1. Gostaria de abordar dois pontos acerca do tema “Mídia e Criminalidade”. Primeiro, quero defender que órgãos de imprensa devem ser encarados positivamente como empresas que visam ao lucro. Em segundo lugar, gostaria de tecer algumas considerações sobre a tese de que a imprensa, ao fazer a cobertura de crimes em geral, se utiliza de técnicas sensacionalistas a fim de manipular o telespectador, o ouvinte ou o leitor. Esta tese é defendida, por exemplo, pelo professor Luiz Ferri de Barros (Dr. em Filosofia da Educação pela USP), em uma conferência intitulada “O sensacionalismo da imprensa na cobertura de crimes de natureza psicopatológica e suas conseqüências” (disponível em: www.bancodeescola.com/crimes.doc). Neste texto, há uma seção sobre a cobertura de crimes em geral. Pois bem, sobre esse ponto defenderei que o reconhecimento da natureza passional dos seres humanos deveria ser suficiente para não nos abalarmos tanto com o fato de notícias terem efeitos manipulatórios em nossas emoções. É claro que precisarei clarificar o que entendo por manipulação no contexto das discussões sobre os vícios da mídia.
2. Penso que não devemos de modo algum considerar que donos de órgãos de imprensa, apresentadores de programas populares, jornalistas em geral tenham de exercer suas atividades com motivações nobres. Suas motivações podem muito bem ser as motivações mesquinhas e bem humanas como a, talvez, rainha das motivações, isto é, a motivação de atender ao querido e amado eu. Se o querido e amado eu quer mais e mais dinheiro, se o querido e amado eu quer mais poder, aceitemos. Pois assim caminha a humanidade e, no fundo, isto é muito bom. Como apregoava Bernard Mandeville (1670-1733) vícios privados geram benefícios públicos. Muitas pessoas de índole sentimental, romântica, poderão pensar que um dono de televisão, que – vamos supor - pensa prioritariamente no lucro e não na função social de sua empresa, não passa de um porco capitalista. Nesse caso, eu preciso confessar que tenho certa simpatia por suínos capitalistas.
2.1. Em geral, são as motivações egoístas que geram empregos e produzem riqueza. Para que o negócio televisão, rádio, jornal prospere, é preciso audiência (e leitores no caso do jornal). Sendo assim, parece-me natural que índices de audiências e pesquisas qualitativas pautem as programações e o noticiário em geral. Os veículos de comunicação precisam de mercado e da ampliação deles. Ora, se o público deseja consumir jornalismo criminal, então se ofereça ao público jornalismo criminal. Conquiste-se audiência e anunciantes e que seja alcançada a prosperidade em seus negócios. Qual o problema nisso? Minha pergunta, bem entendida, é qual o problema, por si só, nesta lógica capitalista? Eu não vejo nenhum.
3. De acordo com Luiz Ferri de Barros,
Eu pergunto: e daí? Muita literatura também manipula nossas emoções. Livros de Paulo Coelho, a meu ver, também induzem ao baixo nível de reflexão. Um namorado também procura manipular as emoções de sua namorada. Não vejo nada de excepcional no fato da imprensa também fazer isso.
3.1. Aqui entra a relação, defendida por Barros, entre sensacionalismo e manipulação. Segundo ele,
[*] Werther teria de ser proibido. Na verdade, como é sabido, na época de sua publicação o livro provocou suicídios entre muitos jovens, o que levou alguns governos da Europa a tentarem proibir a circulação do livro.
3.1.1. Depreende-se da citação que Barros não é contra a manipulação em geral (a manipulação da compaixão é aceitável para ele). Portanto, ele deve estar tomando o conceito de manipulação num sentido específico, que não poderia significar algo como:
[**] 3.2. Notem o equívoco não só da ideia de pressão, como do exemplo da mídia. A mídia não é promotora de uma pressão que vai contra a vontade das pessoas. Certamente, a mídia representa uma pressão, mas não coerção.
