14 fevereiro 2013

Página 112


Ainda há pouco estava revendo “Hannah e suas irmãs”, um dos três mais belos filmes de Woody Allen, e eis que minha mente ficou completamente cativa do poema que Elliot (Michael Caine) pede para Lee (Barbara Hershey) ler. Trata-se de um poema de Edward Estlin Cummings, na página 112, do livro que Elliot acaba de dar a Lee na visita que eles fazem a um sebo.




Elliot - E.E. Cummings. Quero lhe dar este livro.
Lee - Não precisa fazer isso.
Elliot - Mas eu gostaria muito.
Lee - Não precisa.
[...]
Elliot - Li um poema dele e pensei em você. [...] Adoraria lhe dar esse livro. Talvez, depois, pudéssemos discutir sobre ele.
[...]
Elliot - Não se esqueça de ler o poema da página 112.



Em algum lugar em que eu nunca estive

Em algum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu mais frágil gesto há coisas que me arrastam,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto 

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, 
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando habilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa 

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte; 

...
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
...

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal, mestre! Poesia pra tocar a alma (se é que alma existe - rsss).

A propósito do e.e. cummings (como ele gostava de assinar), encontrei num site uma frase dele que tem algo a ver com nossa primeira aula do semestre:

""A inelutável preocupação com O Verbo dá ao poeta uma vantagem sem preço: enquanto os nãofazedores devem contentar-se com o fato simplesmente irrecusável de que dois e dois são quatro, ele se compraz com uma verdade puramente irresistível (a ser encontrada, de forma sintética, no título deste volume)" - introdução ao livro: "São 5"

O site tem algumas traduções de poemas do cummings feitas pelo Augusto de Campos.

http://www.culturapara.art.br/opoema/eecummings/eecummings.htm

Forte abraço

Nelson Capucho

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Nelson Capucho. Fico muito feliz com a visita e comentário, se bem que teu comentário precisaria, ele mesmo, ser comentado por ti. Até onde vejo, há uma alusão, deveras instigante, à natureza quiçá poética da liberdade. Mas quem entende de poesia é você. Grande abraço.