
"Acabavam de soar as 9 e três quartos no relógio do castelo e ele a nada se atrevera ainda. Indignado com a própria covardia, Julien pensou: 'Precisamente no momento em que o relógio bater 10 horas, hei de executar o que durante todo o dia me comprometi a fazer, ou então subo ao quarto e rebento os miolos.
Após um último momento de espera e de ansiedade, durante o qual o excesso de emoção punha Julien quase fora de si, soaram as 10 horas no relógio que estava acima de sua cabeça. Cada pancada daquele sino fatal retinia-lhe no peito, e causava-lhe como que uma agitação física.
Finalmente, quando a última batida das 10 horas ainda vibrava, ele estendeu a mão e tomou a da Sra. de Rênal [...]
Inundou-se lhe a alma de ventura, não porque ele amasse a Sra. de Rênal, mas porque cessara um suplício horrível” (Stendhal. O Vermelho e o Negro)
Julien ainda não amava a Sra. de Rênal? Então um dos mais, se não o mais, belo gesto de sua existência foi motivado apenas pelo cumprimento do imperativo hipotético: “se quero mostrar meu valor e adquirir vantagens no terreno em que os eus se chocam, devo pegar a mão desta linda mulher”. Não acredito nisso. É bem verdade que Stendhal está dizendo apenas que o motivo não foi o amor, não está negando que Julien amava. Mas eu penso que Julien apertou a mão também por amor. Sua motivação pode perfeitamente ter sido híbrida nesse caso. Quem ama também quer aplacar seus suplícios horríveis.
2 comentários:
Quando vejo um post sobre "O vermelho e o negro" me dá vontade de novamente ler este magnífico livro. Lembro-me de quando estava ainda na especialização e você mo sugeriu. Em relação às outras indicações, esta foi, de longe, a de que mais gostei.
E uma das coisas que não me sai da cabeça é o conturbado romance entre Julien e Mathilde. Puxa! O que é aquilo?
O rapaz se acha nas mais confusa imprevisibilidade, ora experimentando arroubos, ora perdido em suplícios. Em suas elucubrações, sente-se às vezes o pior dos mortais, rastejando para ganhar quiçá um mísero olhar da amante. Revoltado, ele vinga-se, chantageia, joga com os sentimentos dela. Ela, somente depois de experimentar o pior desprezo, revela sua paixão.
No outro dia, tudo volta à estaca zero de novo... chantagem, desprezo... As delícias do encontro anterior se esvaem e com elas a esperança de uma mínima estabilidade.
Como isso é possível? Amar e odiar, revelar e esconder... quem consegue suportar uma tensão como essas durante muito tempo? Julien entende e aceita o jogo. Ele sabe que não pode ser sincero nem revelar seu íntimo. Pior: isso seria o seu ridículo.
Disfarces, desprezo, orgulho... ao meu ver, trata-se do conceito de amour-propre de Rousseau em sua expressão mais profunda e ardente.
Não teria Stendhal bebido na fonte do Discurso sobre a desigualdade?
Abraços.
Edgar.
Este comentário é simplesmente belíssimo.
Não sei se Stendhal leu o Segundo do Discurso, mas Julien leu as Confissões.
Agora, eu penso que há menos jogo e dissimulação em Julien do que a percepção aguda da opopsição entre ele e o mundo, oposição está que é, num certo sentido, suprimida pelo seu sentimento verdadeiro de amor pela Sra. de Rênal.
Valeu.
Grande abraço.
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