os que acreditam em milagres. Com efeito, são crenças que alteram nossa compreensão da natureza e do universo. Talvez somente uma posição radicalmente fideísta possa restar imune às críticas que Dawkins faz à religião. Mas será mesmo? Será que um fideista pode, coerentemente, crer que Jesus ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus e está sentado à direita de Deus pai todo-poderoso e desprezar uma eventual descoberta arqueológica do corpo de Jesus? (Parece que fizeram um filme sobre isso. Um fideísta está disposto a essa abertura à dúvida?) Admitamos essa hipótese, ou seja, vamos supor que sejam obtidas fortes evidências de que Jesus não subiu aos céus. Ao contrário, seriam encontrados fortes indícios empíricos de que ele foi reduzido ao pó. Nesse caso, como fica o fideísta? Ora, a sua fé também levanta pretensões sobre nossa compreensão da natureza. Uma natureza que comportaria lances mágicos, como a ressurreição dos mortos. E ele vai querer ficar sem “controle epistemológico”? Bah, está muito fácil essa fé religiosa.
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Boa essa. Do mesmo modo pode-se dizer: afirmações como “tenha orgulho de ser católico e confie na proteção de Deus” soam bem num workshop para auto-estima. Ou não? Workshop para auto-estima não vale para os cristãos?
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E se o livro tiver tido essa “grande intuição marqueteira”? E daí? O livro não se resume a isso (concedendo-se que tenha essa intenção). Que tal o senhor Pondé argumentar contra os argumentos do livro? Hein? Seria uma boa, não? Ah, a sensibilidade de esquerda! Oh! Como se argumentos, por si só, fossem de esquerda ou de direita. Mas Pondé, como muita gente por aí, quer criticar o livro fazendo acusações subterrâneas. As intenções, as motivações e blábláblá. Eu gostaria de ler contra-argumentos. O crítico teme ser processado se disser em público que acredita em Deus. Ora, ora. Coitadinho. Que peninha. Seria uma injustiça! Só por que acredita em Deus, ele seria processado pelos ateus furiosos, os jacobinos furiosos do século XXI.
Agora, sobre as mortes, acho que Ponde tem razão. Não acredito que faça muita diferença acreditar em Deus ou não. Eu já comentei isso aqui. Se o camarada acreditar cegamente na causa comunista, ele também estará disposto a cometer atrocidades que muitas religiões cometeram e cometem. É bom não esquecer que Dawkins admite uma boa religião (é só ler o livro), uma religião que jamais inclinaria os homens aos conflitos em que o apelo aos céus é único recurso.
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Estava demorando para a entrada em cena da verborragia moral: “covardes”, “medrosos”, “vigaristas”. Há uma turminha, e Pondé dá a impressão de se alinhar, às vezes, a tal turba que aproveita qualquer debate para fazer guerrinha de desqualificações morais. Não acho que seja o caso de Pondé, mas ele dá uma escorregada aqui. Não penso que Dawkins procura seduzir (se isso for entendido como ausência de argumentos). Seu livro é argumentativo. Você pode concordar, discordar. Ele forneces dados em defesa de suas teses. É impressionante como as pessoas adoram críticas genéricas. Outra coisa, Dawkins não desconhece a chamada “percepção trágica da vida”. Basta ler Gene Egoísta. Se o senhor Pondé, um intelectual respeitadíssimo, escreve isso sobre Dawkins imagina o que não dizem os pupilos da turma “eu sou conservador com muito orgulho e viva Tomás de Aquino” (que eles acham que é um santo). Eu já cheguei a ler um senhor afirmar que Dawkins deveria ser preso por desrespeitar os sentimentos religiosos das pessoas! Puxa, como são sensíveis!
Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR
2 comentários:
Olha, você fala em defesa, mas não tem defesa nenhuma. É só crítica ao prof. Pondé. Seja coerente com as palavras. Defenda o ateu fanático do Dawkins e não fique só criticando quem discorda dele. Para defender Dawkins faltam argumentos, né?
Parabéns pela coragem em se identificar.
Você sabe o que significa defesa? Defesa não significa apenas apresentar argumentos em favor de X, mas também rebater argumentos contra X.
E essa conversa de ateu fanático? Você leu as páginas 17-18 (Cia da Letras, 2007)do livro de Dawkins? Acho que não.
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