
Se concordarmos com Bobbio, a esquerda se caracteriza por conceder prioridade à igualdade em vez da liberdade. A direita, contrariamente, se diferencia por conferir primazia à liberdade em vez da igualdade. Acho que essa distinção pode ser assumida. Sendo assim, me considero um homem de direita. A liberdade é um princípio individualista que já traz consigo a idéia de igualdade à medida que contém em si a noção de limite de seu próprio exercício, pois só assim pode ser assegurada a universalidade que prescreve. Num país como o nosso, por coerência, não se pode ser de direita e conservador. Defender a liberdade é defender, entre outras coisas, a legalização das drogas, da prostituição, dos bingos, do aborto, do casamento entre homossexuais. Pessoas como Jorge Bornhausen defendem isso? Intelectuais como Olavo de Carvalho defendem isso? Não. Eles são típicos representantes de uma direita conservadora, cristã, diria, retrógrada. Fico pasmo em perceber algumas pessoas inteligentes darem algum crédito a um escriba tão autoritário e inconsistente como Olavo de Carvalho. Como pode alguém coerentemente defender a liberdade e ao mesmo tempo querer que o código moral cristão seja adotado pela legalidade positiva? Coerentemente ninguém pode fazer isso, mas com ilusionismos verbais muitos não só podem como o fazem recebendo aplausos.
4 comentários:
Parabéns pelo blog, Aguinaldo, muito interessante. Estou de pleno acordo com seu diagnóstico da direita no Brasil. Penso não ser ousadia nenhuma dizer que, no Brasil, não há um único partido liberal. Gostam de dizer os que se autoproclamam "esquerdistas" que o Brasil sempre foi governado pela direita (ouvia-se muito isso especialmente na época em que o PT era oposição e "de esquerda"). Particularmente, vejo que, por estas bandas, o que se chama de "partido de direita" nada mais é do que um agrupamento por conveniência de gente interessada em usar a política unicamente para proveito próprio (de modo que o PT, hoje em dia ao menos, é "de direita", é claro). Mas desde quando uma doutrina política liberal permite que o Estado interfira no jogo econômico a favor de certa parcela da população? Da mesma forma que o liberalismo, a não ser como recurso pragmático, não pode conceber algo como a "renda mínima", também não pode conceber que o Estado atue diretamene no enriquecimento dos financiadores de campanha promovendo o que nada mais do que o maior programa de transferência de renda do mundo, aquele que transfere renda do setor produtivo para o financeiro por meio da maior taxa de juros do mundo. Aliado a este programa para o andar de cima, cria-se o "bolsa esmola" para o andar de baixo. E isto é neoliberalismo? "Neocafajestismo" me pareceria um neologismo bem mais filosoficamente apropriado.
Abraço!
Obrigado pelo comentário, "Niemand". Falar que o PT é de direita, só entre "aspas" mesmo. Acho que é um partido de esquerda, sim. Sua concepção de justiça dá primazia à igualdade e não à liberdade. Penso que o conceito de renda mínima, ou de imposto de renda negativo, pode ser defendido contingentemente por um liberal. Num plano meramente teórico, temos de reconhecer uma certa violação da primazia da liberdade nesse conceito. É sempre preferível a caridade privada do que a caridade pública. Contudo, os seres humanos não conseguem sobreviver abaixo de um nível mínimo de renda. Milton Friedman defende isso (veja Capitalismo e Liberdade).
Olá Aguinaldo,
Já assisti algumas de suas aulas sobre Kant na UEL e sempre dou uma olhada aqui no blog para ler seus comentários, e
é com satisfação que vejo von Mises aparecendo por aqui, mesmo que seja como nome na capa do livro.
Concordo como você quando diz que ninguém pode coerentemente defender a liberdade e ao mesmo tempo defender que um código moral seja adotado pela legalidade positiva, que compreendi aqui como uma interferência religiosa no sistema legal, contrariando o princípio de laicidade do Estado. Só discordo quando atribui essa posição ao filósofo Olavo de Carvalho, de quem também tive o prazer de assistir várias aulas, e quem, aliás, me apresentou a obra de von Mises.
Uma leitura menos apressada do autor seria suficiente para desfazer esse equívoco que me parece bem comum: compará-lo a um Cruzado ou um defensor de um Estado cristão.
Quem leu seu Jardim das Aflições conhece bem a crítica que ele faz ao Estado e a qualquer pretensão de torná-lo Estado Religioso ou moral, ou à interferência da moral religiosa no sistema legal. A Religião Civil, que ao seu ver é corporificada no culto ao Estado, é a maior inimiga das religiões tradicionais - Olavo não é apenas um defensor do cristianismo, como julgam alguns, mas de todas as religiões tradicionais - e portanto um Estado cristão acabaria negando (como de fato aconteceu) a essência da religiosidade, transformando o cristianismo num mero culto a Cezar e fazendo-o cair nas heresias gnósticas, ou seja, procurar a salvação na imanência do mundo.
Olavo nem católico é, tendendo mais a um cristianismo sem Igreja, o que é bem coerente - já que estamos falando de coerência - com o núcleo de sua filosofia, a autoridade da consciência individual, tanto intelectual quanto moral, frente ao pensamento coletivista.
Talvez fique mais claro nas próprias palavras do Olavo:
"Em moral, sou anarquista. Acredito que há princípios morais universais, permanentes, que a inteligência discerne por baixo da variação acidental das normas e costumes, e acredito, enfim, que há o certo e o errado. Mas, por isso mesmo, impor o certo é errado, a não ser em caso de vida ou morte. O sujeito que faz o certo só por obediência e sem compreendê-lo acaba por transformá-lo no errado. "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom", recomendava S. Paulo Apóstolo, meu amado guru. É uma questão de viver e aprender. Mas como podemos aprender, se um tirano paternalista nos proíbe de errar? Por isto deve haver a mais ampla liberdade de escolha e de conduta, e a autoridade religiosa deve se limitar a ensinar o certo, com toda a paciência, sem tentar expulsar o pecado do mundo à força. E se nem os religiosos, que por sua dedicação à vida interior têm autoridade para falar dessas coisas, devem impor regras morais à força, muito menos deve fazê-lo o Estado, que afinal não passa de uma gerência administrativa, a coisa mais mundana e prosaica que existe. As leis devem fundar-se apenas em considerações práticas de ordem, segurança e interesse coletivo, muito corriqueiras, e jamais em motivos pretensamente elevados de ética, que terminam por fazer da burocracia estatal um novo clero, e do Código Penal um novo Decálogo. A coisa mais nojenta que existe é a metafísica estatal."
No mais, em janeiro desse ano, o Bornhausen deu uma entrevista à Veja, na qual rebolou para dizer que o PFL não era nem uma partido de direita, nem liberal (óh, novidade), e de quebra ainda defendeu a ação estatal como meio de promover a... igualdade. Se a classificação do Bobbio for aceitável, o Bornhausen é de esquerda, coisa que eu até concordo, mas gente como Enéias ou Sarney, por exemplo, nem existem politicamente.
É isso aí.
Um abraço, professor.
Silvio Grimaldo
Prezado Sílvio Grimaldo.
Obrigado pelo comentário.
Estou postando um texto ("Olavo de Carvalho não é um liberal") sobre essa discussão que você levanta.
Abraço.
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