05 julho 2009

Quando faltam argumentos: em defesa de Richard Dawkins

Aproveito a luminosa vinda de Richard Dawkins ao Brasil para comentar um artigo escrito por Luiz Felipe Pondé (filósofo, professor da PUP e articulista da Folha de São Paulo) contra o livro Deus, um Delírio. Cito trechos do artigo e comento.

Uma das frases do artigo:


Como diria Chesterton, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem.


Será que autor do artigo pensou no que ele colocou no papel? Há falácia mais elementar do que essa? Um non sequitur que até um guri de 4 anos protestaria.

O novo livro de Richard Dawkins (que parece ser aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande), "Deus, um Delírio", não é ciência, mas mero libelo político (ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico), uma recaída na velha fúria jacobina, requentada com máximas evolucionistas.


Eu li o livro de Dawkins e não percebi que autor representa “aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande”. Bem, a qualificação de “libelo político” é adjetivação de desabafo. Tudo bem, vamos aceitar que todos podem ler livros e julgá-los com o palato. Agora, afirmar que o “ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico” já é afirmar algo interessante. Primeiro, porque permite que percebamos que Pondé não está se referindo a Dawkins. Em Deus, um delírio, Dawkins não prega ateísmo científico (se pensarmos em provas da não-existência de Deus). Ele argumenta em favor da baixa probabilidade da existência de Deus. Isso é “ateísmo científico”? Isso é um contra-senso? O que significa afirmar “Deus é uma variável sem controle epistemológico”? Certamente não é o que pensam os criacionistas. Eles devem pensar que há algum “controle epistemológico”, da mesma forma os que acreditam em milagres. Com efeito, são crenças que alteram nossa compreensão da natureza e do universo. Talvez somente uma posição radicalmente fideísta possa restar imune às críticas que Dawkins faz à religião. Mas será mesmo? Será que um fideista pode, coerentemente, crer que Jesus ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus e está sentado à direita de Deus pai todo-poderoso e desprezar uma eventual descoberta arqueológica do corpo de Jesus? (Parece que fizeram um filme sobre isso. Um fideísta está disposto a essa abertura à dúvida?) Admitamos essa hipótese, ou seja, vamos supor que sejam obtidas fortes evidências de que Jesus não subiu aos céus. Ao contrário, seriam encontrados fortes indícios empíricos de que ele foi reduzido ao pó. Nesse caso, como fica o fideísta? Ora, a sua fé também levanta pretensões sobre nossa compreensão da natureza. Uma natureza que comportaria lances mágicos, como a ressurreição dos mortos. E ele vai querer ficar sem “controle epistemológico”? Bah, está muito fácil essa fé religiosa.

[...]

Afirmações como "tenha orgulho de ser ateu e olhe o futuro com confiança" soam bem num workshop para auto-estima.


Boa essa. Do mesmo modo pode-se dizer: afirmações como “tenha orgulho de ser católico e confie na proteção de Deus” soam bem num workshop para auto-estima. Ou não? Workshop para auto-estima não vale para os cristãos?

[...]

O livro vende o darwinismo como teoria "progressista" (grande intuição marqueteira), por isso suas alusões a "sair do armário", tentando convencer a sensibilidade de esquerda que o darwinismo não é mais perigoso. A alma desassossegada indaga: além da parada dos ateus, serei processado se disser em público que acredito em Deus? Quem é o bobo que acredita que, sem Deus, o ser humano mataria menos? Sem o fundamentalismo islâmico (supõe-se), as torres gêmeas estariam lá, mas e os milhões de mortos em nome da ciência, da humanidade e da história nos séculos 18, 19 e 20?


E se o livro tiver tido essa “grande intuição marqueteira”? E daí? O livro não se resume a isso (concedendo-se que tenha essa intenção). Que tal o senhor Pondé argumentar contra os argumentos do livro? Hein? Seria uma boa, não? Ah, a sensibilidade de esquerda! Oh! Como se argumentos, por si só, fossem de esquerda ou de direita. Mas Pondé, como muita gente por aí, quer criticar o livro fazendo acusações subterrâneas. As intenções, as motivações e blábláblá. Eu gostaria de ler contra-argumentos. O crítico teme ser processado se disser em público que acredita em Deus. Ora, ora. Coitadinho. Que peninha. Seria uma injustiça! Só por que acredita em Deus, ele seria processado pelos ateus furiosos, os jacobinos furiosos do século XXI.

Agora, sobre as mortes, acho que Ponde tem razão. Não acredito que faça muita diferença acreditar em Deus ou não. Eu já comentei isso aqui. Se o camarada acreditar cegamente na causa comunista, ele também estará disposto a cometer atrocidades que muitas religiões cometeram e cometem. É bom não esquecer que Dawkins admite uma boa religião (é só ler o livro), uma religião que jamais inclinaria os homens aos conflitos em que o apelo aos céus é único recurso.


[...]

Gostamos de matar e pronto. Dawkins procura seduzir exatamente o tipo de pessoa covarde que não gosta de saber disso sobre si mesma e, com isso, minimiza uma grande qualidade do darwinismo filosófico: sua percepção trágica da vida na qual somos areia que um dia abriu os olhos e que balbucia sozinha diante da indiferença furiosa de um universo mudo e sonambúlico imerso no acúmulo de design cego (supremo conceito que descreve a emergência da "ordem" em meio à cegueira da matéria).


Estava demorando para a entrada em cena da verborragia moral: “covardes”, “medrosos”, “vigaristas”. Há uma turminha, e Pondé dá a impressão de se alinhar, às vezes, a tal turba que aproveita qualquer debate para fazer guerrinha de desqualificações morais. Não acho que seja o caso de Pondé, mas ele dá uma escorregada aqui. Não penso que Dawkins procura seduzir (se isso for entendido como ausência de argumentos). Seu livro é argumentativo. Você pode concordar, discordar. Ele forneces dados em defesa de suas teses. É impressionante como as pessoas adoram críticas genéricas. Outra coisa, Dawkins não desconhece a chamada “percepção trágica da vida”. Basta ler Gene Egoísta. Se o senhor Pondé, um intelectual respeitadíssimo, escreve isso sobre Dawkins imagina o que não dizem os pupilos da turma “eu sou conservador com muito orgulho e viva Tomás de Aquino” (que eles acham que é um santo). Eu já cheguei a ler um senhor afirmar que Dawkins deveria ser preso por desrespeitar os sentimentos religiosos das pessoas! Puxa, como são sensíveis!

Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR

2 comentários:

Maria de Jesus disse...

Olha, você fala em defesa, mas não tem defesa nenhuma. É só crítica ao prof. Pondé. Seja coerente com as palavras. Defenda o ateu fanático do Dawkins e não fique só criticando quem discorda dele. Para defender Dawkins faltam argumentos, né?

Aguinaldo Pavão disse...

Parabéns pela coragem em se identificar.
Você sabe o que significa defesa? Defesa não significa apenas apresentar argumentos em favor de X, mas também rebater argumentos contra X.
E essa conversa de ateu fanático? Você leu as páginas 17-18 (Cia da Letras, 2007)do livro de Dawkins? Acho que não.