01 fevereiro 2014

Jane Austen contra Nietzsche. Jane Austen 10 x 0 Nietzsche

Não consegui dormir. Como se não bastasse esse calor infernal, as cenas da novela não saiam da minha cabeça. Felix, ó querido ex-maligno Felix (melhora esse beijo, por favor). Aline, tão linda e tão má (amadora, mas fazer o quê). E o Cesar? Ó que lindo é o amor, não é Dona Pillar? Descontando o singelo e letal fato de que a novela foi deveras mal escrita, acho que se poderia oferecer, em sua homenagem, como uma distribuição de pérolas aos porcos, o seguinte e memorável post que escrevi.


Jane Austen contra Nietzsche. Jane Austen 10 x 0 Nietzsche

"O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal".
(Bigode) 


Tanto em Orgulho e Preconceito, como em Razão e Sensibilidade (e Persuasão também, os três que li), Jane Austen chama a atenção sobre o vínculo entre o sentimento da paixão amorosa e da admiração moral. As semelhanças entre os personagens Sr. Darcy e Coronel Bradon, nesse aspecto, são notáveis. Darcy prova sua altivez moral não só ao ajudar a irmã de Elizabeth, mas também por preservar uma dignidade em seu modo de agir que satisfaz, assim, um critério crucial do coração de Elizabeth . Já Brandon revela um comportamento moral cuja nobreza é tão encantadora que nos faz suspeitar se ele é realmente consequente com seus sentimentos em relação à Marianne. Como pode um homem amar uma mulher com tamanho desprendimento!


Brandon percebe que o amor, por si mesmo, não pode ser a medida para suas ações. E ele se torna amável aos olhos de Marianne justamente por isso. Ele é um personagem que revela a asneira dita pelo Bigode segundo a qual “o que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal”. Mais uma das bobagens bigodianas evidenciada pelo Coronel Brandon o personagem mais interessante de Razão e Sensibilidade.

Hoje somos lamentavelmente mais condescendentes em nossas apreciações morais, ao menos é essa a impressão que tenho. É claro que a paixão amorosa é um sentimento impuro que causa auto-enganos de modo desconcertante, mas parece que nosso egoísmo sentimental, sim, nosso egoísmo no amor nos leva facilmente a perdoar as falhas no caráter do ser amado. Lembremos de Willoughby. Marianne, depois de Elinor relatar a ela que as intenções de Willoughby não continham a maldade até então suposta, é firme em avaliar que tal homem não lhe poderia servir. E não prejudicaria meu ponto a alegação de que ela pensa que tal homem não a tornaria feliz, porque a própria ideia de felicidade de Marianne traz consigo elementos morais. Sua felicidade, com respeito à pessoa amada, não se resume a estar junto dela (nos amaremos e seremos felizes para sempre. Oh...). Não, para ela a felicidade não implica apenas compartilhar a vida com uma pessoa que se ama. A felicidade envolve admirar o caráter da pessoa amada. Ora, parece-me fácil admitir que podemos amar quem não merece ser amado. E podemos facilmente nos auto-enganar e ficarmos com quem não merece nosso amor. Podemos pensar: puxa, ela me atrai tanto, sua beleza é irresistível, ela diz me amar também, ela apresentou suas escusas, por que não perdoá-la e lhe dar uma chance novamente? Marianne não quer dar chance.
Ela é bem novinha, 17 anos, mas sabe muito mais do que as presunçosas garotas e senhoras de hoje em dia, que um homem é o que é. Que a natureza moral de uma pessoa tem raízes profundas que não são extirpadas com retóricas de arrependimento e autopiedade moral. É possível que as pessoas mudem (moralmente) de comportamento. Sim, acho que ela poderia concordar com essa ideia. Mas há uma ideia melhor: não aceitarmos como parceiros da aventura amorosa pessoas que deram sinais de deficiência moral. Hoje, eu, você, nós, em geral, somos moles. Ah, perguntamos: por que, afinal, sermos tão duros?

Eu prefiro os romances de Jane Austen à vida real. (Que bobagem que escrevi).

2 comentários:

Anônimo disse...

Gostei, mestre! Parabéns pelo texto! (Capucho)

Aguinaldo Pavão disse...

Valeu, Nelson. Obrigado.