24 setembro 2006

Kant, o papa e Maomé

O papa Bento 16 proferiu há poucos dias atrás uma palestra na Universidade alemã de Regensburg, intitulada “Fé, razão e universidade: memórias e reflexões”. Nesta palestra ele citou uma fala do imperador bizantino Manoel 2º Paleolugus em que ele diz ao seu interlocutor: “Mostre-me o que Maomé trouxe que era novo, e lá você encontrará apenas coisas más e desumanas, como o seu comando de espalhar pela espada a fé que ele pregava”. O papa pretendia com a citação ilustrar a questão, para ele não facilmente solúvel, sobre se não agir de acordo com a razão é contra a natureza de Deus.
Eu já me pronuncie nesse espaço (“Nem Habermas, nem Ratzinger”. Folha de Londrina de 27 de abril de 2005) a respeito do tema da relação entre fé e razão. Não concordo com a posição do papa sobre o tema. Contudo, defendo o direito dele não apenas de fazer citações que achar conveniente em suas palestras, mas também o direito de criticar qualquer religião, o que, segundo declarações posteriores, não era sua intenção. Sendo assim, não percebo por que ele deveria pedir desculpas.
O iluminista Kant afirmou: “A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que se submeter. A religião, pela sua santidade e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame”.
Se o que Maomé fez e pregou não pode ser criticado, então sua doutrina não merece respeito. Mas quer queriam ou não os mulçumanos, as idéias religiosas de Maomé são sim objeto de exame crítico. O respeito ao islamismo não pode implicar um venerável e insincero silêncio de quem dele é discordante. Se os mulçumanos, como disse Mahmoud Hamsdi Zaqzouq, Ministro de Assuntos Religiosos do Egito, estão com seus corações profundamente feridos com o discurso do papa, que saibam suportar essa dor. O planeta em que vivemos felizmente não é uma teocracia islâmica mundial.
Se alguém dirige críticas ao islamismo, cabe aos mulçumanos argumentarem contra. Isso é diálogo. É intolerável que, devido às palavras do papa, igrejas católicas estejam sendo atacadas em território palestino. É inaceitável que concepções divergentes sirvam de apoio para que o ministério da justiça da Turquia possa vir a prender o papa caso ela visite o país. Que exemplo os mulçumanos estão dando? Certamente não estão contradizendo as palavras que o papa citou.
Enfim, repito, o papa não tem por que pedir desculpas. Do mesmo modo um defensor do Islã não teria por que pedir desculpas se criticasse a doutrina cristã. Mas se o defensor do Islã quer impor as idéias do Alcorão com fuzis e bombas, então ele deve não apenas pedir desculpas, mas sim, em nome da razão e da paz, ser banido da convivência entre os homens.

(*)Este artigo foi publicado na Folha de Londrina.

7 comentários:

carina paccola disse...

Aguinaldo, havia lido seu artigo na Folha hoje e gostei bastante. Suas idéias foram expostas com muita clareza, sem fazer defesa de uma ou outra religião, mas da livre expressão das idéias, tema que você tanto preza. Domingo é um ótimo dia para publicar no jornal porque as pessoas têm mais tempo para ler e pensar sobre o que lêem. Parabéns. Um abraço.

Aguinaldo Pavão disse...
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Aguinaldo Pavão disse...

Carina.
Obrigado pelo comentário e elogio. É uma pena que o "espaço aberto" da FL seja tão pequeno. O argumento está colocado de modo bastante conciso. Mas a idéia básica é sempre a mesma, como você diagnosticou. A liberdade de dizer o que se pensa é um princípio e, como tal, vale também para os indivíduos que acreditam em deuses e santos. As pessoas que acreditam em coisas fantásticas, como ressurreição, santíssima trindade e demais ficções, têm todo o direito de defender suas crenças e criticar as dos outros. Eu penso que cristianismo é superior ao islamismo. Como não sou um relativista, não preciso fazer o elogio das diferentes visões sobre Deus das grandes religiões monoteístas. Acho que o islamismo tem uma capacidade muito fraca de se autocorrigir, capacidade esta que me parece poder ser encontrada facilmente no cristianismo. Ademais, essa história de alguém exigir desculpas porque seu coraçãozinho está machucado com as palavras ditas por outro contra sua religião é incompatível com uma visão laica do mundo (o que, presumo, poucos seguidores de Maomé acalentam), e o laicismo é outro princípio (é verdade que derivado) que deve ser defendido pelos autênticos liberais. Eu não pediria desculpas por afirmar, como já fiz (num certo sentido), em meus artigos sobre tsunami e a bondade divina, que determinada religião possui princípios equivocados. A propósito, quando escrevei sobre o tsunami, questionando os atributos divinos, padres e pastores escreveram contra mim, mas não reivindicaram que eu pedisse desculpas aos cristãos. É verdade que alguns cristãos, pelo que me lembro, sugeriram algo próximo a uma retratação, embora tenham insistido mais na minha condenação ao inferno.
Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Vagner, obrigado pelas palavras generosas sobre o artigo.
Realmente, o islamismo precisa aprender muitas coisas, especialmente aprender a conviver com as diferenças.
Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

COMENTÁRIO DE NICOLAS PIOCOPPI

Olá Aguinaldo. Li seu comentário no jornal mesmo. Achei muito bom o que disse. Penso que o Papa poderia ter feito uma réplica com conteúdo semelhante - em clareza também - com o que você disse - porém, talvez pudesse ser um suicídio certo rs. Mas, o Papa, convenhamos, não é o melhor defensor da liberdade que se pode encontrar. Mas essa discussão segue. hoje foi feita uma reunião no Vaticano com os "líderes" islâmicos. Ao que me consta o Papa discursou em francês. Apenas discursou. Parece-me, segundo a notícia, que não houve debate - o que foi motivo para queixa de alguns dos líderes presentes. Você chegou a ver ?..

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Nicolas. Obrigado pelo comentário. Esse
Blog é chato mesmo, pois já outras pessoas reclamaram que não puderam deixar comentário. Tem alguns truques que eu não entendo.
O papa não pediu desculpas no encontro, tanto melhor. É bom que os mulçumanos se frustrem nessa expectativa de retratação.

Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Obrigado pelo comentário.
Não foi uma leviandade do Papa, pois o que o imperador disse está muito proximo da verdade. Por gentileza, voce poderia dizer teu nome?