16 junho 2009

Rudolph Giuliani

A revista Veja (edição nº 2117) publica uma entrevista com o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani. Na entrevista, ele responde a diversões questões, tais como segurança, suas crenças políticas, Obama, terrorismo e sua luta contra o câncer. Vale a pena ler. Suas respostas são interessantes, inteligentes e sóbrias. Destaco e comento alguns trechos.

[...]
O senhor criou polêmica ao dizer que os moradores de rua não têm o direito de ficar na rua. Isso não vai contra o direito de ir e vir?
[...] Um cidadão pode fazer o que quiser, desde que não machuque nem agrida outro cidadão. Viver na rua não só machuca a própria pessoa como agride a toda a sociedade. Não é certo. Cabe aos governos resgatá-la, tratá-la e abrigá-la.

O fato de machucar a própria pessoa não serve como justificativa para qualquer coerção. Quanto à agressão “a toda a sociedade”, fico intrigado. Essa agressão ocorre como? Uma pessoa dormindo debaixo da ponte agride quem? Uma sociedade erigida com base em princípios libertários certamente não seria muito agradável. Haverá muitas pessoas fazendo o que não gostaríamos que fizessem, mas essa sociedade (uma ideia regulativa lato sensu), somente ela, poderá respeitar a liberdade de todos segundo uma lei universal. E desde que as ruas não estejam totalmente privatizadas, morar nelas parece-me uma ação não agressiva.

[...]

O senhor é considerado um republicano light. Sua postura moderada em relação a questões sociais pode tê-lo prejudicado?
[...] Sou conservador em questões econômicas, militares e políticas, mas penso de forma diferente em relação ao aborto, aos homossexuais e às questões imigratórias. As pessoas têm escolhas que podem divergir das suas – e é preciso respeitá-las. Não sou a favor do casamento gay, pois o casamento é uma instituição que pertence a homens e mulheres, mas defendo os direitos de casais do mesmo sexo que vivem juntos há muitos anos.

Qual oráculo ou sacerdote ouviram as vozes sagradas do além a fim de estabelecerem o que é ou não um casamento?

Também apoio as mulheres que decidem não ter um filho. Sou contra fechar as fronteiras americanas, pois sou descendente de imigrantes. E este país foi construído por eles. É preciso combater a imigração ilegal, que está ligada ao terrorismo, ao tráfico de drogas e piora a qualidade de vida.

Em que pese a pisada na bola sobre os gays, é digno de aplausos seu posicionamento semiliberal (no sentido em que a direita o assume é claro, o que não acontece lá nos EUA). [p.s.: antes um semiliberal que um antiliberal]

[...]

Quando o senhor diz que Barack Obama ainda precisa mostrar a que veio, deve-se entender isso como uma crítica aos primeiros meses de seu governo?
Tento não criticar o presidente. Claro que temos divergências filosóficas, caso contrário não teria sido candidato. A primeira é econômica.[..]. Enfrentei uma enorme crise fiscal em Nova York e reduzi as despesas. Cortei gastos em tudo, menos na força policial, que era minha prioridade. Tudo pode ser sacrificado na hora de um governo fechar as torneiras, menos a segurança.

Perfeito. Tal ideia faria um bem exraordinário ao Brasil. Que pena nem um político assumi-la. Eles preferem ficar rastejando por um votinho aqui e outro ali.

[..]

O senhor concorda com o presidente Obama no que diz respeito à segurança nacional?
Considero as ações no Paquistão e no Afeganistão corretas.[...]. Uma das características mais importantes de um presidente é a maleabilidade. É importante acreditar que se está certo, mas, se se estiver errado, é preciso coragem para mudar, mesmo que isso tenha um custo. Não acredito que se pode negociar com terroristas ou com pessoas que fornecem armas para terroristas. Não adianta ter ilusões sobre isso.

Essa é uma tese que tenho dúvidas. Concordo com ela do ponto de vista moral. Mas do ponto de vista político, uma visão assim, digamos, radicalmente deontológica, pode não ser a mais prudente, embora seja deveras corajosa. Acredito que do ponto de vista da política é preciso ponderar, dentro de alguns limites, as consequências. Sendo assim, se for possível vislumbrar boas chances de obtenção de conseqüências desejáveis negociando-se com terroristas, eu me inclinaria a concordar com tal diálogo. Vou dar um exemplo, muito distante é claro do caso de negociação com terrorista, mas que servirá para mostrar que aquilo que é moralmente correto nem sempre deve ser adotado como linha de atuação política. Admitamos que é moralmente correto que munícipes sejam tratados de modo equitativo. Nesse caso, seriamos a favor de que quem deve impostos tem de pagá-los. Não poderíamos, moralmente, perdoar maus pagadores e cobrarmos judicialmente a dívida de quem, enfrentando problemas econômicos circunstanciais, não recolheu os impostos devidos. Contudo, uma anistia aos maus pagadores se revela muitas vezes desejável politicamente, isto é, algo que traz boas consequências. Se o município insiste em cobranças judiciais com certa parcela de devedores, vamos supor devedores de quantias pequenas, ele corre o risco de gastar com custas processuais e, no fim, nada receber. Perdoando as dívidas, o município economiza gastos com custas processuais e ainda pode acalentar a esperança de ver os até então inadimplentes entrarem para o rol dos adimplentes. Essa é uma prática disseminada, porém, no entender de alguns, significa a legalização do calote. No entanto, há boas razões consequencialistas para tal prática. Deontologicamente é injusta. Sei muito bem que a distância é sideral com respeito ao caso de terroristas. Mas supondo que uma negociação com eles pudesse resultar em mais benefícios que custos, acho que a sapiência política não deveria, nesse caso, ser prejudicada por um apego inflexível aos princípios morais. A política precisa ser separada da moral também nesses casos. É preciso conceder uma certa margem de manobra para o consequencialismo. Imagine casos de seqüestradores. Poder-se-ia pensar que a negociação com eles estimula criminosos a fazerem o mesmo (e não se pode pensar prudentemente que isso seria falso). Mas quando se considera (vamos supor) a alta probabilidade de salvar dezenas (às vezes centenas) de vidas ao custo de uma concessão pontual, não haverá nesse caso justificativa para negociar com o sujeito criminoso?
[...]

Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
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2 comentários:

Iara Fagundes disse...

Professor. estou aqui de novo para dizer que noto um problema. separar a moral da política no exemplo de negociação com terrosistas ou sequestradores nao vale. pode aocntecer sem a intervençaão do Estado. as pessoas deveriam deixaram a moral de lado, entao?

Aguinaldo Pavão disse...

Iara.
Desculpe a demora em responder. Negociar com terroristas ou negociar com sequestradores, por si só, não pode ser dito imoral (teríamos de pensar como algo moralmente permissível; com um limite moral, é claro). É possível a sobrevivência de um consequencialismo mínimo no interior do deontologismo. Talvez o paralelismo que quis traçar entre consequencialismo na política e deontologismo na moral não tenha ficado claro. Também há o fato de que, a rigor, não há uma autentica negociação, mas sim mera barganha quando alguém se depara com seqüestradores. Bem, mas essa resposta ainda não me agrada. Tenho de pensar melhor sobre a tua questão. E não posso prometer que encontrarei brevemente alguma boa resposta.
Abraços.