13 janeiro 2016

Mas eu sei a ortografia correta


"Em nossas atividades habituais, entre mil não há uma que nos diga respeito. Esse que vês escalando o topo das ruínas dessa muralha, furioso e fora de si, na mira de tantos arcabuzes; e aquele outro, cheio de cicatrizes, transido e pálido de fome, decidido a antes morrer do que lhe abrir a porta, pensas que estejam aí em seu próprio benefício? Em benefício de alguém que possivelmente nunca viram, e que não dá a menor importância ao que fazem, mergulhando entrementes na ociosidade e nas delícias. Este, todo pituitoso, remelento e esmolambado, que vês sair de um gabinete de trabalho depois de meia-noite, julgas que ele procura nos livros como se tornar mais honrado, mais contente e mais sábio? Nada de novo. Ele morrerá ali, ou informará à posteridade a medida dos versos de Plauto e a ortografia correta de uma palavra latina. Quem não troca de bom grado a saúde, o repouso e a vida pela fama e pela glória, a mais inútil, vã e falsa moeda em uso entre nós? Nossa morte não nos assustava o suficiente: sobrecarregamo-nos também com a de nossas mulheres, de nossos filhos e de nossa gente! Nossos negócios não nos davam trabalho bastante: comecemos também a atormentar-nos e a quebrar a cabeça com os de nossos vizinhos e amigos".

(Ensaios, I, 39)