Montaigne - Como diz Plínio, cada qual é para si mesmo excelente objeto de estudo, desde que tenha qualidades suficientes para se observar.
Aguinaldo – Não estou nem um pouco certo de que tenha essas qualidades suficientes.
Montaigne - É uma tarefa espinhosa, mais do que pode parecer, seguir um movimento incerto como o de nossa mente, penetrar as profundezas opacas de seus mais íntimos refolhos, distinguir e imobilizar as inúmeras oscilações que a agitam.
Aguinaldo – Puxa, bonito isso!
Montaigne - Há vários anos, somente a mim mesmo tenho como objetivo de meus pensamentos, somente a mim é que observo e estudo; se atento para outra coisa logo a aplico a mim.
Aguinaldo – Sim, sim, pois tudo gira em torno de nós mesmos. Para mim, tudo gira em torno de mim.
Montaigne - De que fala Sócrates mais abundantemente do que de si próprio? Para que encaminha suas conversações com seus discípulos, senão para as suas pessoas? E nunca para uma lição dos livros, mas para os movimentos da alma e do ser.
Aguinaldo – Acho que você deu uma forçada nesse Sócrates. Mas tudo bem.
Montaigne – Isso não tem importância, meu caro.
Aguinaldo – Ok, ok. Geralmente, considera-se algo censurável ficar falando de si mesmo. Eu mesmo não gosto das pessoas que falam, no mais das vezes, delas mesmas. Ególatras monotemáticos, bah! Confesso, porém, que o teu jeito de falar de você me agrada.
Montaigne - Meu ofício, minha arte, é viver; quem me censura falar disso segundo meu sentimento, a experiência que tenho e o emprego que dou, proíba a um arquiteto referir-se às suas próprias construções, obrigando-o a comentá-las de acordo com as de outrem.
