Se o Seu Quintino tentar compreender as motivações dos vândalos e as causas menos próximas que podem ajudar a entender o que aconteceu em Brasília no dia 8 de janeiro, ele estaria aliviando a barra dos golpistas? Sim, responde o Zenóbio.
Zenóbio é um carinha legal, ok, ok, mas ele não consegue olhar para nada sem suas potentes e sutis lentes morais. Para ele, não apenas uma barata age criminosamente quando o assusta, retirando-o por instantes de suas profundas reflexões filosóficas, mas até as pedras agem imoralmente quando ao rolarem atingem a cabeça de alguém. Por certo, isso torna o Zenóbio um sujeito muito interessante. Seu mundo é um preto e branco absolutos. Nunca seus penetrantes olhos distinguem algo cinza (o que levou o Dr. Aramis a reconhecer nele talentos raros como juiz moral cósmico).
Eu digo sinceramente que gosto da companhia de Zenóbio. Em termos morais, flertar com relativizações é algo perigoso. Como vocês sabem, eu sempre procuro me colocar no lugar do outro (e faço isso muito mais depois de meu reencontro com Montaigne num congresso municipal de filosofia, um congresso inesquecível ocorrido há séculos, que contou com a presença de meus ancestrais Tupinambás). Por tentar me colocar no lugar do outro, reconheço como legítimo o ponto de Zenóbio.
O diabo é que a gente curte olhar para vários lados. Também rola umas curiosidadezinhas moralmente neutras, do tipo: se tudo que ocorre tem uma causa, se toda causa é também efeito de outra causa, então blábláblá (sacaram?). Tento explicar (para Zenóbio não ficar bravo, ele é meio nervosinho), que isso é apenas uma perspectiva paralela ao moralismo, que, em geral, é mui encantador e correto. Insisto com ele, afirmando que a perspectiva oferecida por uma explicação causal não concorre com sua magnifica compreensão moral das coisas. Digo, para consolá-lo, que Kant também curtia um paralelismo, um dualismo e tal. Para o nanico de Königsberg, tentar entender e oferecer explicações fiscalistas a um evento não é interdição aos julgamentos morais.
Com isso, ouvindo o nome de Kant, Zenóbio diz: “puxa, mas por que você não falou logo que Kant também curtia dualismos? Se ele curtia, então agora serei um novo homem, também eu amarei os dualismos. Ah... como me faz bem ouvir Kant, você nem imagina... Só não precisa dizer nada pro Quintino, um babaca impertinente”. E eu: “mas que barbaridade ... meu velho Zenóbio, eu pensei que você nunca tivesse lido Kant”. Ele: “e não, professor, eu nunca o li, mas é que o nome dele, sabe, o som da palavra Kant, puxa, você não faz ideia de quão emocionando eu fico quando ouço ‘CAÃNT’, ‘CAÃNT’”