Não consegui dormir. Como se não bastasse esse calor
infernal, as cenas da novela não saiam da minha cabeça. Felix, ó querido
ex-maligno Felix (melhora esse beijo, por favor). Aline, tão linda e tão má (amadora, mas fazer o quê). E o Cesar?
Ó que lindo é o amor, não é Dona Pillar? Descontando o singelo e letal fato de
que a novela foi deveras mal escrita, acho que se poderia oferecer, em sua homenagem,
como uma distribuição de pérolas aos porcos, o seguinte e memorável post que
escrevi.
Jane Austen
contra Nietzsche. Jane Austen 10 x 0 Nietzsche
"O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal".
(Bigode)
Tanto em Orgulho e Preconceito, como em Razão e
Sensibilidade (e Persuasão também, os três que li), Jane Austen chama a atenção sobre o vínculo entre o sentimento
da paixão amorosa e da admiração moral. As semelhanças entre os personagens Sr.
Darcy e Coronel Bradon, nesse aspecto, são notáveis. Darcy prova sua altivez
moral não só ao ajudar a irmã de Elizabeth, mas também por preservar uma
dignidade em seu modo de agir que satisfaz, assim, um critério crucial do
coração de Elizabeth . Já Brandon revela um comportamento moral cuja nobreza é
tão encantadora que nos faz suspeitar se ele é realmente consequente com seus
sentimentos em relação à Marianne. Como pode um homem amar uma mulher com
tamanho desprendimento!
Brandon percebe que o amor, por si mesmo, não pode ser a
medida para suas ações. E ele se torna amável aos olhos de Marianne justamente
por isso. Ele é um personagem que revela a asneira dita pelo Bigode segundo a
qual “o que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal”. Mais uma das
bobagens bigodianas evidenciada pelo Coronel Brandon ─
o personagem mais interessante de Razão e Sensibilidade.
Hoje somos lamentavelmente mais condescendentes em nossas
apreciações morais, ao menos é essa a impressão que tenho. É claro que a paixão
amorosa é um sentimento impuro que causa auto-enganos de modo desconcertante,
mas parece que nosso egoísmo sentimental, sim, nosso egoísmo no amor nos leva
facilmente a perdoar as falhas no caráter do ser amado. Lembremos de
Willoughby. Marianne, depois de Elinor relatar a ela que as intenções de
Willoughby não continham a maldade até então suposta, é firme em avaliar que
tal homem não lhe poderia servir. E não prejudicaria meu ponto a alegação de
que ela pensa que tal homem não a tornaria feliz, porque a própria ideia de
felicidade de Marianne traz consigo elementos morais. Sua felicidade, com
respeito à pessoa amada, não se resume a estar junto dela (nos amaremos e
seremos felizes para sempre. Oh...). Não, para ela a felicidade não implica
apenas compartilhar a vida com uma pessoa que se ama. A felicidade envolve
admirar o caráter da pessoa amada. Ora, parece-me fácil admitir que podemos
amar quem não merece ser amado. E podemos facilmente nos auto-enganar e
ficarmos com quem não merece nosso amor. Podemos pensar: puxa, ela me atrai
tanto, sua beleza é irresistível, ela diz me amar também, ela apresentou suas
escusas, por que não perdoá-la e lhe dar uma chance novamente? Marianne não
quer dar chance.
Ela é bem novinha, 17 anos, mas sabe muito mais do que as
presunçosas garotas e senhoras de hoje em dia, que um homem é o que é. Que a
natureza moral de uma pessoa tem raízes profundas que não são extirpadas com
retóricas de arrependimento e autopiedade moral. É possível que as pessoas
mudem (moralmente) de comportamento. Sim, acho que ela poderia concordar com
essa ideia. Mas há uma ideia melhor: não aceitarmos como parceiros da aventura
amorosa pessoas que deram sinais de deficiência moral. Hoje, eu, você, nós, em
geral, somos moles. Ah, perguntamos: por que, afinal, sermos tão duros?
2 comentários:
Gostei, mestre! Parabéns pelo texto! (Capucho)
Valeu, Nelson. Obrigado.
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