Talvez antes de contar como me tornei um ateu, eu precisasse contar como me tornei um teísta, pois do meu nascimento até uns 4-5 anos não era, que eu me lembre, nem teísta, nem ateísta. Talvez fosse espontaneamente ateísta, não sei. Gostaria de acreditar que os seres humanos são naturalmente ateus e se tornam, devido ao ambiente em que vivem, crentes na divindade, mas há tempo me acautelo com as coisas que gosto de acreditar, então prefiro ficar com esse tímido “não sei”. Provavelmente, nem uma coisa nem outra, haja vista que a ideia de Deus não é ainda entendida ou, se for, é muito mal-entendida quando se tem apenas 4 ou 5 anos (e sem entender a ideia de Deus não dá pra ser ateu).
O fato é que nasci e fui criado sob os cuidados de pais teístas. Portanto, minhas primeiras crenças no campo da teologia foram, por uma passividade típica da infância nesses domínios mais metafísicos, afirmativas. Eu disse “sim” antes de dizer “não” (o “não” que agora proclamo). Mas esse não, que é o assunto desse post, envolveu um lento e progressivo rompimento com a passividade da educação teísta que recebi. Meus primeiros passos em direção ao ateísmo foram intelectuais. Eu havia começado a ler Krishnamurti e também entrei em contato com alguns argumentos antiteístas. Comecei a pensar em coisas como: a autossuficiência moral do ser humano, a ausência de evidências empíricas em favor da existência de Deus, a absoluta ausência de sinais da divindade, o problema do mal, os ilogismos e blábláblá.
A brincadeira talvez fique mais interessante se eu dividir em fases as mutações que vivi com respeito ao tema Deus (com idades aproximativas).
Primeira fase: até 4-5 anos
Inconsciência infantil sobre existência ou não de Deus.
Segunda fase: 6-13 anos
Teísta. Crente no teísmo inculcado pelo ambiente em que cresci. Nessa fase, vivi algo que tem muito a ver com uma ideia de Montaigne. Para ele,
Só acolhemos nossa religião à nossa maneira e por nossas mãos, e não de forma diferente de como as outras religiões são acolhidas. Demos conosco no país onde ela estava em uso; ou levamos em consideração sua antiguidade ou a autoridade dos homens que a preservaram; ou tememos as ameaças que ela atrela aos descrentes; ou seguimos suas promessas. [...] Somos cristãos da mesma forma que somos perigordinos ou alemães.
(Ensaios II 12).
Terceira fase: 14-15 anos
Por um certo período, vivi uma espécie de transição entre o ateísmo intelectual - que abandonei em benefício do agnosticismo intelectual, depois finalmente (será?) também deixado de lado em favor do ateísmo existencial e intuitivo com o qual hoje me identifico - e o teísmo inicial fruto do ambiente em que cresci. Queria entender a relatividade das crenças cristãs, ou melhor, a pluralidade delas. Vivi algo como uma crise das crenças católicas que havia recebido de meus pais, professores e catequizadores. Nessa época, atormentava-me com a diversidade de seitas e doutrinas cristãs. Nascido em família católica, fiquei impressionado com a existência de cristãos que não eram católicos. Isso me levou à leitura de textos e panfletos dos Testemunhas de Jeová, Mórmons, Luteranos, Metodistas, Adventistas (às vezes até assistia os cultos dessa turma para ver como era). Essa fase de minha metafísica plebeia me faz lembrar do personagem Mickey Sachs vivido por Woody Allen em Hannah e suas irmãs. Mickey perambula do judaísmo para o catolicismo, flerta com uma ou outra tese filosófica sobre a existência, conversa com um adepto do movimento Hare Krishna (mas, inteligentemente, conclui que raspar a cabeça e dançar nos aeroportos não é boa ideia).
Quarta fase: 15-16 anos
Foi a fase do flerte com Krishnamurti, um pensador e pregador indiano que escreveu livros que falam de uma espiritualidade sem religião, de busca do autoconhecimento e tal (hoje acho bem fraquinho). Krishnamurti foi importante para mim, pois a partir da leitura de seus livros Deus começou a perder sentido em minha vida. Mas tudo isso ainda envolvia um componente essencialmente intelectual. Queria argumentos, argumentos, argumentos. Hoje, não. Não que não me agradem argumentos, mas não acredito mais na força demonstrativa de argumentos nessa seara.
