Belinati (PP) e Hauly (PSDB) disputarão o segundo turno para a prefeitura em Londrina. A tendência das pessoas com quem tenho conversado, e cujas opiniões levo em consideração, é de votar em Hauly sob a alegação de que Belinati não pode ganhar (ou seja, porque ele não merece, porque seria um grande retrocesso político, porque ele é um político desonesto, porque ele é populista, por isso, por aquilo ...).E Hauly merece ganhar a eleição?
Eu não vejo boas razões naqueles que criticam o voto nulo no segundo turno destas eleições municipais em Londrina.
Votar nulo, a meu ver, deve sempre ser uma escolha feita a partir de ponderações circunstanciais. Não julgo razoável a idéia de voto nulo por princípio. Mas também não acho nem um pouco razoável o repúdio por princípio do voto nulo. Quer dizer, tampouco me parece atraente a tese de que sempre se deve escolher o mal menor, pois do contrário estaríamos sendo coniventes com a eleição do mal maior. De fato, toda eleição permite uma possível escala de indesejabilidade dos candidatos. É possível fazer uma lista de defeitos, vamos supor de 15 defeitos, e perceber que o candidato A tem 14 defeitos, o B 12, o C 9. E, assim, deveríamos votar no candidato C.
O problema, evidentemente, está em saber como deve ser composta esta lista. Quais seriam os 15 defeitos listados? Também precisaríamos de gradações dos defeitos em casos de empate (mas isso poderia ser resolvido). Se a tese for de que sempre devo escolher o mal menor numa eleição, o voto nulo, necessariamente, não teria nenhuma procedência. Ora, eu penso que o voto nulo é procedente, pois ele pode significar a atitude de desprezo das supostas diferenças em benefício da tese de que elas não são realmente diferenças geradoras de um relevante desequilíbrio entre os candidatos. É justamente isso que penso de Hauly e Belinati. Há desequilíbrio entre os dois? Certamente. Hauly é um mal menor que Belinati. Já no primeiro turno acreditava que Hauly era um mal menor que todos os demais candidatos. Mas o que há de relevante nesse desequilíbrio? A meu ver, pouca coisa. Trata-se de dois candidatos que, comparados, não apresentam diferenças substantivas.
Se Belinati ganhar não sofreremos imensas dores, do mesmo modo que se Hauly ganhar, não gozaremos de intensos prazeres. Em outras (e menos hedonistas) palavras, os malefícios com Belinati não serão tão consideráveis e os benefícios com Hauly não serão tão expressivos. E notem que eu não me preocupo com coisas inexistentes como, por exemplo, "o bem de Londrina". Interessa-me os malefícios e benefícios à liberdade dos indivíduos. Hauly possui um grande defeito: ele flerta irresponsavelmente com teses hostis à idéia de um autêntico estado laico. Ele é um papa-hóstias e seu conservadorismo religioso é erva daninha na política. Se, para a infelicidade geral da nação, Belinati e Hauly fossem candidatos à presidência da república, provavelmente votaria em Hauly. A razão é que nesse caso os danos de uma provável eleição de Belinati seriam muito mais sensíveis do que ele sendo eleito prefeito.
8 comentários:
Desculpe o post, algo insistente, quando minha opinião já é conhecida, Aguinaldo, mas não resisti à tentação de expressar que penso justamente o contrário quando você diz que, provavelmente, votaria em Hauly para presidente, mas não votará nele para prefeito.
Noto que o defeito marcante que você escolheu para falar de Hauly é seu conservadorismo religioso. Ora, posições ideológicas podem fazer mais danos na esfera federal, onde cabe legislar sobre aborto, casamento entre homossexuais, etc. O prefeito é um administrador e é justamente por isso que, na prefeitura, Belinati pode, sim, nos trazer malefícios dos mais significativos. Agora, note, Hauly, como deputado federal por tantos anos, não ficou conhecido por propor projetos de leis conservadoras do ponto de vista comportamental, mas sim por seus projetos fiscais, que, por sinal, se transformaram em leis como o "simples". É algo a ser ponderado seriamente diante da sua argumentação neste post.
Abraços
Andrea
Andréa.
Eu acho que a modernidade fiscal de Hauly tem mais impacto nacional que municipal e seu conservadorismo ético-religioso é mais forte municipalmente que nacionalmente. Isso me lembra um pouco de Alckmin. Ele também é um papa-hóstias, mas, como candidato à presidência, não levantou bandeiras contra o Estado laico. Hauly provavelmente faria o mesmo. Acho que ele se sente mais à vontade para falar em sentimentos cristãos na esfera política no espaço paroquial de Londrina que num espaço mais amplo como o Brasil todo.
Abraço.
OK, Aguinaldo, certamente, em uma eleição nacional, um político do PSDB pesaria o fato de não poder perder votos na sua base, que é a classe média ilustrada das grandes cidades do sul-sudeste, sobretudo, SP, e, por isso, adotaria um discurso mais moderno. Enquanto isso, Hauly, precisando de penetração fora do centro da cidade de Londrina, que tende mesmo a um certo conservadorismo, apelou aos sentimentos cristãos, talvez mais presente nas classes mais baixas, sem prejuízo em sua base, que é justamente o centro.
