
Na dúvida, vou levar a sério Sartre. Pois bem, Sartre mesmo admite que o ateísmo não implica o existencialismo. É verdade que, se admitirmos a existência de Deus, certamente teremos de nos comprometer com a tese de que a essência precede a existência. Mas do fato de rejeitarmos qualquer espécie de teísmo (ou mesmo de deísmo) não se seguirá a tese de que a existência precede a essência. Sartre menciona os filósofos do século XVIII que, mesmo sem Deus, ainda acreditavam na noção de natureza humana. Ora, o que justamente seria preciso é negar a existência de uma natureza humana, ou – uma tarefa ainda mais difícil – negar a existência de “qualidades de base (qualités de base)” que permitiram a alguns filósofos entenderem que “o homem da selva”, “o homem primitivo” e “o homem burguês” (exemplos de Sartre) estariam adstritos a uma mesma definição. Ou seja, negar que esses três tipos de homem seriam, afinal, homens, que teriam algo em comum. Por conseguinte, a compreensão de que eles podem ser pensados como compartilhando “qualidades de base” tem de ser rejeitada com um fôlego argumentativo não oferecido por Sartre nesse textinho.
Ademais, essa história de que “o homem é, antes de mais nada, um projeto” já flerta de modo indecoroso com o que verbalmente é rejeitado. Esse projeto envolve intencionalidade, envolve inteligência, envolve capacidades prático-teóricas especificas, ou ao menos distintas de qualquer coisa parecida com cremes e couves-flores. Essas qualidades não são um “nada”. Seriam as ditas "qualidades de base". Sim, as qualidades de base, as qualidades de base.
Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR
4 comentários:
Olá Aguinaldo,
Escrevo do pico do Monte das Suspeitas.
Aqui está frio e confuso...
Um lugar onde questões também existem...
Onde a ventania de vacilo teórico é o único movimento de vida por aqui...
Cometi a falta (ou a sorte) de não trazer O Existencialismo é um Humanismo para passar o tempo... Mas recordo de algumas idéias que gostaria de tremê-las... também sem fôlego!
É verdade que o ateísmo de Sartre não implica o existencialismo...
Mesmo que Deus existisse o homem estaria abandonado ao seu projeto...
Tendo a conceber que o rejeite das “qualidades de base” não visariam simplesmente evitar uma definição comum para o ser humano, embora o trecho citado proponha isso como foco principal. Pelo contrário, esse rejeite significaria mais uma substituição do conceito de “natureza humana” (pelo de “condição humana”) – o que não me parecem sinônimos – do que a mera descrença numa mesma definição. Lembremos de que há estruturas que dizem respeito igualmente a todos nós, tal como a facticidade e a presença a si, por exemplo. O que precisa ser realçado é que essas estruturas estão, em princípio, relacionadas também com o que não é; isso as faz serem o que de fato (ainda) não são. É como se disséssemos que todos nós somos iguais naquilo que nos diferencia existencialmente.
Essa dimensão do futuro incerto, que nada é, a não ser um ser projetado, é importante para a compreensão de projeto. Assim, essa noção não me parece “flertar” com a antiga noção de “natureza”, ou de “qualidades de base”. Estas coagulariam um provável futuro; já o projeto, que no fundo só é o que ainda não é, seria sim um nada (não-ser), portanto, a ausência de uma mesma motivação que já estaria inscrita em algum lugar dentro de nós.
As “qualidades” do projeto seriam o próprio existir, não sua póstuma definição...
Como sempre seus texto são como iscas aos peixes famintos...
A fome é que os unem...
Na dúvida, não me leve a sério...
Grande abraço de seu aprendiz...
Tiago.
Caro Tiago.
Agradeço muitíssimo ao teu comentário. Eu gostaria de entender melhor a distinção de Sartre entre natureza humana e condição humana. Tendo a concordar com Naville: não há diferença (mas não concordo, bem entendido, pelas mesmas razões de Naville). Sartre se refere à “universalidade humana de condição” falando em coisas que não variam, como a “necessidade de estar no mundo, de lutar, viver com os outros e de ser mortal”. Admitamos que “natureza humana” seja uma expressão que pretenda justamente captar os elementos invariantes do seres chamados humanos. Essa invariância evidentemente compromete sua liberdade (que seria o espaço para as variações, a margem para as manobras). Ora, a biologia nos ensina que não somos tábulas rasas. Nosso cérebro, nossas predisposições genéticas condicionam tremendamente nosso ser. Segundo o que alguns cientistas falam, todos os mamíferos humanos compartilham 99,5% de seu código genético. Ora, isso não diz nada sobre uma natureza humana? Não diz nada sobre elementos invariantes de nossa condição, sobre o que está dado previamente ao exercício de nossa liberdade? Acho que sim e por isso tendo a não aprovar Sartre. Mas estou dialogando (temerariamente) com um estudioso de Sartre. Logo, preciso admitir que deve haver alguma saída sartreana (ou várias saídas) para o tosco questionamento que proponho.
Abraço.
