
De acordo com o senhor Friedrich Nietzsche, quando escrevemos
não queremos apenas ser compreendidos [...], mas igualmente não ser compreendidos. De forma alguma constitui objeção a um livro o fato de alguma pessoa achá-lo incompreensível: talvez isso estivesse justamente na intenção do autor – ele não queria ser compreendido por “uma pessoa”. Todo espírito e gosto mais nobre, quando deseja comunicar-se, escolhe também os seus ouvintes; ao escolhê-los traça de igual modo a sua barreira contra “os outros (A Gaia Ciência. Af. 381).
Bah! Mas que maravilha, hein! Eu não consigo imaginar alguém que não seja um verdadeiro sábio como autor de palavras tão profundas como estas.
Vamos assumir algo bem simples. Aceitemos que filosofar implica argumentar. Se adotarmos essa visão estreita, dogmática, judaico-cristã, racionalista, intelectualista, contra a vida, e blá, blá, blá o que o senhor bigode pode nos ensinar (filosoficamente falando)?
Vamos supor que alguém afirme a um nitzscheano que não procede, por exemplo,a alegação de Nietzsche de que a reflexão moral de Kant é mera sofisticação filosófica dos preconceitos cristãos. Por acaso o defensor de Nietzsche aceitaria, sem mais, essa crítica? É de se esperar naturalmente que ele não aceite. É de se esperar também que ele solicite ao crítico de Nietzsche a apresentação de argumentos a fim de demonstrar a validade de sua posição. Ora, o recurso à argumentação parece ser algo inevitável quando se trata de avaliar asserções. Elas não podem se furtar a problematizações desenvolvidas racionalmente. Mas se isso é exigido do crítico de Nietzsche, por que não exigir o mesmo de Nietzsche? Nietzsche várias vezes despreza a argumentação. E se o nietzscheano não requeresse argumentos em apoio à crítica empreendida pelo, digamos, simpatizante do kantismo? Simplesmente não haveria diálogo. Nietzsche deveria ser considerado um deus cujas verdades reveladas escapam a qualquer questionamento. Ou alguma espécie de autoridade que representasse o substituto da razão. Mas qual poderia ser essa autoridade? A da tradição, a do sangue aristocrático? Ou tão-somente um sujeito que afirma suas crenças como outros, não tendo a dizer nada cujo valor possa ser medido pela razão? O ponto é que, se for assim, não se trataria mais de filosofia, pelo menos não da tentativa surgida com os gregos de entender o mundo, conferindo sentido ao que pode ser aceito pela razão.
13 comentários:
Olá Aguinaldo
aqui é o tiago tondinelli de cornélio que terminou na pucrs o doutorado em filo. medieval. Tudo bem?
Fiz o concurso para filosofia política na unioeste...fiquei em terceiro lugar dentre 17 candidatos..os outros tinham um currículo com mais publicações que o meu e um deles é especialista em Hobbes, autor que caiu na didática e que eu não conheço muito. Não consegui passar e continuo apenas prof. temporário por aqui...Li seu texto, achei boa a sua crítica e concordo..quando Nietzsche defende a antítese Apolo X Dionisio ele está preso evidentemente no princípio da contradição que é uma das bases fundamentais da filosofia ocidental que ele tanto critica...um abraço
espero que consiga entrar em alguma faculdade ou universidade melhor para poder estudar e discutiro com vocês aí da uel
abração
tiago
Olá Tiago. Que bom tê-lo por aqui de novo. Sempre que puder, deixe seus comentários. São sempre interessantes. Desta vez, você foi parcimonioso.
Sobre os concursos. Antes, parabéns pelo doutorado. Agora as portas se abrem mais. Mas foi bem em Toledo, considerando o número de inscritos. Torço por você.
Abraço.
Ola professor,
Não deveria estar me metendo nesse papo contra Nietzsche tendo em vista que não sou um especialista no assunto, apenas um simpatizante, e sei que vou levar muita “paulada”, mas vamos lá. Não se trata de uma apologia apenas um ponto de vista.
Penso que sua interpretação da citação da Gaia Ciência, seja um tanto literal de mais, como o texto mesmo sugere, para entendermos alguma coisa é preciso muitas vezes sairmos de nós mesmo, é necessário deixar um pouco nossas convicções, nossas dogmas, nossas “crenças” e mergulhar em outras águas, talvez águas mais profundas. Para entender Nietzsche é preciso um pouco disso, um pouco de poesia, de critica e de visão diferenciada da realidade. Penso que é isso que ele pretende com esse aforismo, dizer aos críticos, que se eles não entendem suas idéias, beleza, talvez não seja mesmo para eles entenderem, para “uma pessoa” entender, escolher os ouvintes talvez seja uma forma interessante de se comunicar, todo pensamento cria barreiras contra “os outros”, não vejo problema com isso, o problema está em não querer transpor as barreiras, fica parado, grudado, estancado em nossa mesmice...
