- Vamos tomar uma no Canhoto? Preciso conversar com alguém e pode ser você mesmo.
- Claro, vamos lá, respondo eu, já acostumado com o estilo silvestre do Heitor.
- Pensando bem, Canhoto não. Acho que esse papo rola melhor no Fuad. Pode ser lá?
- Claro, sem problemas. Daqui uns minutos estou lá.
Era umas 19h30. A chuva há horas tinha dado uma trégua e senti, colocando o rosto na janela, uma brisa amena e convidativa. Resolvi ir a pé. Benjamin, JK, Ibiporã e em 11 minutos cheguei ao Fuad. Heitor ainda não tinha chegado. A Sra. Heineken se ofereceu para fazer companhia. Eu prontamente aceitei e disse que ela poderia ficar ali comigo quando meu amigo chegasse. A Sra. Heineken pensa que será rejeitada por alguns amigos meus. Ela se acha um tanto amarga. Eu sempre replico dizendo que é seu estilo, que a vida a deixou assim, um tanto amarga, mas cheia de sabedoria.
Heitor chegou.
- Aguinaldo, tô te alugando, mas preciso que alguém me ouça. Tô fudido. Fudido e mal pago.
- Senta aí. Toma um bom gole.
- Quero ir direito ao ponto. Tenho me sentido asfixiado pelo presente.
Eu senti que a frase era forte. Houve uma pausa. Eu olhei nos olhos dele e percebi toda a agitação anímica que o acometia. Então ele prosseguiu.
- É uma coisa bisonha. Não sei o que faço. Se fosse possível simplesmente desligar os botões. Olho para o passado e vejo coisas boas, cara, coisas boas mesmo, todas elas guardadas no venerável barracão das lembranças. As minhas microaventuras, os meus amores, o tempo em que minha alma levitava de alegria, aberta, resplandecente.
- Não saquei teu ponto.
- Escute apenas. Você vai entender. É o passado como libertação do presente. Esse passado tem sujeira, tem arrependimentos, remorso, mas eu jogo tudo isso pra baixo do tapete. O que me incomoda eu descarto. O meu problema é o futuro. O que fazer com o futuro?
- Pois é, Heitor, o que fazer com o futuro?
- Bem, a tirania do presente matou o futuro, mas o passado poderá ressuscitá-lo. O passado, o belo passado, será o herói solitário, o herói revolucionário. Ele tomará de assalto o palácio de cristais definitivos e matará sem piedade o presente opressor. Se conseguir isso, batata. O futuro nascerá da morte do presente.
- Hum...
- Não entendeu?
- De que passado você está falando?
- Porra, do meu passado.
- Certo, mas do teu passado até quando? Até ontem? Até 2015? Você precisa delimitar as coisas.
- Ok. Quero dizer o passado recente – e até nem tão recente assim. Me refiro ao passado como uma fase boa, de muita aprendizagem. Um passado seletivo, é obvio. O ponto é que tenho de deixar em suspenso o presente por algum tempo, provavelmente até o fim dos tempos. Não posso cuidar do presente. Tenho de fugir dele, ou fazer de conta que fujo e, quando ele menos esperar, afundo meu punhal nas suas malditas costas.
- Tá, mas assim não viveríamos mais no presente. Mas a vida se passa no presente, Heitor. Não funciona essa tese. Ela tá furada.
- Para os outros se passa no presente, talvez para outros, para os outros. Não funciona para os outros. Quanto a mim, a vida, doravante, se passa no passado. Adeus ao presente.
- Ô Fuad, chama o Jose Cuervo. Ó, mas pede pra ele vir sozinho, sem aquela companhia, sem aquela frescura de limão e sal.
© Aguinaldo Pavão – Londrina – PR - 2016
