16 outubro 2008

A culpa é do neoliberalismo? Neoliberalismo?

No Estadão de hoje, Demétrio Magnoli, um senhor não liberal, porém inteligente, escreveu um interessante artigo sobre a crise financeira internacional.

Abaixo alguns trechos do artigo. Depois, um breve comentário meu.


Lehman Brothers, Marx & Sons

Demétrio Magnoli

Quando o Lehman Brothers entrou em bancarrota, provocando a implosão de Wall Street, os filhos órfãos de Karl Marx começaram a disseminar uma narrativa ideológica da crise que é tão desonesta quanto reacionária. Essencialmente, eles dizem que o neoliberalismo faliu e que a causa da catástrofe é a desregulamentação do mercado financeiro.
O neoliberalismo não faliu porque não existe. A fraude conceitual ampara-se no ocultamento dos dados empíricos. Nos anos 20, tempos do liberalismo, os gastos públicos sociais nos EUA (pensões, educação, saúde e welfare) não alcançavam 5% do PIB. Depois, com o New Deal e os "30 anos gloriosos" do pós-guerra, criou-se o Estado de Bem-Estar e os gastos sociais cresceram até perto da linha de 20% do PIB. Segundo o teorema histórico que emoldura a noção de neoliberalismo, o Estado de Bem-Estar ruiu sob os golpes hayekianos de Ronald Reagan. Mas - surpresa! - os números contam outra história. A "era Reagan" não provocou contração dos gastos sociais, conseguindo apenas estabilizá-los temporariamente. Hoje, eles ultrapassam os 20% do PIB [...].
O economista Steven Horwitz escreveu uma carta aberta a seus "amigos da esquerda" identificando as diversas regulamentações políticas que incentivaram o tsunami especulativo no mercado imobiliário [..]. Ele prova factualmente que o mercado no qual se armou a tragédia nada tem de liberal, articulando-se sobre uma teia de regras, emanadas do Executivo e do Congresso, que pavimentaram o caminho rumo à concessão de empréstimos cada vez mais arriscados. Fannie Mae e Freddie Mac são corporações hipotecárias tecnicamente privadas, mas patrocinadas pelo poder público, que operavam sob garantia de resgate estatal em caso de falência.
[...]
Neoliberalismo é um signo que adquiriu diferentes significados desde o seu uso inicial, no fim do século 19. A partir das "revoluções" de Reagan e Margaret Thatcher, contudo, sua utilização se disseminou e seu significado deslizou rumo a um colapso. Depois da queda do Muro de Berlim, neoliberalismo sofreu um processo de redução fetichista, convertendo-se em senha de identificação coletiva de uma confraria dos derrotados [...]

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP

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Acho uma bobagem ele ficar falando, lá no início, que é desonesto e reacionário. Mas o homem deve gostar dessa palavra "reacionário".

Bons tempos aqueles dos 5%. Mas os 20% (ou um pouco mais) ainda estão bem atrás de nós. Demétrio Magnoli é um senhor que, presumo, não defende a primazia da liberdade em relação à igualdade (acho que defende justamante o contrário), mas ele é um senhor lúcido e afirma o que há muito tempo liberais e libertários afirmam: Neoliberalismo é palavra de uso corrente em pessoas sem bibliografia. Lembro-me que, certa vez, discutia com um professor da UEL (e nem vou dizer qual era o curso) e ele falava: ah, o neoliberalismo de Nozick defende o fim o Estado. Vejam só: Nozick é liberal (libertário), não neoliberal, e Nozick não defende o fim do Estado. Eu, mal educado, sem hesitar um segundo perguntei: Onde você leu isso? Ele disse: mas eu não preciso de bibligrafia para discutir o neoliberalismo. Que maravilha, hein! O camarada se refere a um determinado autor e a um conceito específico e diz não precisar de bibliografia. Palmas para ele e sua turma! Viva, viva a vida sem bibliografia! (e não esqueçamos a "bibliografia sem bibliografia", como o livro cuja capa está na foto acima. Pessoas sem bibliografia produzem bibliografias sem bibliografia)

Bem, o que me chamou atenção no artigo é que ele, mesmo sendo escrito por um professor de índole igualitarista, deixa claro que foi o Estado, a ação estatal que estimulou o surgiumento dessa crise. Não foi o livre mercado apregoado pelos liberais

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Professor Aguinaldo.
Meu nome é Francisco, e há algum tempo venho lendo o seu blog. Sou formado em Direito e estou cursando a pós graduação em Filosofia Política e Jurídica, e esse ano comecei a estudar o pensamento liberal. Já li Friedman "Capitalismo e Liberdade" e começando a ler Hayek "O caminho da Servidão" e Von Mises "Liberalismo".

Bom, quanto ao artigo da Folha de São Paulo, achei interessante e lembrei de um que o Professor Boaventura de Souza Santos também escreveu na Folha de São Paulo, afirmando que o neoliberalismo tinha levantado uma verdadeira cruzada contra a intervenção do Estado na economia, sendo que, com essa crise, resgatava-se a velha receita de cunho keynesiano.

Bom, achei estranho um professor com o conhecimento do professor Boaventura afirmar isso, para não dizer que tenha sido má-fé.

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Francisco.
Obrigado pela visita e comentário. Realmente, a cegueira ideológica pode ser tanto involuntária como voluntária.
Abraço.