02 março 2013

Isso é tudo

Eu estava andando no Igapó (mas não sobre suas águas, o que até seria possível).  Foi no ano passado. Era um sábado de manhã e, sorvendo aquele ar refrescante das 6h, pensei: e que tal Santiago? Voltei para casa e a Internet me colocou nas mãos, em poucos minutos, as passagens aéreas e as reservas de hotéis. Foi uma decisão repentina. Sozinho, queria alguma evasão. Em menos de uma semana estava no Chile, pelas ruas de Santiago, Valparaíso e Viña del Mar.

Falo sobre isso apenas para dizer que, dias atrás, organizando alguns objetos, encontrei um quadro (uma moldurazinha) com o início de um poema de Pablo Neruda. E se me refiro a Pablo Neruda e Santiago, sou obrigado a dizer algo sobre La Chascona.  No dia em que estive percorrendo o interior dessa casa, quase desmaiei de tanta emoção. Extasiado, pensava: como esse homem (politicamente tão equivocado) entendeu o amor e como soube compor versos lindos sobre essa que talvez seja a experiência mais profunda e intensa que podemos ter na vida! Neruda entendeu e viveu o amor; a casa La Chascona é prova de seu amor por Matilde, por seus cabelos, lindos cabelos descabelados, seu corpo, sua alma, por tudo que uma amante-amiga representa.


Voltando à moldurazinha. A lembrança que havia trazido da visita a La Chascona era apenas o início de um belo poema. Esse início dizia o seguinte: “Puedo escribir los versos más tristes esta noche./ Escribir, por ejemplo: ‘La noche está estrellada,/ y tiritan, azules, los astros, a lo lejos’.

Nossa, isso por si só já é lindo demais. Porém, eu não conhecia o poema inteiro.  Vejam, sintam:


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é verdade, mas quando a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Pablo Neruda).

É bem verdade que não sei se esse poema foi escrito pensando em Matilde ou em outra amante. Isso não tem importância. E é verdade que o tempo do amor é curto, mesmo que dure mais de uma década, pois é amor e sua contagem é feita com outras medidas. Já o tempo do esquecimento dilata-se, expande-se num lento decurso.



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