3.2.1. Vejam que não poderia ser o sentido 5, embora se refira à mídia, pois Barros não pensa, presumo, que atos filantrópicos são feitos contra a vontade das pessoas quando estas têm suas compaixões manipuladas.
3.2.1.1. O que significaria, então, no contexto, manipulação? Acho que o seu sentido deve ser o de sedução, termo que Barros também usa. Ora, a sedução seria uma espécie de manipulação em que temos, de um lado, o sujeito sedutor, manipulando, conscientemente ou não, alguma técnica encantatória não explicitada, e de outro, o sujeito seduzido, afetado pelos encantos do sedutor, sofrendo portanto a influência deste. Podemos pensar, assim, que alguém é seduzido a praticar a benevolência devido ao fato de sua natureza compassiva ter sido afetada (talvez pudéssemos dizer inclusive enfeitiçada), por uma imagem. Ora, se é isso a manipulação, então é preciso notar que ela não vai propriamente contra a vontade do indivíduo manipulado, mas tampouco depende do consentimento deliberado de tal indivíduo.
3.3. Pergunto: é imoral manipular alguém nesse sentido? Não e Barros também teria de responder negativamente ao menos com respeito à compaixão.
3.3.1. Mas qual a diferença com emoções como o medo, a revolta ou a ira? É imoral manipular estes sentimentos, ou seja, agir sobre eles a fim de conseguir determinados resultados? Não é errado manipular a compaixão, mas o medo é. Por quê?
4. Considero inofensiva a tese da natureza passional do ser humano. Sabemos que sentimos compaixão, medo e ira. Presumivelmente, também sabemos que esses podem ser manipulados no sentido em que estabeleci antes. Como seres passionais, somos seres suscetíveis a afecções. É natural que pessoas se emocionem diante de notícias como Tusnamis, terremotos, inundações. Suas emoções são manipuladas nestes casos? Podemos dizer que sim. Notícias sobre o sofrimento de vítimas de catástrofes levam, em geral, as pessoas a praticarem benevolência. Isso significa que elas foram manipuladas para praticarem a benevolência? No sentido 4 e 5 do Houaiss não. Mas podemos dizer que se deixaram seduzir, se deixaram influenciar pelas notícias que manipulavam suas emoções. Assim, as pessoas são responsáveis por se deixarem manipular pela imprensa. A imprensa não é culpada pelo fato de as pessoas afetarem-se de modo a elevarem ao nível máximo sua ira e praticarem atos ilícitos ou imorais. (Não esqueçamos que a ira pode nos levar a praticar atos nobres). Assim como um homem que rompe uma relação de 5 anos com sua namorada que, por causa disso, vem a se suicidar não é responsável pelo suicídio dela, a mídia tampouco deveria ser considerada responsável pelas conseqüências advindas das nossas paixões por ela colocadas em movimento.
Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR
2 comentários:
Aguinaldo
Gostaria de levantar algumas questões sobre seu post. Eis os pontos:
2. “Penso que não devemos de modo algum considerar que donos de órgãos de imprensa, apresentadores de programas populares, jornalistas em geral tenham de exercer suas atividades com motivações nobres.... 2.1 Motivações egoístas são o que geram empregos.”
Puxa! Não corremos o risco de cair num vale-tudo, em que os jornais podem tornar-se tablóides cujo objetivo seria pura audiência, sem qualquer responsabilidade? Algo frívolo, bem ralé mesmo?
Na Constituição e em outras leis vemos a palavra “direito a informação”. Qual o significado que você lhe dá? Ao que parece, isso é então uma bobagem, uma máscara? Não deve haver um limite para essa ideia de que um sujeito (sobretudo que tem dinheiro) pode abrir um jornal com o propósito de esculhambar e confundir apenas para satisfazer seus caprichos pessoais?
3. “Muita literatura também manipula nossas emoções. Livros de Paulo Coelho, a meu ver, também induzem ao baixo nível de reflexão.”