Pessoalmente procuro não ter uma visão muito restrita das coisas, (embora confesso que o dogmatismo me persegue) procuro ver de outra forma, “ler favoravelmente” as situações, mas confesso também que isso é uma questão de gosto, tem filósofos que simplesmente não gosto, não consigo ler e nem entender, mas pelo menos tento, ou sou obrigado a tentar.
Bom é isso, um abraço
Vagner.
Muito boa a tua posição de que os críticos de Nietzsche não o entendem. Só me responda uma coisa: como é possível criticar Nietzsche? Dê-me um exemplo de uma possível crítica aos argumentos de Nietzsche. Se você não conseguir me responder, eu tenderei a pensar que as águas profundas são demasiadamente profundas.
Abraço.
3:47 PM
Eu ia escrever um comentário, mas resolvi apenas deixar o "chinesinho de Königsberg" falar por mim:
"Se, porém, alguém fala e decide como um gênio até em assuntos da mais cuidadosa investigação da razão, ele é completamente ridículo; não se sabe direito se se deve rir mais do impostor que espalha tanta fumaça em torno de si, em que não se pode ajuizar nada claramente mas imaginar quanto se queira, ou se se deve rir mais do público que candidamente imagina que sua incapacidade de reconhecer e captar claramente a obra-prima da perspiciência provenha de que verdades novas sejam-lhe lançadas em blocos, contra o que o detalhe (através de explicações precisas e exame sistemático dos princípios) lhe pareça ser somente obra de ignorante" (CFJ, § 47, 187). No meu exemplar, há vários anos, há um simples "Nietzsche" anotado ao lado desta passagem...
Abraços
Andrea
Puxa! Essa camiseta com os dizeres "Hello Nietzsche" foi phoda!
Nem é preciso ler o post...
Abs
Rodrigo Rocha.
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""Isso não me agrada." - Porquê? - "Não estou a altura disso." Algum homem já respondeu assim?"
encerrei meu comentário com esta citação do Fritz, como forma de gratidão pelas citações dele com as quais o snehor me presenteou em suas postagens.
CINEHOME, por favor identifique-se.
Caro Aguinaldo,
acho realmente que você foi duro demais com Nietzsche nessa postagem. Do começo ao fim da obra dele há muita argumentação filosófica, muita vontade de ser compreendido. Não creio nessa imagem de Nietzsche auto-projetando-se como todo-poderoso substituto da Razão. Há até, como você sabe, humildade suficiente para revisar, retificar ou mudar a direção dos próprios pensamentos.
É claro que há o viés aristocrático, mas não creio que isso possa ser hipostasiado para o caráter dos textos nietzscheanos como um todo.
Abraço!
Ygor.
Olá Aguinaldo, boa tarde!
Não pude deixar de expor minha observação quanto à sua crítica...
Percebo que, em suma, Nietzsche não "tentou" e muito menos "procurou" ser o mais sábio e irrefutável homem da face da terra (ou mundo das idéias... enfim...); ele simplesmente esboçou algo interessante para TODOS OS AUTORES DE QUALQUER TEXTO, inclusive o que tu escreves... vejamos:
"TALVEZ isto estivesse justamente na intenção do autor" sugere, à minha percepção, a probabilidade de o autor de um texto (e por que não idéa falada) qualquer querer direcionar suas palavras a "pessoas específicas", buscando um desafio-didático no sentido de o "interpretador" realmente buscar, trilhar um caminho rumo à compreensão que pretende-se. Percebo com isso que Nietzsche não diz que sua palavra é final; ele sempre esteve preocupado em atingir aqueles que realmente filosofassem, ou seja, aqueles que pudessem querer acima de tudo conversar com textos e abstrair tudo dele, até chegar ao merecido prêmio do entendimento do que foi REALMENTE intensionado com as palavras.
Me perdoe, mas não existe possibilidade de pensar no texto acima como "atestado de certeza absoluta", visto que, mesmo compreendendo a intenção do autor, pode ser que achamos que esteja, certo, errado ou louco!
Assim, resumindo (para aqueles a qual tenha eu parecido "rodeador demais): um autor pode realmente direcionar, por exemplo, seu texto para aqueles que realmente "mereçam" chegar ao entendimento (aqui vejo essa figura nos filósofos como eu e tu), excluindo os famosos consumidores de "explicações/texto fastfood". Isso, portanto, não quer dizer que o real entendimento seja algo absolutamente verídico e irrefutável... sendo "asneira", não podemos dizer que o que tentou-se passar era "campos elíseos"...
NAO A CRITICA PERFEITA O SUFICIENTE QUE REVELE A VEDADEIRA NATUREZA DO ATO CRITICADO.abç Luciano Brioli
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