08 fevereiro 2023

Nossas vidas secas


Em Vidas secas, Fabiano sofre. Fabiano não tem saída. Os pés torrados pela terra febril, o solo implacável... 
Viver como tinham vivido, numa casinha protegida pela bolandeira de seu Tomás. Discutiram e acabaram reconhecendo que aquilo não valeria a pena, porque estariam sempre assustados, pensando na seca.
A seca, mesmo quando cede lugar à chuva, reivindica sua posição central na vida. Essa verdade que, por evidente, tem sentido metafórico, até poderia ser a tese de alguma filosofia lamentosa. Temos, porém, a sorte de que essa verdade é a ideia que Graciliano nos transmite de modo artístico. Transmite  e nos deixa arrebatados com tamanha beleza, a beleza da dor, a beleza do sofrimento. Graciliano, com sua empatia de gênio da escrita ficcional, nos permite ouvir a alma de Baleia, a fiel companheira canina da saga dos sofredores, nos permite ouvir a voz dos corações infantis e profundamente humanos dos meninos, a inteligência, a sensibilidade e a força de Sinha Vitória.

Fabiano é vítima da vida cruel que aflige miseráveis retirantes e suas famílias? A palavra vítima nesse contexto não me agrada. Por certo, é possível ver as coisas assim e dar consistentes contornos de plausibilidade. É verdade (qual leitor negará?) que sua existência é esmagada pela miséria. Mas, a mim, o romance conta a história de qualquer um de nós, esmagados que somos pela vida, não de uma vida cruel, tida como nosso algoz. Apenas em sentido poético podemos falar que a vida é algoz e nós vítimas dela (sim, então declamemos nossa pobre poesia dizendo que somos vítimas da vida cruel). Mas a vida - o viver, o existir em sua frágil finitude - não é um ser dotado de intenções e nós não somos seus alvos especiais. Não é nada pessoal o tratamento cruel que ela nos dispensa. Não, somos condenados à derrota, à desesperança (não há esperança em Vidas secas) porque assim são as coisas. É preciso, porém, um romancista genial para nos fazer entender melhor essa verdade.
Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto.
Fabiano é vítima do soldado amarelo? Sim, claro. É vítima do fazendeiro? Como não sou adepto de leituras ideológicas, acho que a resposta aqui é menos certeira do que em relação ao conflito com o soldado amarelo. O fazendeiro lograva Fabiano, cobrava juros sem que o bruto vaqueiro pudesse contestar. Então, ok, nesse sentido, Fabiano é vítima do soldado amarelo e do fazendeiro. E é vítima também do Estado, sim do Estado. O seu porco não é seu porco. Um pedaço de seu porco é do Estado. 
Como o outro lhe explicasse que, para vender o porco, devia pagar imposto, tentara convencê-lo de que ali não havia porco, havia quartos de porco, pedaços de carne. O agente se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se encolhera. Bem, bem. Deus o livrasse de história com o governo. Julgava que podia dispor dos seus troços. Não entendia de imposto.
Mas o soldado amarelo é uma metáfora, o fazendeiro é metáfora e o Estado também. O que, porém, me parece literal é a secura da vida, a sua amarga esterilidade. A vida de cada um de nós confirma isso, mas quando, para reforçar a lição, temos a literatura, com todo seu charme e encanto, a cruz que carregamos parece menos pesada.