21 setembro 2012

Felicidade e autoengano


Qualquer escolha que fazemos quanto ao atribuir valor, e quanto valor lhe atribuir, envolve uma oportunidade renunciada. Ao escolher uma carreira, tornamos impossível buscar carreiras alternativas. Ao decidir passar um tempo com a nossa família, comprometemos a qualidade do nosso trabalho. Consequentemente, quase toda escolha significativa envolve alguma perda. Se prestarmos atenção, não podemos evitar o sentimento de que uma experiência que não foi plenamente experimentada amplifica as perdas. Algumas vezes a perda é irreparável. A perda permanente de algo de valor é umas das mais profundas experiências humanas e que regula nossos estados de espírito e atitudes. Esta é uma consequência inevitável do pluralismo de valores; há muitas coisas com as quais se importar, mas recursos limitados para sustentar todos esses interesses.
Consequentemente, os julgamentos de aprovação que a felicidade requer devem ser julgamentos nos quais os ganhos superem as perdas; e estes julgamentos algumas vezes podem estar errados. Podemos errar ao reconhecer o que é importante para nós, ou não prestar a devida atenção quando os valores estão comprometidos. Podemos, por meio de um autoengano, fingir que, ao sofrer uma perda, o que foi perdido não nos interessava afinal de contas, ou não conseguir transformar o que nos interessa em comprometimentos que confiram identidade, que tornem possível a felicidade em longo prazo. Quando adotamos essas estratégias enganadoras, a felicidade sorrateiramente nos foge, sem que nos demos conta. Desvalorizar os nossos valores fundamentais é negar a constância necessária ao julgamento de que nossas vidas em longo prazo são felizes. O lamento ‘Eu pensava que era feliz, mas era uma ilusão’ não é incomum. Ele expressa o fato de que a felicidade vai além de nossos estados subjetivos.
FURROW, Dwight. Ética: Conceitos-chave em filosofia. Tradução Fernando José R. da Rocha. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 137.

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