É difícil uma discussão política, especialmente se ela ocorrer na Internet, ser feita de modo trankilis, civilizado, sem desqualificações pessoais. Muitos pensam que se a discordância é profunda (por exemplo, entre um liberal e um bolsonarista), isso somente pode ser explicado por uma das partes ser ou um ignorante ou um canalha, ou seja, ou por uma das partes ter um cérebro malnutrido ou por ser uma pessoa mal-intencionada (isso valeria para um debate entre esquerdista e bolsonarista, entre esquerdista e liberal e tantos outros).
De minha parte, tendo sempre a pensar que as pelejas envolvem alguma desnutrição mental (por exemplo, um carinha joga mal o jogo das boas definições, não é muito arguto na aplicação dos princípios, presta pouca atenção ao que lê e assim por diante). Acho desagradável pensar que as pessoas digladiam-se por divergências de opiniões a partir de intenções moralmente corrompidas, a partir de alguma canalhice vagabundinha.
A tese socrático-platônica de que o mal provém da ignorância é atraente. Parece que o nazareno também curtia essa posição. Ele diz à turba que torcia pela sua condenação: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem” (adoro essa frase). Provavelmente Jesus estava sugerindo que, se soubessem o que estavam fazendo, não mereceriam perdão.
Teria um efeito benfazejo admitir que o opositor num debate não é um sujeitinho perverso, não é um cara que quer apenas a vitória retórica, que não deseja nada além dos aplausos da plateia, não dando importância ao fato de que isso pode implicar o uso de estratagemas imorais (como caluniar, difamar, injuriar, mentir, mentir, mentir e também, claro, fazer de vez em quando algumas insinuaçõezinhas vagabundas). Seria tão legal se as pessoas apenas errassem por algum descuido com a lógica, com as sutilezas de um texto. Digo “seria legal”, mas na realidade acredito mesmo que é isso que ocorre na maioria das vezes.
Em geral, somos bons, amamos a verdade e apenas erramos porque nos falta alguma informação, algum conhecimento, alguma penetração maior nos assuntos. Por vezes, acontece apenas que não conseguimos suportar as dubiedades de um discurso (ou não conseguimos lidar com o fato banal de que os outros nos consideram imbecis presunçosos, ridículos e equivocados). Quem sabe o indivíduo fique mais propenso à testilha porque aconteceu algo ruim no dia (talvez eu esteja melindrado por outras razões e não pelo que você disse ou porque não gosto muito do teu nariz, que é um pouco torto). A mim pelo menos faz um bem danado pensar que, no âmago, as pessoas são legais (não todas claro, mas a maioria delas). De fato, às vezes, as pessoas comportam-se mal num debate apenas porque estão passando por fases difíceis da vida, fases que as conduzem à incompreensão de coisas simples (coisas como: se a=b e b=c, então a=c). Em alguns casos, trata-se apenas de imaturidade biográfica, de virgindade existencial da pessoa, da vaidade besta da pobre criatura.
Por isso, é reconfortante o sentimento de empatia, de que somos iguais, intelectualmente limitados e moralmente frágeis. A tolerância viceja com esses adubos emotivos. Os seres humanos são lindos (claro, claro, também são feios, mas são muito menos feios do que pensamos).