
No Filebo, Platão defende a tese de que os prazeres reais (e puros) são aqueles prazeres “cuja privação não é sensível nem dolorosa, mas de fruição agradável e estreme de qualquer sofrimento”. Pode-se dizer que Platão ainda se mantém ligado à idéia de que mesmo os prazeres puros assemelham-se aos processos de repleção. Apenas a falta não seria sentida, nem dolorosa. Mas haveria uma falta. Aristóteles critica essa tese. Uma ausência indolor e insensível é ainda uma ausência. O modelo da carência-satisfação permanece de pé. Com base em Aristóteles, poder-se-ia chamar isso de “modelo nutritivo”. Na verdade, a inspiração continua baseada em processos fisiológicos. Quer dizer, a definição tem uma base puramente fisiológica de falta e repleção. Segundo Aristóteles, não se trata de uma falta não sentida, pois o prazer não é a satisfação de nenhuma falta. O prazer resulta da atividade (enérgeia) de uma determinada faculdade (órgãos sensoriais ou o pensamento) que pode funcionar sem entraves. No dizer de Lebrun
o prazer não é o contrário da abstinência, mas do aborrecimento, da carranca; não é o que nos arranca soluços e espasmos, mas, mais simplesmente, o que vem do feliz exercício de nossas forças ou de nosso talento – e que, ao mesmo tempo, aumenta a qualidade ou a quantidade de nossa produtividade (A neutralização do prazer)
De acordo com Aristóteles “não é certo dizer que o prazer seja um processo perceptível, mas antes deveríamos chamá-lo atividade do estado natural e, em vez de ‘perceptível’, ‘desimpedida’”. Deve-se notar que com isso Aristóteles não quer apenas refutar Speusipo, mas todos aqueles que consideram o prazer como a satisfação de uma carência. Ora, Platão defende isso. Então Aristóteles está a criticar sim a tese de Platão. Com efeito, Platão entende que “há dor sempre que a vida se corrompe, e prazer quando se restabelece” (Filebo). Segundo Aristóteles, a causa desta visão equivocada a respeito do prazer deve-se à focalização exclusiva sobre os prazeres associados com a fome e a sede. Na verdade, uma coisa é o prazer acompanhar o processo de repleção, outra é ele ser justamente esse processo de repleção.
2 comentários:
Professor, poderia me dizer se são da ètica a nicômaco as citações de Aristóteles. acredito que sim, mas gostaria de confirmação sua.
abraço.
Sim, Ulisses. São da EN.
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