Penso que sempre tive um ímpeto libertário, mesmo quando acreditava em bobagens como justiça social e correlatos. O caminho do liberalismo para o anarquismo (bem entendido, anarcocapitalismo) me parece coerente. Singelamente, o que aconteceu comigo foi ter me apercebido que o estado representa essencialmente um atentado à liberdade. O estado é incompatível com a liberdade individual, esse é o ponto crucial, academicamente anunciado, depois de refletir por muitos anos, num Colóquio Kant da Unicamp de 2012 – para o espanto de meus colegas kantianos. Certamente fui a primeira pessoa no Brasil a relacionar Kant ao anarquismo. Não vejo como se possa alcançar uma justificação moral para o estado - e faço a aposta do século se alguém me dissuadir disso. Enfatizo que acredito ter provado essa tese a partir de Kant. “A partir de Kant”, apenas isso, pois há tempos não me interesso mais por fazer interpretações de filósofos. É verdade que faço isso eventualmente a fim de cumprir as enfadonhas solenidades da vida acadêmica, mas não mais como algo que promane de minhas veias. No meu sangue não corre mais nenhuma seiva de inclinação para pensar os problemas de um ou outro filósofo. O que quero é pensar os meus problemas e usar, manipular, instrumentalizar alguns dos grandes filósofos. Eles são meus servos, não eu servo deles. Bem, continuemos.
O meu anarquismo, radicalmente capitalista, não teve como inspiração direta as sempre instigantes provocações e elaborações de libertários da escola austríaca, de um Rothbard, por quem tenho elevada admiração intelectual (ou será apenas concordância? Às vezes concordamos em pontos essenciais com uma pessoa mas não chegamos a admirá-la). Felizmente meu caminho não teve influências doutrinárias diretas, ostensivas. Eu cheguei ao anarquismo por meio de Kant e de seu genial princípio universal do direito. Kant considera que se minha liberdade de arbítrio pode coexistir com a liberdade de todos os outros, então essa minha liberdade é juridicamente lícita - e portanto não pode com justiça sofrer coerção. Foi isso que proporcionou ao meu altivo e penetrante intelecto (me perdoem, mas preciso rir de mim mesmo um pouco) descobrir o fracasso de qualquer tentativa de justificar o estado. Não posso esquecer de mencionar a importância do ensaio de Hume “Do contrato original” (escrevi algumas coisas levando em consideração "Do contrato original" aqui e aqui). Ou seja, eu me tornei anarquista sob influências teóricas de autores não anarquistas.
Lembro que no post Como me tornei um liberal - a propósito, um post memorável (desculpem-me se às vezes sou irônico e megalomaníaco. Faço isso por humor, pois me acho uma pessoa muito divertida, embora isso não tenha graça nenhuma). Como dizia, naquele post, o nome de Marcos Rodrigues, do meu grande amigo Marcos Rodrigues precisou, por justiça, ser mencionado, visto que foi sob influência dele que fui conduzido ao liberalismo. Marcos continua liberal, mas sua sobriedade consequencialista não o permite abraçar o anarquismo (estou falando tudo isso dele por minha conta). Noto, lateralmente, que se Marcos e eu não estamos mais perfeitamente sintonizados na filosofia política, o estilo dele, o modo altaneiro como ele encara a filosofia me agrada cada vez mais. É com o Marcos (depois da Marília, é claro) que tenho as mais instigantes conversas filosóficas, sem nenhuma dessas solenidades tediosas da filosofia acadêmica (terrivelmente chata com sua assustadora ausência de humor).
Aqui preciso mencionar o nome de meu querido amigo Marcelo Rissatto. Lembro-me de nossas conversas nas salas e corredores da UEL e nos botecos londrinenses. Eu tentava resistir ao anarquismo do Marcelo, mas seus argumentos eram fortes enquanto os meus eram anêmicos. Eu não concordo com seu anarquismo utilitarista. Meu anarquismo é do início ao fim deontológico, mas sinto que nossas conversas me impulsionaram a ver a falta de respostas dos defensores da necessidade do estado, mesmo aqueles que, como eu, acreditavam na besteira de um estado mínimo.
Como estou fazendo referência a alguns amigos com quem venho discutindo há algum tempo temas de filosofia política, também me sinto obrigado a mencionar o sagrado nome da Andrea Faggion, minha amada amiga, que agora julgo finalmente convertida ao anarquismo (espero não estar enganado). Nossas discussões mais recentes sobre Nozick foram muito úteis para mim. Eu pude pensar melhor – e ver com satisfação narcísica que minhas intuições e reflexões filosóficas sobre o estado eram primorosas. Pensar melhor – e lateralmente ter satisfações narcísicas ou mesmo ferimentos no querido ego – são efeitos salutares que facilmente se obtém da convivência intelectual com Andrea Faggion. Meu anarquismo se viu reforçado com nossas discussões e sou grato a ela por isso.
Uma palavrinha final, consignada aqui por pudor. Anarquismo para mim não é uma religião – como sinto em muitos da turminha do Instituto Von Mises que ficam nervosinhos com quem pensa diferente deles. Acredito sinceramente que é possível alguém conseguir no futuro me convencer que o estado é moralmente justificável. Se isso vier a acontecer, não me restará outra opção a não ser dizer adeus ao meu querido e amado anarcocapitalismo. Isso me faz lembrar de uma advertência da Marília. Estávamos falando sobre mais uma tatuagem e eu disse: "vou fazer uma com o símbolo do anarcocapitalismo". Ela sem hesitar perguntou: "e se você mudar de ideia?" Resolvi, com a autorização dela naturalmente, fazer a tatuagem de um fi maiúsculo. À filosofia sim serei fiel até o túmulo.
Neste blog está refletida minha conversão ao anarquismo.
- Anarquismos
- Libertarianismo ou estatismo
- Kant anarquista
- Recadastramento