Acho que valeria a pena distinguir essas duas coisas aqui. É verdade, nós podemos ter nossas emoções excitadas pelos romances, pelas novelas, pela crônica policial. Tudo bem.
Porém, quando se trata de reflexão, é diferente. A capacidade de ir além daquilo que estamos vendo e que está nos chocando é algo muito importante, que infelizmente quase não é trabalhado, sobretudo pelo jornalismo televisivo, o tipo de mídia que a maioria das pessoas vê. Não parto do pressuposto de que os canais de TV devem ensinar só “coisas nobre e úteis”, mas também não concordo que eles se prestem a um sensacionalismo cujo resultado é emburrecer, confundir ou toldar qualquer criticidade por parte dos telespectadores. Não podemos cobrar contribuições, mas devemos tolerar qualquer tipo de programação? Acho isso perigoso, sobretudo no país dos “cordiais” (para usar Sérgio Buarque de Holanda) e ignorantes.
4. “as pessoas são responsáveis por se deixarem manipular pela imprensa. A imprensa não é culpada pelo fato de as pessoas afetarem-se de modo a elevarem ao nível máximo sua ira e praticarem atos ilícitos ou imorais... Assim como um homem que rompe uma relação de 5 anos com sua namorada que, por causa disso, vem a se suicidar não é responsável pelo suicídio dela, a mídia tampouco deveria ser considerada responsável pelas conseqüências advindas das nossas paixões por ela colocadas em movimento”.
Bah, esse argumento é matador. Realmente, influenciar não é determinar. Mas a que você atribui a “força suicida” de Werther?
As pessoas são sensíveis, influenciáveis, suscetíveis. Pior: nem sempre estão em condições de refletir acurada e extensivamente sobre o que lhes abate.
Gostaria de sabe se você concorda com aqueles que defendem o fim de toda e qualquer censura, deixando a cago dos pais a tarefa de acompanhar e selecionar o que o filho deve assistir ou ler. Para aqueles, determinados programas exibidos às 22h hoje, poderiam ser exibidos às 19h.
Grato pela oportunidade.
Abs
Caro Edgar.
Obrigado pelo comentário. Nossas visões são diferentes, pois partimos de princípios diferentes. Eu parto do princípio da liberdade, inspirado em Locke, Kant e Nozick. Acho que você assume muitas das premissas filosóficas do cidadão genebrino. Bem, de todo modo, vamos aos pontos que você levantou (interessantíssimos, registre-se).
A possibilidade dos jornais tornarem-se tablóides não pode ser descartada. Não acho que isso implicaria um “vale tudo”. Certamente, ninguém concordaria que a fraude deveria ser legalmente permitida. Não podemos esquecer que a liberdade nem sempre traz as consequências que julgamos as mais belas. Geralmente, não traz.
Sobre direito à informação, tenho dúvidas. Eu tenho o direito de coagir alguém a dar informação de algum fato? Talvez seja mesmo uma bobagem. De qualquer forma, é preciso entender bem qual o direito de coerção eu teria em relação aos que seriam reconhecidos como “devedores” de informação. Em que medida esse direito pode ser compatível com a máxima liberdade possível dos indivíduos? Não sei, mas minha inclinação é de achar que não existe esse tal “direito à informação”.
Acho legítimo que se permita o chamado sensacionalismo. Qualquer tipo de programação deve ser tolerado, a meu ver. Quem não gostar, que troque de canal.
Sim, estamos de acordo que as pessoas são sensíveis, influenciáveis e suscetíveis. E cada indivíduo é responsável pelo uso que faz de sua razão. Kant é útil aqui: a preguiça e a covardia são geralmente as causas da menoridade. E desta, somos culpados. Da menoridade biológica e patológica não.
Concordo com o fim de toda e qualquer censura, claro.
O mundo que nós desejamos como o melhor não nos dá o direito de coerção sobre as pessoas a fim de que elas ajam em vista de nossos sublimes objetivos .
Abraços.
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