Quinta fase: 16-19 anos
Depois de Krishnamurti, veio Marx. Aí o ateísmo se estabeleceu com força em minha mente.
Eu gostava muito de um trecho de um livrinho de Marx. Era o seguinte:
A crítica da religião desengana o homem para que este pense, aja e organize sua realidade como um homem desenganado que recobrou a razão a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.
(Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel).
Não me comovia muito a alegação, também contida no livrinho sobre a filosofia do direito de Hegel, de que a religião é o ópio do povo. E minha mente sempre unia, nessa fase, os conceitos de Deus e religião.
Sexta fase: 20-38-40 anos (não sei bem até quando)
Agnosticismo intelectual. Kant, Hume. Eu fazendo pose de filósofo profundo.
Sétima fase (atual)
Nessa fase, Richard Dawkins teve forte influência sobre mim. Dawkins apresenta um espectro de probabilidades sobre a existência de Deus com dois extremos de certezas opostas que me agradou muito. É, em resumo, o seguinte.
1. Teísta convicto. Probabilidade de 100% de que Deus exista.
2. Teísta de facto. Probabilidade muito alta, mas que não chega a 100%.
3. Tecnicamente agnóstico, com tendência ao teísmo. Maior que 50%, mas não muito alta.
4. Agnóstico imparcial. Exatamente 50%.
5. Tecnicamente agnóstico, com tendência ao ateísmo. Inferior a 50%, mas não muito baixa.
6. Ateu de facto. Probabilidade muito baixa, mas que não chega a zero. “Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo a minha vida na pressuposição de que ele não está lá”.
7. Ateu convicto. “Sei que Deus não existe com a mesma convicção que Jung sabe que ele existe.”
(cf. Deus, um delírio, p. 79-80).
Com Dawkins, percebi que não tinha sentido me considerar agnóstico. No fundo eu era um ateu. Saí do armário.
Dawkins corretamente mostra que o ateu não pretende de modo algum afirmar a impossibilidade da existência de Deus. Trata-se tão somente de afirmar a alta improbabilidade de sua existência (ser um ateu de facto, categoria 6). Eu comecei, a partir disso, a ver que meu agnosticismo era meio bunda mole. Uma postura excessivamente intelectualizada sobre algo que, hoje noto, é muito mais existencial. É mais intuitivo. Meu ateísmo tem muito mais a ver com o que sinto do que com o que penso. Isso é mais decisivo (claro que não sozinho, os argumentos sempre contam, mas não são o fiel da balança).
Hoje, sinto que, para mim, não faz sentido crer em um Deus. Não há lugar para Deus em minha vida. E acho isso mais importante do que perceber algum lugar para ele em minha visão de mundo. Isso estaria mais próximo de um ateísmo intelectual, como venho chamando. É verdade, porém, que conservo um ateísmo intelectual como munição de reserva. O que aconteceu é que esse ateísmo intelectual foi assimilado harmoniosamente à minha sensibilidade ateia e naturalista, arredia a qualquer recepção do sobrenatural.
Olho para as coisas, ouço os outros, percebo e compartilho a alegria das pessoas que amo, sofro com o sofrimento delas, sinto a morte se aproximar em várias direções. Não me sensibiliza, contudo, nada de religioso ou divino. A vida é bela em sua finitude. Com o tempo tudo será apagado (restará somente a matéria), mas não preciso de Deus para sentir que vale a pena viver. Eu sinto o incompreensível, sim, eu sinto que ele persegue meus passos. O que fazer? Eu o aceito, aceito com certa serenidade, pois meu intelecto é precário em muitos aspectos. Sinceramente, se Deus existisse, a vida não teria multo sentido (quero dizer, a minha vida não teria muito sentido). Muitas peças não se encaixariam. Uma vez que acredito metafisicamente na liberdade e na responsabilidade individual, considero-me um criador e não uma criatura. Criador do meu destino. Claro, claro, um criador num sentido um tanto retórico, já que minha humana impotência torna esse “criador” um criador de poucas coisas. Dentre essas poucas coisas que crio estão minhas escolhas fundamentais, está minha errância nesse adorável vale de lágrimas e de cantos de júbilo.
