30 janeiro 2016

Filosofia do ridículo

É ridículo Mr. Collins se achar um bom partido, um sujeito interessante e tal, e nem perceber que Elizabeth, a pretendida, o desdenha. Por que Mr. Collins é ridículo? 

Um camarada fazendo pose de filósofo, mas que não consegue sequer deglutir duas ou três ideias e somente regurgita banalidades, é ridículo. Por quê? Porque não percebe o papel que está fazendo. Ele pensa desempenhar um papel, mas a plateia vê outra coisa, ou apenas uma parcela da plateia, talvez apenas uma pessoa. Por certo, ele poderia dizer, "fodam-se, não estou nem aí para o que vocês pensam". Ser ridículo é sempre ser ridículo em relação a quem não queremos ser ridículos. Nossa condição de ridículos caminha de mãos dadas com a inconsciência dela. O ridículo tem algo a ver com uma deficiente percepção de si mesmo e dos outros.

As pessoas me desprezam por me acharem ridículo, mas se eu também desprezo a opinião delas sobre mim talvez não ocorra o fenômeno da intersubjetividade do ridículo. Haveria aqui apenas um polo do fenômeno do ridículo. Claro que não basta desprezar a opinião dos outros e não saber das aparentes incongruências dos elementos que carregamos. O ridículo diz respeito a algo que não combina, diz respeito à pose, à afetação (não necessariamente, tudo bem).

Qual a diferença entre o ridículo e o risível? Nem sempre o ridículo é risível. É ridículo uma pessoa que não sabe falar espanhol tentando dizer algo nessa língua, como se conseguisse se comunicar. É mais ridículo quanto menos ela perceber que é praticamente uma nulidade em espanhol. Ora, isso não me parece risível, mas certamente é ridículo (se a pessoa não demonstrar consciência de sua dificuldade com a língua). As primeiras ocorrências de ridículo podem envolver o risível, mas recorrências parecem anular ou diminuir bastante o risível. No ridículo o riso parece ser geralmente mental. Rio mentalmente de alguém. Podemos sentir pena do cara tentando falar espanhol e não considerá-lo ridículo, portanto. Mas o carinha pode ser ao mesmo tempo ridículo e digno de pena. Pode? Sim, pelo menos eu senti as duas coisas por mim mesmo quando, ontem, conversava com um sábio professor de Direito.

Em fotos se percebe muito o ridículo das pessoas. Uma mulher pouco acostumada a vestir-se de modo elegante ou simplesmente a se vestir com roupas chiques posa para a foto. Ela parece estar pouco à vontade. Alguma coisa não combina. Ela não tem a postura e a elegância natural que a roupa exige. Podemos aplicar isso, obviamente, para qualquer sexo e até mesmo, talvez, idade. 

Um sujeitinho, numa reunião, fala, “olha, pessoal, deixem-me dar um conselho, pois já há 7 anos trato desse assunto. Acho que vocês deveriam blábláblá”. Ele se dirige a pessoas que tratam do mesmo assunto há mais de 20 anos. Ninguém pediu o conselho dele. Soa ridículo dizer isso. E bem ridículo porque ele revela não ter noção do entorno. Seus interlocutores se dedicam ao tema, em relação ao qual ele quer posar de conselheiro, há 20 anos e ele pensa que por ter experiência de 7 anos deve ser aclamado como O Sr. Conselheiro. Ele não sabe que 7 anos é muito pouco perto de 20? Se ele estivesse se dirigindo a quem tem 6 meses ou 1, ok. Mas ele não percebe. O sujeito ridículo padece sempre de uma distorção perceptiva das coisas. É possível que ele estivesse sacaneando os outros, mas daí não seria ridículo. Outro ponto do ridículo. O ridículo se leva a sério. Essa seria a relação básica do fenômeno intersubjetivo do ridículo. O juiz condena um réu que não sabe bem o que fez. Se o réu tem todo o dolo da ação, ele não é ridículo.

Por certo, não se trata penas de um indivíduo diante de outro. Podem ser muitos indivíduos diante de um só. “Vejam como ele é ridículo”. Ou um só diante de muitos. “Como essas pessoas são ridículas”. Se estou muito próximo de alguém em costumes, modos, opiniões e gostos não consigo ver o ridículo  nesse alguém - ou é mais difícil. O ridículo marca uma distância. Quem é ridículo para mim está, nesse sentido, afastado um pouco de mim. Talvez devêssemos, às vezes, nos afastar um pouco de nós mesmos. Assim, quem sabe, perceberíamos melhor como somos ridículos ou como somos excêntricos.

Ah, o excêntrico. Excêntrico é outra coisa. Mas não é uma identificação fácil de ser feita. Muitas vezes o excêntrico é confundido com o ridículo."Ah, você acha que eu sou ridículo, mas eu sou excêntrico". Também uma bela - e ridícula - desculpa.

As crianças são menos ridículas que os velhos, ou é mais fácil cair em ridículo com a idade.

Medo de ser ridículo também parece ridículo. Espontaneidade e autoconfiança não são escudos inabaláveis para a queda no ridículo, mas ajudam uma barbaridade. 

O sujeito ridículo não percebe que está sendo ridículo. Ok, ok. Por isso se diz de pessoas ridículas, “pô, esse miserável não tem senso do ridículo?” Pensando bem, isso soa estranho. Pessoas destituídas do senso do ridículo? Me comporto de modo ridículo, mas isso não me impede de ver o ridículo nos outros. Nesse caso, não sou destituído do senso do ridículo. Poderíamos, admitindo a existência desse senso, afirmar que todos o possuem em alguma medida. Não consigo conceber pessoa que não seja capaz de reconhecer o ridículo nos outros. (É legal quando percebemos que somos ridículos. Logo depois de uma frase, uma observação. Sabe aquelas coisas que vivemos dizendo? Repetir-se é muito ridículo. E fotos? Ah, as fotos. Você olha a foto tirada há 2 segundos e percebe como ficou ridículo).

 Dependendo do ângulo, todos somos autores do ridículo, especialmente quando desligamos inadvertidamente as antenas da nossa condição de seres sociais. Acho que até cabe pensar em pessoas ridículas, quer dizer, aqueles seres que parecem ser portadores de uma natureza ridícula. Quase tudo que fazem, não apenas suas ações, mas até suas omissões, são ridículas. A existência delas é ridícula.

Há pessoas com grau mínimo de senso do ridículo, isso é verdade. Cabe, contudo, relativizar nossos juízos condenatórios em virtude da natureza estética do ridículo. Pensem em como turistas tendem a ser ridículos. Americanos com suspensórios numa praia (eu já vi isso?). Ou, dá pra tentar imagens mais convincentes. Por exemplo, colocar alguém fora do seu contexto natural. O deslocamento está altamente vinculado ao ridículo. Dar muita importância aos outros flerta com o ridículo. Não dar nenhuma importância aos outros faz você ficar de azaração com a selvageria. O ridículo é um probleminha da nossa relação com o inferno e o paraíso que são os outros. Oh, grande descoberta. Que observação ridícula.

Bah, cansei desse papo. Na verdade, é bem ridículo levar a sério o ridículo. Levar a sério a própria vida é uma coisa bem ridícula. Pessoas sérias são ridículas. Não, nem sempre. Geralmente são apenas chatas. Tá, fim.

Títulos de posts também são ridículos.