Caro Aguinaldo,
Durante esses quase 9 meses que se passaram desde a publicação de "Será mingau?" continuei com os estudos sobre Sartre e chego a algumas conclusões sobre os questionamentos que você propuseste. Devo alertar que permanecem conclusões provisórias, já que não disponho da extensão conceitual-relacional necessária para um aprofundamento digno e respeitável. Mesmo essa resposta à tréplica não dispõe de um estudo aprofundado de O Ser e o Nada, sendo representante de uma interpretação livre do texto O existencialismo é um humanismo.
Em seu texto você faz a seguinte afirmação:
1º) “Ora, o que justamente seria preciso é negar a existência de uma natureza humana, ou – uma tarefa ainda mais difícil – negar a existência de “qualidades de base (qualités de base)” que permitiram a alguns filósofos entenderem que “o homem da selva”, “o homem primitivo” e “o homem burguês” (exemplos de Sartre) estariam adstritos a uma mesma definição. Ou seja, negar que esses três tipos de homem seriam, afinal, homens, que teriam algo em comum”.
Sobre a passagem citada gostaria de contribuir com a seguinte reflexão: Sartre, oferecendo o exemplo do objeto fabricado por um artífice, diz que o produtor possui um conceito do corta-papel e que faz parte desse conceito, tal como uma receita, “uma determinada técnica de produção”. Vemos o conceito do “conceito” oferecer uma definição e certa determinação no fazer. A isso Sartre chama essência: “o conjunto das técnicas e das qualidades que permitem a sua produção e definição”. O filósofo acrescenta que a própria presença de tal objeto à sua frente estaria determinada por essa essência.
Na sequência, Sartre identifica essa noção de essência com a de Deus, e defende que para algumas teorias “Deus produz o homem segundo determinas técnicas e em função de determinada concepção”. Segundo esse ponto de vista, “o homem individual materializa certo conceito” existente em Deus, ou seja, o homem individual passa a existir determinado por uma essência. Vejamos: a essência não garante apenas a definição de homem, mas também seu vir-a-ser essa determinação. Ainda segundo Sartre, no século XVIII o conceito de Deus foi substituído pelo de natureza humana, que no final das contas desempenha a mesma função determinista do termo essência.
Se assim for, não consigo concordar com uma necessidade de se negar o essencialismo apenas para se fugir de uma impossibilidade de se “enquadrar” os três tipos de homem numa mesma definição. Em parte isso está correto, afinal, como diz Sartre, essa definição comum precederia “a existência histórica que encontramos na Natureza”, e isso representa motivo suficiente para se questionar sobre as diversas facetas assumidas historicamente pelo homem. Mas em parte, – e aqui reside o ponto central da argumentação – o essencialismo deve ser negado na medida em que o homem não se apresenta determinado em seu ser por alguma definição que o conduza a certa finalidade, tal como uma “receita” produziria sempre um mesmo objeto. A definição do homem não está mais em questão do que o próprio fazer-se: ambos os conceitos se complementam. Assim, quando você ressalta o interesse de Sartre em submeter o homem a uma mesma definição, parece-me que o interesse de Sartre está em parte tocado, o que, se fosse assim, dificultaria a compreensão de uma inversão existencialista proposta por ele.
4º) “Admitamos que ‘natureza humana’ seja uma expressão que pretenda justamente captar os elementos invariantes do seres chamados humanos”.
Se admitíssemos essa definição não estaríamos concordando com o Sartre de saída. Elementos invariantes são apenas elementos invariantes, ou seja, uma universalidade de condição. Condição não é determinação, logo, condição humana não é natureza humana.
5º) “Essa invariância evidentemente compromete sua liberdade (que seria o espaço para as variações, a margem para as manobras). Ora, a biologia nos ensina que não somos tábulas rasas. Nosso cérebro, nossas predisposições genéticas condicionam tremendamente nosso ser”.
Não me parece que o conceito de liberdade que você usa seja o mesmo de Sartre. Condicionar não me parece o mesmo que determinar. Liberdade deve ser entendida como possibilidade a partir de condições dadas, não a partir da ausência de condições, ou mesmo sobre condições mais ou menos fracas que poderíamos inventariá-las numa hierarquia segundo parâmetros deterministas.
6º) “Segundo o que alguns cientistas falam, todos os mamíferos humanos compartilham 99,5% de seu código genético. Ora, isso não diz nada sobre uma natureza humana? Não diz nada sobre elementos invariantes de nossa condição, sobre o que está dado previamente ao exercício de nossa liberdade? Acho que sim e por isso tendo a não aprovar Sartre”.
Sobre a primeira pergunta, na letra sartriana, esse compartilhamento diz sobre a condição humana, não sobre a natureza humana. Sobre a segunda pergunta concordo plenamente com você e acho que justamente por isso você acaba por aprovar Sartre.
Apesar dessa reposta gostaria de me dar o direito de não responder, por enquanto, se Sartre, ou mesmo, se O existencialismo é um humanismo, se trata de um mingau filosófico ou não. Continuarei estudando e é provável que este tópico continue aqui, sendo muito mais provável que volte a mudar de posição.
Um grande abraço.
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