01 fevereiro 2016

A mesma vida assustada

Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora. 
O cachorro está sentado à minha frente - e me olha direto nos olhos. 
Eu também olho para os olhos dele. 
Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo. 
Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula. 
A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas... 
E fim! 
Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós? 
Não! Não são um animal e um homem que se olham... 
São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro. 
E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro.

Cachorro 
IVAN TURGUÊNIEV
(tradução de Rubens Figueiredo. Folha de São Paulo, 23/05/2010).