Mas meu ponto é que, passadas as eleições, no plano municipal, este discurso é praticamente inócuo, ao passo que a farra populista com dinheiro público e a corrupção de Belinati são prejuízos certos, com a devida comprovação histórica. Daí que eu pense que você ainda esteja devendo um bom argumento pelo voto nulo neste caso específico.
Abraços e boa semana
Andrea
Andréa.
As tuas certezas são as minhas dúvidas. O piedoso Hauly talvez se entusiasme com vereadores do PSDB que são defensores de um Estado quase teocrático, como um que foi eleito (talvez o maior papa-hóstias da câmara municipal). Aqui em Londrina, vereadores lutam para impedir a venda de pílulas do dia seguinte. Acho que o nome do ilustríssimo senhor é Paulo Arildo. Sobre Belinati: não se pode falar em prejuízos certos. Ele, ao que parece, cometeu atos de corrupção. Não se segue que fará o mesmo. Talvez a lição do mandato cassado evite a repetição do mal. Veja, trata-se de probabilidade.
Mas, de todo modo, eu gostaria que você me respondesse o seguinte: qual o impacto da eleição de Hauly ou Belinati em nossas vidas, no nosso dia-a-dia?
Teremos garantia de que, com Hauly, não haverá lei seca como ocorreu em Diadema? Farmácias não serão proibidas de vender pílulas, como Pillen? Que liberdade perderemos com Belinati? Ele vai assaltar os cofres públicos? E os vereadores farão o quê? E os órgãos fiscalizadores? Que compromissos Hauly e Belinati têm com a liberdade? Eu preciso de boas respostas.
Abraço.
Caro Aguinaldo,
Eu não acho que o Paulo Arildo teria apoio partidário para o tipo de projeto que você teme. Como frequentadora eventual do partido, posso garantir que Arildo não expressa os anseios da maioria e, por outro lado, tem seus antípodas ali dentro. O PSDB de Londrina não é um partido de carolas ou ao menos nada além da média da classe média/alta da cidade. Além do mais, Paulo Arildo já foi vereador e seus temores não se realizaram.
Claro, assim como você disse que Belinati não precisa necessariamente fazer em um novo mandato o que fez em mandatos anteriores, o mesmo se aplica ao Paulo Arildo (em quem, fique bem claro, eu nunca votei ou votaria). Só que, se não utilizarmos como critério de nossa avaliação o comportamento externo pregresso de um candidato, francamente, o que teremos de objetivo? É claro que eu não tenho verdades absolutas, mas tampouco penso que a política seja feita delas (se é que algo o é). Nem por isso devemos mergulhar no relativismo e defendermos que cada escolha é tão racional quanto outra qualquer.
Eu não vejo nenhuma mudança externa no comportamento de Belinati que me leve a julgar que as ações futuras não serão consistentes com as passadas. Pelo contrário, eu vejo um candidato dando desculpas esfarrapadas para fugir de debates e sabatinas, eu vejo o mesmo discurso de programa dominical de auditório...
Quanto ao compromisso com a liberdade, não creio que algum dos candidatos a prefeito o tenha em alta conta e nem que algum deles, por outro lado, seja uma séria ameaça à liberdade. Porém, a minha propriedade já é roubada por meio de impostos abusivos com destinação pouco convincente, permitir que, além disso, meus impostos sejam simplesmente embolsados pelos governantes ou usados em um assistencialismo barato, isto eu não vou.
Abraços
Andrea
Prezada Andréa.
Permita-me esclarecer uma coisa. A minha posição é claramente anti-relativista. Eu considero que os dois candidatos não merecem o cargo que pleiteiam. Meu juízo político é que os dois não prestam. Nisso, não há relativismo algum. O voto nulo é realmente mal compreendido em nosso país.
Abraço.
Eu não quis dizer que o voto nulo é necessariamente relativista, mas apenas defender que, na ausência de provas definitivas, ainda há espaço para racionalidade. Ou seja, eu não posso provar que Belinati será tão corrupto e assistencialista quanto foi no passado, mas apenas dizer que, tendo em vista este passado e a permanência do discurso, tenho boas razões para pensar assim.
Na verdade, antes de achar o voto nulo relativista, acho é radical e extremado. Típico, por exemplo, da extrema esquerda, que só aceita a revolução para a instauração da sua idéia do paraíso na terra ou nada. O que eu defendo é o espírito reformista e a escolha, por vezes bastante pragmática, do menor dos males.
Abraços e bom domingo
Andrea
Andréa.
Eu considero o voto nulo libertário, considero-o uma coerente expressão de irresignação diante da importância dada à insípida política municipal. A eleição de B ou H em nada ajudará a causa libertária. Não daremos um passo à frente elegendo H, nem um passo atrás elegendo B. Sobre a escolha do mal menor, já me pronunciei como a entendo. Como você sabe, eu não sou revolucionário e nem esquerdista. Eu acredito no espírito reformista kantiano. E, diferentemente de Rousseau, eu penso que os ingleses são mais livres quando ficam em casa.
Abraço.
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