“Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. [...]— Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.A agitação diminui.— Estraguei a minha vida estupidamente.[...].Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. [...].Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.A vela está quase a extinguir-se”.(Graciliano Ramos. São Bernardo)
Por que alguém que se julga legal, certinho, cheio de sensibilidades sociais e políticas, mui antenado com as responsabilidades da cativante vida coletiva, por que esse alguém teria alguma identificação com o egoísta, tosco e violento protagonista de São Bernardo? Seria um belo tema a dissertar e estudar a identificação (ou não) do leitor com os heróis e personagens da literatura. Mas eu jamais teria esse atrevimento investigativo. Prefiro riscos menores.
Há em nós muito de Paulo Honório. Ele é um de nós porque também em nós dormitam seus vícios (às vezes em vigília perambulando na linda vidinha que levamos). Paulo Honório encanta porque sua força e brutalidade falam do homem defensivo que ele é, nos contam sobre sua (e nossa) fragilidade humana. Sobretudo, ele me encanta porque suas conquistas redundam em fracassos, fracassos que só têm um culpado, sim, um, exclusivamente um, unzinho apenas: o querido eu. (Não é assim a vida? Ou não é assim também a vida? Ou não é assim frequentemente a vida?). Mas Paulo Honório esforça-se para manter os olhos abertos enquanto empreende a travessia das amargas páginas do autoconhecimento. (Não realizamos esforço análogo também?). Claro que muitas vezes precisamos fechar e desviar os olhos, repelir a visão que exibe nossas deformidades monstruosas.
E eis que me vem à mente as palavras do Toninho Sabiá: fale por você professor.
