29 março 2013

O grande cataclismo


“É a perda do amigo Etienne de La Boétie que está na origem dos Ensaios e vem dela essa experiência do vazio e da proximidade da morte. Assim, se o tema da amizade é central é porque nele se encena o grande cataclismo: a perda do amigo e com ela seu próprio desabamento.


 Ele próprio, tomando de empréstimo as palavras de Horácio, testemunha: ‘o mesmo dia trouxe a ruína de ambos’ (E I: 28). Perda e busca tramarão, portanto, juntas essa vida extravagante que se recusa a aderir a si mesma, que não descansa mais numa identidade, e por isso se ensaia sempre, na indeterminação. ‘Si mon âme pouvait prendre pied, je ne m’ensaierais pas’ (E III: 2), diz com a mais tocante simplicidade. De fato, a vida do pensamento tem parte com a morte. Escapa-lhe indefinidamente a firmeza da carne, a lisa solidez da positividade. O pensamento tateia, deseja a resolução do corpo. ‘Estudo-me mais que qualquer outro assunto. É minha metafísica, é minha física’ (E III:13). Montaigne busca os contornos de um eu a que aquela amizade, enigmaticamente, parecia conferir consistência.



Leitor de Aristóteles, Montaigne sabe que ‘não podemos nos contemplar a nós mesmos a partir de nós mesmos’. Mais que ninguém experimentara a profunda observação do filósofo. ‘Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim também quando queremos conhecer-nos a nós mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, é um outro nós mesmos’. Só o amigo pode, então, dar corpo e consistência à alma, repouso ao seu eu fugidio, no seu reiterado esforço por fazer sentido. ‘Apenas ele desfrutava de minha verdadeira imagem e levou-a consigo. É por isso que me decifro a mim mesmo tão curiosamente’. As perdas são sempre muitas. [...] Só uma, todavia, se revela realmente mortal: a perda do amigo, quando a amizade – sendo verdadeira – sintetiza a multiplicidade fluida e inconstante da própria vida, oferecendo-se como um pólo de freqüência, no espaço e no tempo, da existência que também se deseja em si. O amigo nos espelha e nos identifica. Por isso talvez Aristóteles – que Montaigne acompanha de perto – tenha dito na abertura de sua grande dissertação sobre a amizade que ela ‘é o que há de mais necessário para viver’ (EN VIII: 1)".

 (Cardoso, Sérgio. “Paixão da igualdade, paixão da liberdade: a amizade em Montaigne”. In: Os sentidos da paixão. São Paulo: Cia das Letras, 1987, p. 161-162).

Um comentário:

Pamela C. Gois disse...
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